Por que Marcela Temer incomoda tanto?

Desde a famigerada matéria da Veja sobre a esposa “bela, recatada e do lar” que Michel Temer teve a sorte de encontrar, qualquer coisa me incomoda quando vejo Marcela na mídia.

Parei para tentar entender por quê. Marcela provoca sentimentos complexos. Afinal, eu sempre acreditei que tudo bem ser dona de casa, tudo certo se uma mulher quer se dedicar inteiramente aos seus filhos, se é isso que ela quer. Parei para me perguntar se o que eu sentia não era inveja da beleza, do dinheiro, das alegrias simples que ela proclama ter.

A reação de praticamente todos com quem eu comento sobre Marcela é questionar, de forma mais ou menos direta, mais ou menos bruta, se o casamento é fruto de sentimento sincero ou de interesse. O que é surpreendente é que eu não vivo entre bordadeiras do interior; isso não é da nossa conta, isso não é política, é fofoca. Desconfiei que meu incômodo tinha raízes mais profundas.


No dia cinco de outubro de 2016, Marcela deu sua primeira declaração como primeira-dama e embaixadora do programa Criança Feliz. No espaço do discurso que teoricamente seria usado para descrever o programa, Marcela dá a impressão de que irá passar de casa em casa ensinando as mulheres beneficiadas pelo Bolsa Família a cantar canções de ninar e a amar seus rebentos. Mais do que apresentar o programa — que ninguém entendeu muito bem do que se trata — o discurso tinha como objetivo apresentar Marcela para a sociedade.

“Toda vez que beijamos nossos filhos pequenos, que conversamos com eles, cada vez que os carregamos nos braços, que lemos uma história ou cantamos uma canção de ninar, estamos ajudando no seu desenvolvimento. O que nós mães percebemos instintivamente tem sido comprovado pela ciência.”

Mais do que uma beldade silenciosa ao lado do presidente, o discurso mostrou que sua persona pública será a de Mãe de Amor Transbordante. Ela ama as crianças, ela é doce, ela conforta.


Concordo com uma parte do discurso de Marcela Temer: os primeiros anos da infância de uma criança são essenciais para o desenvolvimento do seu corpo, da sua mente, do seu comportamento e da sua visão de mundo. É nos primeiros anos que a criança define seu conceito de normalidade. O que está fora gera um desconforto. Essa primeira organização de mundo deixa marcas profundas, difíceis de mudar.

Quando eu era pequena, minha rua era a rua Maurício José Cardoso, eu era castigada sem violência caso brigasse com meu irmão, igreja era uma coisa chata mas tinha que ir, a universidade era um mundo enorme e encantado, e o presidente era Fernando Henrique Cardoso.

Na escola, me ensinaram as funções de um presidente, de um governador e de um prefeito. Ensinaram que a primeira-dama tem a função de trabalhar em projetos sociais durante o mandato do marido. Pelo tom de voz da professora, entendia-se que não era uma função lá muito séria.

Não me lembro de alguém perguntar como se chama e o que faz o marido de uma possível presidente mulher.


Enquanto o Aurélio informa secamente que a primeira-dama é a esposa do presidente, a Wikipédia dá uma definição mais completa:

O título foi inspirado pelo modelo norte-americano e, teoricamente, seu papel é desempenhar aquilo que seu marido, o presidente, não consegue por falta de tempo, liderando, por exemplo, campanhas de caridade e de voluntariado ou participando delas, a fim de ajudar os menos favorecidos.

O mesmo artigo da Wikipedia informa que Ruth Cardoso

[…] se notabilizou mais por sua intelectualidade, tendo sido a primeira esposa do presidente a conquistar um diploma universitário.

Isso foi em 1995.

O verbete “Primeira-dama” da Wikipédia é mais generoso:

A princípio, a primeira-dama não possui funções oficiais dentro do governo, mas costumam participar de cerimônias públicas e organizar ações sociais, tais como eventos beneficentes. Além disso, uma primeira-dama carismática pode ajudar a transmitir uma imagem positiva de seus maridos à população.

No antigo exemplar do Aurélio que tenho em casa não consta o verbete “primeiro-cavalheiro”. Na Wikipédia sim, embora não especifique quais são as suas funções. Resolvi fazer uma breve pesquisa, e descobri que existe um certo rebuliço na mídia a respeito dessa questão; com Hillary Clinton disputando o cargo de presidente dos Estados Unidos, todos passaram a se perguntar qual será a função de Bill Clinton. Será que ele vai organizar jantares beneficentes e criar programas para incentivar a leitura?

Segundo matéria no Terra sobre as primeiras-filhas (filhas dos candidatos à presidência) na disputa entre Donald Trump e Hillary Clinton:

A expectativa cresce porque Ivanka vem tendo participação mais efetiva na campanha do que a mulher de Trump, Melania. E também porque espera-se que o marido de Hillary, o ex-presidente Bill Clinton, não se ocupe, caso se transforme em “primeiro-cavalheiro”, com a organização de eventos de jantares, tarefas tradicionalmente desempenhadas pela primeira-dama.
Quem é o marido de Angela Merkel?

