Minhas convicções foram levadas pelo rio São Francisco

Nasci, me criei e permaneço na região Nordeste. Sem mais divagações sobre esse fato da minha vida. O Nordeste todo mundo conhece, é aquele espaço onde miséria, seca e fome caminham emparelhados. Tem um certo fundo de verdade nisso. Me diga qual a região brasileira que miséria e fome estão ausentes? Quanto a seca, o Nordeste realmente padece desse mal. É um fato histórico e natural, embora o “problema” da seca sempre seja vendido para mascarar outros: concentração de renda e má-distribuição de terras, só para citar dois.

Se o problema é seca, é bom lembrar do Estado de Israel. Este foi criado em 1948, o semi-árido de Israel é mais seco do que o, nordestino. Como pode? o Brasil foi descoberto em 1500 — o negócio começou pelo Nordeste — e ainda padece com as consequências das chuvas escassas. O Estado de Israel é criado em 1947 e a falta de chuvas não parece ser problema por lá. É, parece que tem alguém interessado em vender essa história do Nordeste brasileiro como espaço da seca.

Entrei na Universidade em 2004. Algum tempo depois iniciaram as discussões em torno da transposição das águas do rio São Francisco. De forma simplificada — bem simplificada mesmo — consiste em levar as águas do rio até as áreas com maior escassez de água, conduzidas por canais à céu aberto. Na época, quem se manifestava contra era acusado de “querer perpetuar os problemas da região”. Elba Ramalho que o diga. Eu, silenciosamente me posicionei contra. Dentre as razões alegadas em favor da transposição, estava a afirmação de que “as águas do rio desembocam no oceano”. Realmente é isso que acontece, se o rio (São Francisco) desemboca no oceano, este deve seguir a “programação” natural.

Eu me aferrava à “programação” citada no parágrafo anterior. A natureza e seus fenômenos naturais, tem uma dinâmica própria. Querer intervir na dinâmica da natureza pode acarretar problemas futuros. A história nos mostra isso. Alguém já ouviu falar no mar de Aral? Pois é.

Corta pra outubro de 2015. Campina Grande-PB. Eu mudei e as minhas convicções mudaram. A cidade está prestes a vivenciar um colapso hídrico. Para isto acontecer é simples, é só a barragem que abastece Campina Grande esvaziar por falta de chuvas. Já imaginou uma cidade de aproximadamente 400 mil habitantes sem água na torneira? Eu prefiro nem saber. Hoje eu sou o principal entusiasta da transposição das águas do São Francisco. Minhas convicções foram duramente afetadas pela iminente falta d’água.

Pra ser sincero com as pessoas que visitam este perfil, minhas convicções nem eram tão convictas assim. Embora, essa experiência me sirva de lição em outros aspectos da minha modesta vida. Nossas crenças e ideias são confrontadas o tempo todo: realidade sensível X convicções. E, na maior parte das vezes, vence a dura realidade. Que venham as águas da transposição do São Francisco. Minhas convicções serão arrastadas pelas águas do magnífico rio, mas pelo menos eu continuarei tomando banho regularmente.