Barbarossa

Você não me presta pra nada.

O corpo perto, mas esses olhos cheios de medo de me levar pra sua vida. Pensa que eu não sei o que você pensa de mim. E eu aqui, me fazendo de idiota pra você. Vi tutorial de maquiagem, comprei blusinha. Eu finjo bem, pra quê não sei, sou bem trouxa, boa puta.

Os pares de vasos que você chama de amigas agora me olham com condescendência. Nasceram com essas sombras nos olhos. Os narizes farejam o ônibus que peguei para chegar aqui. Os sorrisos amargam a qualquer palavra minha. Você me apresenta como sua amiga e encosta assim com o cantinho do corpo no meu, jogando uma migalha, cachorro bonito, querendo dizer que pelo menos até amanhã essa palhaçada vai durar.

Eu queria que você tirasse a camisa e instalasse uma porção de armários na minha cozinha. Queria que você forrasse o chão da minha casa com jornal e me ajudasse a lixar e a pintar os móveis que estão descascando, e depois queria ler no seu colo em silêncio. Queria que me ajudasse a completar o dinheiro para um colchão de casal, e aí inventar uma cama de revista de decoração, no chão, com abajur e tapete, e perguntar sua opinião. Queria relaxar depois que você me comesse. E você ia dormir e acordar e finalmente aceitar um café.

Na pista com música alta você não pode me ouvir. Covarde. Tira minha arma, atira pelas costas, me deixa para morrer no meio dessa neve. Aqui eu não sei como agir, seu cachorro imbecil. Não aguento dançar, não aguento os olhares, as mãos na cintura. Em pouco tempo você desaparece e eu prefiro não te procurar. Fecho os olhos com força, como mamãe ensinou, e desapareço no ar.

Acordo assustada com você lambendo meu olho esquerdo. Porco sujo e sem respeito. Cocei para conferir se ainda estavam inteiros; e você vem, me olhando com essa fome de novo. Resolve abrir espaço para eu estar. O lugar entre eu e você, esse eu domino. Eu conheço, você não.

Eu, violenta soldado russa em pele de urso. Você, ridículo alemão nu.

São móveis bons, só precisam de uma lixa e um verniz. Uma tarde ensolarada de domingo. Se você quiser, nós podemos jogar fora os móveis de compensado branco e ficar só com a cama e o criado-mudo de cerejeira maciça que mamãe deixou. Podemos pendurar uma rede pra tentar trepar e dar risada depois. Podemos viver de poucos cheiros: o meu, o seu, terra, madeira e papel velho.

Melhor voltar para casa agora. Você levanta e enquanto cobre essa bunda seca, antes de fugir para o resto da noite, na sua miséria eu sinto que você não vai conseguir chegar tão mais longe. Eu sinto nesses seus pés gelados a sua fome e o seu frio. E as tripas de cavalo que vão te esquentar as carnes dessa vez não sou eu. Agora você ficou sozinho e eu me tornei mais alguns metros dessa estrada que mata de frio os soldados mais corajosos.

Melhor voltar agora.

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