O discurso de J. K. Rowling em Harvard: as vantagens do fracasso e a importância da imaginação

Por Carolina Cunha

O menino bruxo Harry Potter teve um papel fundamental na vida de muita gente. Por trás da saga, existe a história de vida de sua criadora, a escritora J.K. Rowling. Contando apenas com sua inteligência e talento, ela escreveu uma obra capaz de arrebatar multidões.

Em 2008, J.K. Rowling estava com 42 anos e fez um discurso de paraninfa que causou uma forte repercussão na Universidade Harvard.

O discurso virou livro, que agora chega ao Brasil pela editora Rocco. A versão brasileira recebeu o título de “Vidas Muito Boas: As Vantagens do Fracasso e a Importância da Imaginação”. O título remete a um conto que a marcou e que passava a seguinte mensagem: não importa o quão longa a vida é, mas o quão boa ela é. “Desejo a todos vidas muito boas”, diz a escritora no discurso.

Aos 18 anos de idade, J.K. Rowling inventava histórias de fantasia. Seus pais diziam que sua imaginação era uma divertida loucura, mas que nunca poderia pagar as contas. Mesmo com o o desejo de escrever romances, a autora cursou língua francesa na Universidade de Exeter. A escolha do curso foi feita por pressão dos pais, que sonhavam em ver a filha seguir a carreira de secretária executiva bilíngue.

J.K. Rowling não culpa os pais pela falta de apoio e a preocupação em relação ao futuro. A tão desejada estabilidade era compreensível. “Existe uma data de validade em culpar seus pais por nos colocar na direção errada. O momento em que você é adulto o suficiente para tomar o controle, a responsabilidade recai sobre você. Além disso, eu não posso criticar meus pais por esperarem que eu nunca experimentasse a pobreza”, conta a escritora.

O que a jovem J.K. Rowling mais temia não era a pobreza, mas o sentimento de fracasso. Segundo ela, metade da sua vida foi passada tentando equilibrar a ambição pessoal de ser uma escritora com o que os mais próximos esperavam dela.

Na universidade, J.K. Rowling era uma aluna com notas medianas. Estudava apenas para não ser reprovada. Gostava mesmo era de ler. Passava a maior parte do tempo escrevendo histórias em cafés ou descobrindo livros na biblioteca. Costumava ser encontrada no corredor de Literatura Clássica e perto dos livros de Mitologia, “em busca de algo que eu não sei definir”, segundo suas próprias palavras.

Após se formar, J.K. Rowling trabalhou para a a organização Anistia Internacional, em Londres. Mas não levava jeito para secretária. Em vez de organizar as reuniões, rabiscava suas histórias no papel e escrevia na hora do almoço. Foi durante uma viagem de trem que teve a ideia de escrever a série Harry Potter.

Com uma ideia em mente, faltava colocar tudo no papel. No final de 1994, J.K. Rowling decidiu se dedicar integralmente à escrita. Não tinha mais nada a perder. Após sete anos de formada, ela se definia como o maior fracasso que conhecia. Havia terminado o casamento, estava desempregada e era uma mãe solteira que dependia do seguro-desemprego do governo britânico. Havia ainda uma depressão que tentava curar.

Durante o dia, J.K. Rowling cuidava da filha. À noite, colocava a criança adormecida num carrinho de bebê e seguia para um café próximo, onde passava horas tentando concluir seu primeiro livro. A escritora conta essa passagem da vida como fundamental para se reinventar. “Por que eu falo sobre os benefícios do fracasso? Simplesmente porque fracasso significa se despir do que não é essencial. Eu parei de fingir a mim mesma que era diferente e comecei a destinar toda a minha energia em terminar o único trabalho que importava para mim”.

Segundo J.K. Rowling, o fracasso havia lhe dado uma segurança interior que nunca teria conseguido se conhecesse apenas o sabor do sucesso. Trouxe ainda o conhecimento sobre sua própria capacidade de sobreviver. “Eu estava em liberdade, porque o meu maior receio já tinha sido realizado. E eu ainda estava viva e tinha uma filha a quem eu adorava, tinha uma velha máquina de escrever e uma grande ideia. Então o fundo do poço se tornou a base sólida sobre a qual eu reconstruí a minha vida. ”

Para a escritora, esse conhecimento se transformou num verdadeiro presente. “Vocês nunca vão conhecer verdadeiramente a si mesmos, ou a força de seus relacionamentos, até que ambos tenham sido testados pela adversidade. Esse conhecimento é um verdadeiro dom, por isso que é adquirido arduamente, e tem significado para mim mais do que qualquer qualificação que já ganhei. ”

O poder da imaginação? A empatia

No discurso de Harvard, J.K. Rowling também lembrou de sua atuação na Anistia Internacional, organização de direitos humanos. Ela tinha contato diário com histórias de vida que traziam sofrimento, perdas e abusos.

Após essa experiência, a autora passou a valorizar a imaginação não apenas para vivenciar a fantasia, mas também para despertar a empatia em relação ao outro. Para ela, a imaginação tem um sentido mais amplo e nos permite simpatizar com seres humanos cujas experiências nós nunca vivemos. “Diferente de qualquer outra criatura nesse planeta, os seres humanos podem aprender e compreender sem terem experimentado. Eles podem pensar em si mesmos na mente de outras pessoas, se imaginar no lugar de outras pessoas. ”

No pequeno escritório da Anistia Internacional de Londres, J.K. Rowling lia cartas clandestinas escritas por homens e mulheres que arriscaram ser presos ao informar ao mundo o que estava acontecendo com eles em regimes totalitários. Viu fotografias daqueles que tinham desaparecido sem deixar rastro e leu testemunhos das vítimas de tortura. Esses relatos fizeram parte de seus pesadelos noturnos, quando a escritora tentava dormir. Ainda assim, ela aprendeu ali sobre o que é a bondade humana.

J.K se lembra dos doadores da ONG, que compartilhavam recursos para salvar vidas de pessoas que não conheciam. Segundo a autora, isso acontecia porque elas conseguiam entrar na história do outro. “ As pessoas comuns, cujo bem-estar pessoal e segurança estão garantidos, juntam-se a um grande número para salvar pessoas que eles não conhecem e nunca conhecerão. Minha pequena participação nesse processo foi uma das experiências mais inspiradoras da minha vida”.

Assim como nos livros, também existem monstros e demônios para combatermos no dia a dia. Mas para a escritora, não precisamos de superpoderes para vivermos melhor. “Nós não precisamos de magia para mudar o mundo, nós já carregamos todo o poder que precisamos dentro de nós mesmos: nós temos o poder de imaginar melhor. ”