Eu cresci em um apartamento simples em um predinho de Santos. Um dia, nossa vizinha de andar passava aspirador no capacho, mas sem fechar a porta do apartamento, de forma que o barulho ensurdecedor do aspirador ecoava pelo corredor do prédio. Meu irmão abriu a porta e pediu para que, por favor, ela aspirasse o capacho dentro do apartamento e de porta fechada para que o barulho não nos incomodasse. Ela disse: “mas você toca piano sempre, e eu nunca reclamei do barulho”. Sabe o que ele respondeu? “Problema seu. Deveria ter reclamado”.

Se você nunca reclamou de uma situação que incomodava, e aguentou quieto, e hoje está bem, que bom. Mas não exija que os outros também se conformem. Não tire o mérito de quem tenta mudar uma situação ruim só porque, enfim, sempre foi ruim. Isso, e não levar porrada quieto, é o que se chama de resistência, de luta, de vontade.


Um imperativo da cultura que me incomoda é o “Aguente, e Só Assim Merecerás”.

Passa por muitas esferas da vida, e é um pressuposto que impede a mudança para melhor, se considerarmos como mundo ideal um mundo onde a competição tóxica seja rara, onde se consiga trabalhar em conjunto, onde a vitória do outro não signifique minha derrota.

Se eu exijo um bom ambiente de trabalho, eu recebo um “Aguente, e Só Assim Merecerás”; se eu reclamo da crise, do tratamento das mulheres no mercado de trabalho, se eu me manifesto contra relacionamentos psicologicamente abusivos, “Aguente, Pois O Mundo É Assim e Só Sendo Forte Merecerás Paz e Glória”. Quem questiona, de acordo com o pressuposto, é fraco.

Assim, esse discurso colabora para a criação de ambientes de trabalho insalubres e falsas figuras de autoridade.

Tanto no ~cruel mundo corporativo quanto no mundo flexível e de parede colorida dos jobs de comunicação, é comum que se aguente os desaforos de uma pessoa mais velha que faz questão de repetir que precisa ser ouvida e obedecida porque está há mais tempo no mercado. Você aguenta quieto para, no futuro, conquistar o direito de ser uma pessoa mais velha que exige atenção e obediência porque está há mais tempo no mercado. Ad infinitum.

Mas não precisa ser assim, né? Você pode quebrar o ciclo. A Entidade Mercado não se comporta assim sozinha. Não é o destino, não é inevitável. Ainda bem que eu aprendi cedo, já que tive a sorte de trabalhar com gente boa e experiente que conquista respeito sem recitar currículo. Basta fazer um trampo de qualidade e criar um ambiente gostoso de trabalhar, e o respeito vem naturalmente.

O imperativo também é condescendente com diversos tipos de relações abusivas, convencendo o abusado de que o sofrimento é um troféu.

Se você quer entrar no mundo do cinema, você precisa aguentar — e se orgulhar! — de trabalhar em péssimas condições, não ter direitos, não ter família, não ter vida social, aguentar grito de gente escrota. Se você quer entrar no mundo do teatro, você precisa aguentar o assédio moral, psicológico e sexual de dramaturgos que usam do poder que têm na área quando você ainda não tem ferramentas para se defender. “Esse é o modus operandi do mercado”, as pessoas dizem, “todo mundo passa por isso, você não pode ficar de mimimi”. E sabe de uma coisa? Não é não.

“Eu passei por tudo isso, e por isso sou mais forte do que você, que fica aí reclamando”. Cara, na boa, quem é mais forte? Quem apanha quieto ou quem questiona a surra?

Finalmente, esse imperativo é o pretexto ideológico de quem pinta de ególatras e mimados uma gente que se recusa a se conformar.

Afinal, se eu me submeti a todo esse sofrimento para me adequar, do que esses mimados estão reclamando? Aguente, e Merecerás.

Com isso não entenda que eu sou uma pessoa que falta com respeito pelos mais velhos. Tenho imenso respeito por alguns grandes chefes, grandes colegas de trabalho, grandes sihings e sijehs nas artes marciais, grandes professores de universidade. Só me falta energia pra aguentar groselha de gente que se recusa a admitir que ainda precisa ouvir, aprender, reconhecer falhas, mudar.

Levar desaforo não é normal nem necessário. Ficar no escritório fazendo facetime sem ter serviço algum pra fazer não é necessário. Aguentar piti dos mais velhos não é necessário; você pode até ser jovem, mas isso não faz com que você seja menos merecedor de respeito. Você, jovem, pode ter alguma coisa a acrescentar, ao invés de passivamente absorver os Mandamentos do Sábio Que Se Regozija Em Ser a Referência Para Todo Mundo E Por Isso Não Ouve Ninguém.

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