Vi Laerte-se, no Netflix

Quando me falavam de Laerte, a primeira coisa que vinha à mente era seu traço e não seu rosto. Naquela época, se visse Laerte na rua não reconheceria. (Ao contrário de Angeli, por exemplo, que tem aquela cara de véio marvado goxtoso.) Os Piratas do Tietê, Suriá, e principalmente Deus, esses fizeram parte do meu imaginário desde muito nova. As tirinhas foram mudando conforme eu entrava na fase adulta, eu acompanhei o abandono dos personagens, a violência, a estranheza, a sensibilidade das tirinhas novas.

Carla Feliz é das minhas favoritas

Quando soube que Laerte decidiu ser mulher, minha resposta foi uma risada e um “esse cara é muito doidão mesmo”. Não como um deboche, é legal gente doidona, o frescor, a coragem, tudo mais. Acompanhei também enquanto Laerte se tornava um corpo-imagem pública, que assumiu uma série de bandeiras bacanas e necessárias. Se tornou público como ela zomba da própria incapacidade de raspar os sovacos, como ela se diverte descobrindo os vestidos e as sainhas, como é inocente descobrir-se mulher, humanizando um processo que é tão difícil pra tanta gente. Inclusive pra nós, mulheres cis.

Mas o documentário Laerte-se é um pouco chato.

O que me impediu de cair no sono foi a casinha de Laerte. Acho que é meu personagem preferido. Já tinha ouvido dizer que era ali pra Zona Oeste, nos lados do Butantã, e que era simples, e que tinha direito até a uma gatinha descadeirada, mas assistir aquele lugar é outra história. Temos sequências de Laerte passando por coisas jogadas no chão para chegar aqui ou acolá, temos um plano com uma citação que diz “enquanto você estiver viva, vai haver louça”, uma privada que precisa ser trocada, uma lista de afazeres. Fiquei quase constrangida de ver aquela intimidade que ela tem vergonha de mostrar, por medo de que descubram que ela é uma fraude. Tão de verdade.

Em depoimento, Laerte não fala nada de mais. É uma ótima cartunista, uma pessoa adorável e um péssimo personagem. Não tem grandes insights, apesar da boa vontade com a câmera. Eliane Brum se esforça, chegando a escancarar sua pauta e perguntar: “você está investigando o que é ser mulher pra você”, ao que Laerte responde com um “sim” que não diz nada, meio solto, meio foda-se. Laerte fala que sim, que sei lá, que não sei pra onde eu tô indo. Ela é monótona, monossilábica, e diz com todas as letras que tem medo de cagar regra, que tem medo de que as pessoas levem a sua opinião a sério. Laerte rejeita a profundidade e não é por falsa modéstia, é porque pra ela, ela não tem nada a dizer. E não tem mesmo.

Laerte é um gênio plástico, no sentido de artes plásticas. Ela é concreta, uma mestre que tem a técnica e a inteligência natural de que um artista precisa para passar sua sensação para a forma, ou nesse caso sua vontade para o corpo, e se tornar um símbolo. Parece que é tudo meio sem querer, meio ai que susto, meio não gosto que vejam minha bagunça. Eu vejo o ensaio da Rolling Stone e penso que sua força realmente não é a fala, é a forma, a presença, o desenho.

Lola é uma gostosura

Antes de qualquer coisa, Laerte é uma cartunista filha de sua geração. Ela, Angeli, Jaguar, Glauco-que-Deus-o-tenha, são artistas com muita energia, mas no fim do dia estão plenamente convencidos de sua pequenez. E se zombam. “Somos só uns caras desenhando umas tirinhas”, eles dizem, na minha cabeça, dando de ombros e fumando um cigarro, “o que vocês querem que a gente te diga?”. Laerte diz que hoje em dia mais sente do que pensa, e ela sente desenhando, e suas tiras são o que ela tem a dizer. Um artista não tem a obrigação de dar um discurso ou uma unidade à sua obra. É arte, então ninguém precisa provar nada a ninguém.

Uma biografia, para nosso amigo Bourdieu, é uma ilusão. Biografias são colagens de episódios da vida de alguém montadas de forma a fabricar um sentido, um destino — quando, na verdade, nada disso existe. A vida é composta de muitos momentos de tédio, momentos inúteis, bagunça, fracassos, horas de dedicação que não servem para nada. Desde os três anos eu tinha um tino para a escrita, diz o escritor consagrado, mas aos três anos ele também gostava muito de números e de dinossauros, mas isso pouco importa porque hoje ele é um escritor consagrado, mas quem decide que essa também não é a história de uma vida?

Mas Laerte não é uma vida, ela é um corpo. A grande sacada desse documentário é mostrar que esse corpo público ainda é corpo: velho, surdo, assustado, inseguro, descabelado. É uma antibiografia. Por mais que me irrite a sensação de autoimportância da encenação da troca de e-mails ou da composição de silêncios depois de frases vazias para tentar conferir alguma profundidade, a irreverência natural e a insegurança humilde de Laerte transbordam. Nada disso tem importância, diz o tom da sua fala. Minha vida como homem não foi um erro, foi bom também, mas agora eu quis virar mulher. Laerte cortando melão pro neto, Laerte que não gosta de lavar a louça, Laerte que enrola para consertar a infiltração do teto. Laerte somos todos nós, artistas desimportantes, preocupados com trocar a privada que quebrou.

Laerte-se é um filme chato e poderia ter uma hora a menos, mas eu gostei.

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