Em matéria da Exame,

Existe, entretanto, uma certeza: se voltar à Casa Branca, Bill Clinton estará longe de se comportar como uma planta, considerando que é imperfeito e muito político para isso.
[…] Hillary Clinton confidenciou que pensava em “encarregá-lo de revitalizar a economia. Porque, vocês sabem, ele sabe como fazer”, disse, em alusão ao período de sua presidência, marcado por um orçamento equilibrado e pela criação de milhares de empregos.
[…] Tradicionalmente, as primeiras-damas, que têm seu próprio chefe de gabinete e pessoal na Casa Branca, se dedicam a causas que as motivam e não criam polêmicas: a leitura e a educação para Laura Bush; o jardim, a obesidade, os ex-combatentes e o direito das mulheres para Michelle Obama.

No Brasil, durante as últimas eleições para as prefeituras, os primeiros-cavalheiros também se tornaram objeto de curiosidade. Jorge Branco, possível primeiro-cavalheiro do Recife, parece confuso em relação às suas funções:

JB: Não existe profissão de primeiro-cavalheiro, então vou seguir ao lado dela, como disse anteriormente, para dar o suporte pessoal e familiar que ela precisa.
[…] Há algum primeiro cavalheiro que lhe seja referência?
JB: Não.

Quando criança, eu sabia que, se quisesse ser presidente, isso não era proibido. Eu poderia tentar, mas ciente de que era um feito inédito para uma pessoa como eu, do meu gênero.

Às vezes eu paro e imagino como vai ser a visão de mundo das menininhas que cresceram e aprenderam na escola que a presidente se chama Dilma Rousseff. Independente de questões partidárias, ou da sua competência como chefe de Estado, coisa que elas só vão buscar entender mais tarde, é inegável que Dilma é uma mulher, como elas serão quando crescerem. De uma forma sutil e profunda, isso nos diz alguma coisa sobre as nossas próprias capacidades.

Um presidente comandando um país e sua esposa, a primeira-dama, cuidando de caridade e organizando jantares: essa era a normalidade. Após Dilma, a normalidade para uma geração de meninas é que a mulher não sobe apenas ao lado de um homem.

Deslocou-se o papel da mulher nos espaços de poder.


Penelope Lockwood, da Universidade de Toronto, é autora de um artigo chamado “Alguém como eu pode ser bem-sucedido: estudantes precisam de modelos do mesmo gênero?”. Nele, Lockwood define o conceito de role model:

“Role models” são indivíduos que dão o exemplo do ápice do sucesso que alguém pode conquistar, e frequentemente também demonstram o padrão de comportamento que é necessário para atingir tal sucesso. Identificando um “role model”, o indivíduo pode se inspirar para perseguir objetivos semelhantes.

Entre o grupo que Lockwood investigou, as mulheres escolheram 63.1% de role models do mesmo gênero, contra 36.9% de role models homens. Entre os homens, 75.6% escolheram um role model masculino, contra 24.4% que tinham um role model feminino.

Na mesma pesquisa, as mulheres que Lockwood entrevistou descreveram que as suas role models as ajudaram a ultrapassar algumas barreiras de gênero em áreas que são predominantemente masculinas, como ciências exatas (física, química, matemática), áreas que envolvam tecnologia, e posições de liderança no geral (exemplos meus). Se eu sou uma mulher cientista, por exemplo, e encontro algumas dificuldades com o machismo da academia e dos meus colegas, eu penso em Marie Curie, que mesmo com todos os revezes da época, conquistou seu espaço no laboratório e ganhou dois prêmios Nobel. Um cientista homem de nada serve para me inspirar, já que ele não viveu as mesmas dificuldades que eu. Sem um exemplo feminino, é muito mais fácil que eu caia no conto de que os “cérebros” das mulheres são “diferentes”, de que nós somos “naturalmente mais aptas” para as artes e as ciências humanas.

O Instituto Geena Davis realizou um estudo sobre a percepção da desigualdade de gênero e raça na mídia. Um dos principais resultados é que 33% das mulheres brasileiras foram influenciadas a buscar carreiras por causa de modelos que viram na televisão — ou seja, se escrevemos filmes, novelas e séries com personagens femininos que não são apenas peruas, esposas, filhas virgens ou serviçais, isso realmente tem um impacto na vida real. Sem contar com os role models que essas mulheres têm nas suas famílias, na região, entre as amigas.

Uma matéria do Financial Times do dia 29 de setembro desse ano, cuja pauta é defender que os role models femininos não são “tão bons assim” (assunto para um próximo texto), a jornalista cita o exemplo de algumas vilas na Índia. Nas vilas que contavam com mulheres como líderes, houve um crescimento de 25% na probabilidade de que uma mulher falasse nos encontros políticos.


Logo entendi que meu problema com Marcela não é pessoal; minha intenção não é atacá-la na sua vida privada, nem saber se ela ama o presidente ou não. O que me incomoda é o uso que se faz da sua imagem, o que alguns chamam de primeiro-damismo.

