Jane Jacobs e a diversidade

Apesar de não ser arquiteta, Jane Jacobs é uma das autoras amplamente referenciadas no campo da arquitetura e urbanismo, pelas discussões singulares que trouxe à tona a partir da observação do cotidiano das cidades. Em seu livro Morte e Vida de Grandes Cidades Americanas (sem o “Americanas” na versão em português), publicado na década de 1960, faz coro às críticas ao que chama de “planejamento urbano ortodoxo”.

Para a jornalista, arquitetos e engenheiros, com seus projetos de “revitalização” urbana e viadutos, planejavam sem conhecer a real dinâmica das cidades. Esses grandes projetos eram, para ela, os principais responsáveis pela destruição da vida urbana.

Em contraposição ao que estava posto em termos de planejamento urbano, Jacobs defende a diversidade - de edifícios, pessoas e atividades - como uma estratégia para resgatar a vida nas cidades. Para entender um pouco esse conceito, discutimos aqui 4 estratégias sugeridas pela autora para promover a diversidade nas cidades. Tomamos por base, além dos escritos da própria autora, a tese (linda!) de Gabriela Tenório (2012) para estruturar a reflexão.

  1. Usos principais combinados

Jacobs define como usos principais aqueles que, por si só, já atraem as pessoas para um determinado espaço: centros comerciais, fábricas, moradias, locais destinados ao lazer e educação são alguns deles. Esses usos devem ser combinados com usos secundários, pois, sozinhos, não conseguem gerar diversidade urbana. Como a autora coloca: “um edifício de escritórios solitário em meio a um amplo conjunto de teatros significa, na prática, muito pouco ou nada” (JACOBS, 2012, p. 180).

Combinar usos principais potencializa o uso da rua pelas pessoas em diferentes horários do dia e aumenta a sensação de segurança. É o oposto do que ocorre em muitos dos centros antigos das cidades brasileiras, que se tornaram quase estritamente comerciais e que se apresentam sem vitalidade no período noturno, quando fecham as lojas e escritórios.

Uma tentativa da combinação de usos principais é feita no centro de Almere/Holanda. Nele, há edificações de uso misto (residenciais em cima e comerciais em baixo) e alguns edifícios âncora (estação central de trem, biblioteca pública, prefeitura e faculdade) que atraem certo número de pessoas. Vale dizer que boa parte do centro é voltado para a circulação exclusiva de pedestres.

Centro de Almere, estação de trem ao fundo. Fonte: acervo da autora (2013).

Contudo, ao final do expediente, Almere não escapa: há uma significativa redução da circulação nos espaço públicos. Talvez por fatores culturais ou porque o centro não possui tantos lugares voltados ao lazer e permanência, que convidem seus moradores a utilizá-los.

2. Quadras curtas

Se você é pedestre (ou já andou a pé na cidade alguma vez na vida) vai entender essa ideia rapidinho. Quando estamos andando, não é muito melhor se temos mais opções de escolha sobre que caminho tomar? Quadras curtas proporcionam maior permeabilidade, diferente das quadras mais longas, que não dão ao passante tantas possibilidades de escolha. O desenho a seguir ilustra a questão, mostrando como é possível promover mais alternativas de trajetos para se chegar ao mesmo destino, usando quadras menores.

Fonte: Jacobs (2011), p. 198–199 apud Tenório (2012), p. 110.

Dotar o pedestre de maiores possibilidades de escolha quanto aos seus percursos lhe dá a possibilidade de conhecer novos lugares e proporciona encontros com o outro, com o diverso.

3. Prédios antigos

Um bairro ou distrito que só possua prédios absolutamente novos, além de monótono e sem identidade, dificilmente será diverso. Prédios novos geralmente possuem preços, de aluguéis ou venda, mais elevados que os antigos, o que conduzirá a uma vizinhança sem diversidade social. O ideal é, portanto, que haja edifícios com datas de construção variadas. Obviamente, a idade do edifício não é o único fator que influencia em seu preço, mas a reflexão permanece válida.

Centro Histórico de São Luís. Acervo da autora (2012).

4. Necessidade de concentração

Para Jacobs, um distrito precisa ter uma concentração relativamente alta de pessoas para que tenha diversidade. Não é difícil imaginar que quanto mais pessoas vivendo e trabalhando num lugar, maior a possibilidade de que haja pessoas e edifícios diferentes e mais movimento nos espaços públicos. Tal densidade, contudo, deve ser limitada para que não se encaminhe para uma situação de insalubridade e desconforto.

Outros dois pontos merecem atenção aqui: 1) É possível que se aumente a densidade sem promover a diversidade, como ocorre em paisagens dominadas por conjuntos habitacionais verticais repetitivos. 2) Densidade não é sinônimo de verticalização! Há edifícios altíssimos com apartamentos enormes em que vivem famílias pouco numerosas, ou seja, que possuem baixa densidade.

O centro de Barcelona é um exemplo de como é possível atingir a densidade com controle da altura dos edifícios, o que aproxima a cidade de uma escala mais humana, agradável ao pedestre. O desenho da quadra permite a aproximação entre edifícios (mais densidade!) e a existência de espaços públicos internos.

Eixample, Barcelona. Fonte: acervo da autora (2013).

Embora essas reflexões tenham sido escritas há mais de meio século, ainda se fazem pertinentes. Analisando nossas cidades, especialmente se levarmos em consideração a realidade brasileira, veremos que ainda há um longo caminho a percorrer para promover a diversidade e potencializar os usos dos nossos espaços públicos. Sendo estes, do parque à calçada, a verdadeira alma das cidades, quando não utilizados e abandonados, anunciam a destruição da vida urbana em sua essência.

Referências:

JACOBS, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. 3. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

TENÓRIO, Gabriela de Souza. Ao desocupado em cima da ponte. Brasília, arquitetura e vida pública. 2012. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) — Programa de Pesquisa e Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Brasília. Universidade de Brasília, 2012.

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