Sobre transgressões
Lembro de uma história, lida por uma professora na minha infância, chamada Caçula e o mundo lá fora. O texto era sobre um pintinho , o Caçula, que vivia sonhando com um mundo que existia por trás do muro que cercava a sua granja.
Certo dia, alguém esquece o portão aberto e o pintinho, claro, escapa, para finalmente realizar aquela aventura de conhecer o mundo lá fora.
Ele fica deslumbrado com tudo o que vê e sente, naquele mundo tão encantadoramente assustador, tão maior do que tudo o que ele havia imaginado. Tantos sons, cheiros, sabores, pessoas, movimentos. Tantas coisas para experimentar além da sua granja.
Penso que essa história, lida para uma turma de alfabetização há quase três décadas, pode ser uma boa metáfora para o mundo adulto. Porque todos nós, um dia, fomos (ou ainda seremos) aquele pintinho.
E qual é a sua granja?
Pode ser sua família, um relacionamento, um trabalho. Pode ser uma determinada moral ou crença. A necessidade de atender a uma expectativa ou se adequar a um padrão. É aquilo que de, alguma forma, te impede de se expandir na sua plenitude.
Transgredir o muro que nos cerca não é fácil e pode ser doloroso, porque, muitas vezes, não foi a nossa escolha. Fomos arremessados para o mundo lá fora quando tudo o que considerávamos estável e seguro desmorona. Se não há mais um abrigo, resta-nos o risco da incerteza e do imprevisível.
Em Beleza Americana, o personagem do Kevin Spacey fala, em certo momento, que tudo aquilo que fazemos, depois de achar que não conseguiríamos, nos faz pensar em outras coisas que nem imaginamos que podemos fazer.
Não me lembro do final da história do Caçula. Mas as nossas histórias, somos nós que escrevemos. E certamente experimentar o mundo é bem mais interessante do que observá-lo do lado de dentro da granja.
