Se você

Olhando a destruição pela janela, parece que eu fui a única coisa que resistiu. O mundo lá fora estava coberto de cinza. As flores, mortas — e nem sinal das que você me deu. Longe daqui, ainda dava para ver alguns raios de sol colorindo o horizonte, mas estavam cada vez mais longe de mim.

Se você estivesse aqui, escreveria sobre a visão da minha janela. Falaria sobre como podemos ver outras cores dentro do cinza e como podemos colorir tudo com beija-flores. Plantaria comigo novas flores alegres e vivas, para impressionar quem olhasse para a casa. Tentaria pôr tudo isso em um haicai, depois transcreveria para um post-it e colocaria na minha parede, que está lotada deles.


— Carrossel? — Você sugeriu.

Era incrível a sua insistência em ir a esse brinquedo. Éramos adolescentes, não crianças. Mesmo assim, nunca consegui te convencer.

— Já fomos no carrossel duas vezes!

— Essa é a última, prometo!

— Promete? — Perguntei, já imaginado a resposta.

— Ok, a penúltima. — Reviro os olhos. — Por favor! Eu sei que é estranho, mas ser criança é puramente poético. Vai dizer que você não sentiu como se seu coração tivesse aquecido após um dia frio?


Você sempre viu poesia em tudo, até em brinquedos. Conseguia me fazer sentir a pessoa mais especial do mundo com poucas palavras transformar a dor em arte e o comum em magia. Era de longe sua qualidade que eu mais gostava, porque ela era acompanhada de uma aura singular de alegria que chegava a brilhar.

Se você estivesse aqui, as fadas nos cercariam para celebrar nosso amor. (Nunca as vi, na verdade, embora você dissesse que elas estavam com a gente — mas eu acreditava.) A vitrola estaria tocando algum LP do Oh Wonder e você estaria cantando enquanto fingia se apresentar para uma imensa plateia. As cores se juntariam a você e seguiriam sua vibração, como se fossem efeitos especiais. Eu estaria encantado.


— Precisamos desse quadro.

Rio com seu comentário e digo:

— Precisamos.

— Não, tô falando sério. Ele ficaria lindo no seu quarto, combinaria com as paredes azuis.

— Acho que não preciso de um quadro...

— Claro que precisa! Todo mundo precisa de um! Olha como as cores dão um novo sentido para a figura...


Aprendi com o tempo que não adiantava discutir com você, então nem me preocupei em continuar a discussão. De qualquer jeito, o dinheiro arrecadado nesse bazar era destinado à caridade e o quadro nem era tão caro assim. No final, ele realmente ficou muito bom no meu quarto (e você não parava de falar que sabia que tinha razão).

Agora, o quadro estava virado num canto no chão. Não aguentava olhar para ele e lembrar da gente. O problema é que tudo lembrava a gente — ou pelo menos me lembrava de você. Tudo estava fora do lugar: as roupas, livros, LPs, cadernos... Eu mesmo estava fora do lugar. Nada disso parecia certo.

Se você estivesse aqui, brigaria comigo por fazer um caos particular com meu quarto. Depois, arrumaria comigo, pegaria ocasionalmente algum objeto e me pediria para contar alguma história com ele. Você sempre quis entender o porquê das coisas, como se tentasse desvendar os segredos do universo. Feito isso, comeríamos pizza, assistiríamos a algum filme (talvez Toy Story pela trigésima vez) e dormiríamos juntos.

Mas, se você estivesse aqui, o jardim não estaria destruído, o mundo não ficaria cinza e o meu quarto não refletiria a bagunça do meu coração.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Alfredo’s story.