“Além disso, uma primeira-dama carismática pode ajudar a transmitir uma imagem positiva de seus maridos à população”.

No governo de Dilma Rousseff, nós vimos uma mulher não-sorridente subir ao poder. Como Lockwood atestou em seu artigo, muitas vezes o role model não tem a ver apenas com gênero, mas com outras características, como a cor da pele, a forma com que uma pessoa se porta, o formato do seu corpo, do seu cabelo, suas roupas, sua personalidade.

Encontre as diferenças entre jovem Dilma e jovem Marcela.

Dilma criou um ruído. Nós, que estamos acostumados a confiar em homens brancos de terno, ficamos atordoados com aquela dura ex-guerrilheira desenvolvimentista que não tinha muita facilidade com discursos. Para nós, a mulher no espaço de poder era a esposa carismática. Era Lady Di e Kate Middleton. É Marcela Temer.

Durante todo o mandato, Dilma recebeu ofensas relacionadas com o fato de ser mulher. E ex-guerrilheira. Desde a fofoca risível de que uma ex-amante estaria no Planalto cobrando pensão até coisas mais baixas e violentas, como aqueles que a ofendiam por ser gorda, ou por ser velha, ou que desejavam sua violação e morte.

“A vida, senador, é assim. Dura.”

Como não é da nossa conta se Marcela ama Michel, não é da nossa conta se Dilma gosta de meninas ou meninos. Pelo menos, não deveria ser. Mas é interessante que isso se torne uma pauta; na verdade, isso demonstra como ficamos confusos com uma mulher de cabelos curtos, com voz grossa e sem marido, ocupando o lugar que ela ocupou.

No processo de impeachment, o novo presidente não deixou nem o cadáver esfriar e já limpou as mulheres dos ministérios, instaurando novamente o governo branco e masculino ao qual estávamos acostumados. Mas alguma coisa mudou. Em meio a manifestações daquelas que sentem falta de vozes femininas nos espaços de poder, para quebrar com “a imagem de governo masculino e sisudo”, o presidente nos apresenta um outro conceito, bastante conhecido, de presença feminina: Marcela.

As Belas e as Feras.

Marcela é branca, dócil, e casou-se com seu primeiro e único namorado, cujo nome está tatuado em sua nuca. Marcela é linda, principalmente quando sorri, e é pela juventude e beleza que chama a atenção. Sua posição de destaque não é decorrente do que fez durante sua vida: antes de ocupar o posto de primeira-dama, Marcela trabalhou por um curto período como recepcionista, fez bicos como modelo “para comprar umas roupinhas”, e se formou em Direito quando já era casada com Michel — com direito a aulas particulares do marido — mas nunca exerceu a profissão.

O mérito de Marcela é ser bonita e, por isso, ter conquistado um ótimo marido. Seu carisma é fruto da combinação entre a beleza e o comportamento recatado, angelical.

Do que fala Marcela? Com um tom pausado, quase graciosamente inseguro (explicitado com o olhar que lança para o marido durante o discurso), ela fala sobre transformar em ação aquilo que “nós mães percebemos instintivamente”. Com um tom aveludado e apaziguador, ela fala sobre amar as crianças desde a gravidez e sobre ler histórias para nossos filhos pequenos.

Tudo isso traz à tona a princesa da Disney, a loira que apresentava o programa infantil, o nosso ideal de mãe, de tia, de mulher. Ufa.

Marcela é a mãe que vem dizer, depois do susto, que agora tudo vai ficar bem.

Esse é um movimento profundamente ideológico do novo governo, consciente ou não. Nossa relação com a mulher no espaço de poder havia mudado na era Dilma. Hoje, uma das estratégias que Temer utiliza para passar a imagem de solidez é substituir a mulher tresloucada, o trem desgovernado que não sabia o que fazia com a nossa economia, por homens que, esses sim, sabem trabalhar. A mulher voltou para o lugar que lhe pertence: ao lado do presidente, representada por um dos seus melhores espécimes.

Assim, simbolicamente, a participação política da mulher toma um outro rumo. Ou seja, regride. Os role models, os exemplos, os incentivos que elas tinham para se tornarem ministras, diplomatas, representantes e líderes, é substituído pelo sedutor modelo da mulher angelical que vive em função do marido. É muito fácil se deixar levar.


Não há nada de errado em ser Marcela.

Mas ela não pode ser aceita como a representante do gênero feminino no espaço de poder. Não se pode deixar que um outro tipo de mulher, aquela menos palatável, menos dócil, mais ativa, seja sinônimo de crise, de descontrole, de angústia.

Nós precisamos mostrar para nossas meninas que elas não precisam ser esposas do presidente. Elas não precisam conquistar seu valor através do matrimônio, nem viver em função do desejo e da aprovação masculina, nem sorrir sem ter vontade, nem falar mais baixo se a sua vontade é falar alto, nem viver com medo de incomodar.

Nossas meninas podem ser muito mais do que Marcela.

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