
Movimento
Externei o que penso sobre causa e ideia nos últimos textos, neste falarei sobre o significado político do termo movimento, elemento que completa o tripé imaginário que criei neste “início de trabalho”.
Fazendo uma breve recapitulação, caso você não tenha exatamente três minutos para ler os textos citados, expliquei anteriormente que causa pode ser tanto benéfica, se vista como uma correção do passado para um futuro melhor, como maléfica, se vista como um refúgio social/intelectual. É importante separar bem isso. Há cara e coroa nessa moeda.
Já a ideia é algo raro e natural de quem tem conhecimento. E, ao contrário da causa, a ideia, se bem executada, sempre vai ser boa. Ela pode ter consequências ruins, mas em princípio nasceu e morreu unânime. É uma moeda que será jogada pro alto contendo dois lados semelhantes.
O problema está no que chamo de movimento.
O movimento une a ideia com a causa, só que, como aprendemos na escola, há um problema grande ao fazer tal multiplicação.
Isso acontece porque, como dito acima, a ideia parte naturalmente daquele que tem conhecimento; já a causa (natural) é resultado de ações anteriores. Ela não precisa surgir do nada. Não se inventa uma causa.
Ou seja, quando você coloca sua ideia (algo novo) sobre uma causa (algo perene), ela automaticamente deixa de ser uma causa e passa a ser apenas uma ramificação do que foi. Entra em cena o movimento.
O movimento é, portanto, uma ramificação da causa. Atualmente podemos dizer que o movimento feminista é uma ramificação do feminismo de primeira onda, principalmente. Está ligado, mas não é a mesma coisa. Por isso que se chama movimento.
Acontece que qualquer um pode ter uma ideia, desde que tenha o conhecimento sobre o assunto determinado. E quando mais de um indivíduo cria sua própria ideia em cima dessa ramificação, ele ou a destrói ou cria uma outra ramificação. E assim sucessivamente.
Com muitas delas, temos muitos debates interessantes, outros nem tanto; alguns resultados importantes, outros nem tanto; alguns personagens importantes, outros nem tanto; heróis, vilões e etc. Mas a causa deixa de existir.
Continuando com o exemplo do feminismo, se esse movimento de terceira onda, que seria o atual, combatesse o machismo com estudos, fatos, números, projetos de lei, exemplos e etc., e não com discursos em redes sociais, flagras no metrô e coisas do tipo, tenho certeza que teríamos uma causa apoiada por toda a sociedade e não movimentos que até discutem entre si.
“Causas apoiadas por toda a sociedade” quer dizer, na verdade, causas apoiadas por políticos, pensadores e estudiosos de forma geral. É claro que há imbecil que acha mulher um ser inferior ao homem; como há quem ache negro inferior a branco, criacionismo ciência, que a Terra é plana e diversas outras coisas. Estes não devem importar; mas hoje acabam importando.
Justamente porque a causa se misturou com a ideia e se transformou em vários movimentos diferentes, que consequentemente angariam mais opositores que apoiadores.
O movimento é algo frágil. Muito frágil.
A torcida do Liverpool F.C, da Inglaterra, recentemente, deu um belo exemplo de movimento: conseguiu manter em £55 o preço do ingresso máximo para entrar em Anfield Road (estádio em que jogam); a diretoria do clube da terra dos Beatles havia determinado que seria de £77 a partir da próxima temporada.
Como eles fizeram isso? Simples. No minuto 77 de uma partida válida pelo Campeonato Inglês, eles abandonaram as arquibancadas do estádio. Até então o time vencia por 2 a 0, mas coincidentemente (ou não) acabou levando o empate nos minutos finais (vai até 90) do confronto. Dias depois, então, a diretoria revogou o aumento.
Tal movimento foi uma ramificação de uma causa já conhecida por lá, que consiste justamente em baixar o preço dos ingressos de todos os estádios, de forma geral. O que os torcedores do LFC fizeram foi aproveitar a causa já existente e aceita até por você, que provavelmente nem entende de futebol, e colocar a ideia de abandonar as arquibancadas em cima. Funcionou, mas tinha mais chance de não funcionar, como várias outras “ramificações” do mesmo tipo.
É algo extremamente frágil e que precisa pertencer a uma causa, ser muito bem pensado (em termos de ideias) e executado para dar certo.
Este é o movimento.