Sobre esperança…
Porque acordei com o coração repleto de hesitações e escrevo porque não me basto; porque meus pensamentos vagam instáveis como nuvens que eu não consigo tocar ou segurar. Mas as palavras são o aço que eu moldo na minha forja. Duras, resilientes e passíveis de transformação.
Então, escrevo, espero e reflito sobre o meu próprio esperar.
Porque a espera pode ser uma longa travessia, permeada de tropeços, curvas, riscos e incertezas, mas também de boas surpresas que encontramos em um atalho qualquer.
Somos surpreendidos quando nos desapegamos das nossas expectativas e entendemos que tudo é transitório e, portanto, qualquer projeção de futuro é uma ilusão.
Para os budistas, “quando não temos esperança, temos todas as coisas.” Ananda, o guardião do Darma, perseguiu o Nirvana ao longo de todos os anos em que esteve ao lado de Buda. Em vão. Foi somente no amanhecer, após a noite em que Sidarta morreu, que Ananda encontrou a iluminação. Quando abandonou completamente a esperança.
Para Quintana, ela é a louca que se atira do décimo segundo andar do ano e é encontrada incólume na calçada, dizendo devagar: “O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA.” Aquela que permanece viva (apesar dos arranhões e cicatrizes), por piores que sejam as tombos. E tão impulsiva, que apaga da nossa memória o medo da próxima queda.
No mito de Pandora, ela é o que resta à humanidade, quando todos os males do mundo escapam da caixa. Seria o nosso único refúgio? Ou a última desgraça que Zeus reservou aos homens?
Não foi à toa que Bill Watterson nomeou o sábio, otimista e afetuoso tigre de pelúcia das suas tirinhas de Hobbes. O filósofo descreveu a esperança como sinônimo de confiança: “a paixão é toda esperança; se ocorre o contrário é medo.”
Mas parte dos nossos medos também não nasce das esperanças frustradas? Da ideia superficial de que podemos pré conceber uma coisa sobre a qual não temos controle?
Se nos versos do samba, “não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”, talvez o exercício supremo da fé seja não ter esperança e deixar a vida fluir, sendo o nosso timoneiro.
Pois aí, então, diante da imprevisibilidade do que não esperamos, tudo se revela possível.

