A PEQUENA FLOR

Por Kika Oliveira, professora de teatro infantil

Qual é o superpoder que o teatro pode entregar a uma criança? Talvez seja o poder de empoderar, de provar suas capacidades e dar a chance dela ser protagonista da sua própria jornada.

Certo dia, recebemos uma ligação. Era uma mãe, com a voz meio travada, talvez por medo da recusa de aceitação. Primeiro perguntou sobre as aulas, depois perguntou se o teatro é para todos os tipos de crianças, pensamos “e criança tem tipo?”.

Talvez ela quisesse dizer um tipo de roupa, um tipo de preferência musical, sei lá, algo parecido. Mas a mãe ainda de voz acuada, abriu o coração, a psicóloga havia indicado a filha de 7 anos para aulas de teatro (novidade, né?). A pequena, dizia, tinha vários problemas, entre eles, excesso de timidez e déficit de atenção.

No primeiro dia, a mãe a trouxe agarrada em seus braços, com olhos apavorados. Ela me chamou no canto e começou a citar uma lista de cuidados, advertências e pedidos. Disse que qualquer coisa que acontecesse, pra que eu a ligasse. Ficou com receio de deixá-la sozinha. Disse que se o grupo não se adaptasse à pequenina, que eu fosse franca. Ela a tiraria para não atrapalhar o desenvolvimento de outras crianças que já estavam na aula há mais tempo.

Pois bem, levei um grande susto da forma que essa mãe explicava e recomendava tantas coisas. Prestei atenção em todos os detalhes. Mas aqueles olhinhos pequenos, ao lado da mãe, não pareciam dizer que ela era “problema”.

Eu tive um grande medo e uma grande missão na minha frente. Sabia que não era com a criança, mas com a mãe.

A pequenina ficava sentadinha, tímida e recolhida, enquanto eu dava as aulas. As outras já sabiam as regras sobre como acolher novos alunos, inclusive o que não poderíamos aceitar, entre elas, a rejeição e a falta de amor.

É preciso entender que o teatro não é só decorar o texto e interpretar. Antes disso, muitas emoções precisam ser trabalhadas. Nos exercícios, navegamos por outros mundos até acharmos uma história certa para ser apresentada ao público.

A mãe continuava a trazer uma lista imensa de cuidados para as aulas.

A filha havia se adaptado e interagia com os colegas. Em seu tempo, desenvolveu várias coisas. Foi minha mini monitora, fez desenhos lindos, fazia danças engraçadas e não parava de criar.

Houve um dia em que a mãe me contou que as notas na escola aumentaram. Ela começava a me pedir conselhos. Contou que em casa, a filha ficava encolhidinha, que parecia que estava em outro mundo. Em outras vezes, ficava ligada até demais.

Hora de entrar nesse mundo!

Já estava perto de encontrarmos a história certa para apresentarmos. Um dia fizemos um exercício sensorial. Os alunos ficavam de olhos fechados e pedi para eles viajarem para os lugares que imaginavam em suas mentes. A música tinha som de água, vento e pássaros cantando. Uma floresta, um jardim, um lugar que não existe. O que poderia ser? Quando olhei para a menina, de olhos fechados, ela dava gargalhadas. Em que lugar ela estava?

Fui observando um a um e conversando com eles. Meu coração ficou cheio nesse exato momento, tentei seguir o choro de uma emoção que me invadia. Eles pareciam felizes. Quando me aproximei da pequenina, ela levou um susto. Segurei suas mãos e pedi para flutuarmos juntas na imaginação dela. Ela reprimiu, depois se soltou e comecei a conduzir algumas cenas com a voz.

Abri uma roda e eles toparam o convite: vamos flutuar juntos? As crianças de mãos dadas criavam juntas. Quanto chororô eu segurei esse dia… Eles estavam sendo poetas. Foram breves minutos, mas minutos infinitos. Entramos no mundo juntos! E que mundo bonito!

Depois, montamos um espetáculo curtinho, baseado no que as crianças queriam. Na história, havia uma flor que aconselhava um menino. E a flor, era ela, a pequenina. Na apresentação ela brilhou: com a fala certa, na hora certa e muito à vontade. Voava livre.

A mãe que não acreditava no que acontecia, viu nascer uma flor, personagem que a pequenina mesma montou. Para mim, foi o desabrochar de uma jornada. Mesmo que ela não optasse a seguir a vida do teatro, sei que minha aluna reconheceu a sua força. Principalmente algo só dela, algo que não era errado sentir.

É chegado o fim da ritalina e do venvanse!

A mãe dizia que já tinha procurado vários especialistas para descobrir o que a filha sentia. Mudou de psicólogo e ele cortou os remédios. No caso dela, o déficit de atenção parecia ser dos outros. Foi a falta de atenção de outros em enxergar quem ela era? Foi o lado dos pais de querer achar um jeito mais prático e rápido para a criança ter “a sociabilidade” que seus primos tinham? Talvez nunca saibamos.

Sei que na pequenina vi um riso grande. Ela era uma flor diferente. Indiquei uma psicóloga bem querida para a mãe. E entendi mais um dos motivos para continuar o meu trabalho. Fazer a gente ser mais humano.

O teatro possibilita a criança a desbravar seus pensamentos, a perceber suas qualidades e entender o trabalho em grupo. No espaço do teatro, aceitar o que imaginam não é dar corda para a loucura ou fugir da realidade de forma irresponsável. É permitir ligar as engrenagens de uma máquina ilimitável de uma cabecinha cheia de ideias. Deixem as flores ao vento.E quando essas ideias começam a querer ir para outros lados, ela só precisa de um auxílio para voltar.

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