A dificuldade da literatura

  1. É sensível que, nos tempos recentes, o número de postulantes ao exercício da escrita criativa profissional aumentou em proporção inversa ao número de leitores brasileiros. Daí que surgem para todos os lados os cursos que pretendem ensinar ofício que, por ser intelectual, é imerso em descobertas que não cessam; confirma a regra de que sabemos menos à medida que sabemos mais. Decerto, é maravilhoso que muitos queiram a arte como sentido de vida. A literatura é necessária em qualquer realidade: o mundo constituído foi criado pela linguagem (a Bíblia, por exemplo, não segue ditando condutas?) e é o exercício da linguagem que, entre outros, pode recriá-lo à maneira justa que pretendemos em nossos deslumbres utópicos. Reproduzo o clichê necessário: os livros mudam as pessoas, que agem no mundo conforme aquilo que são, portanto os livros têm o poder de mudar o mundo. No entanto, para ser escritor em nossa realidade, exemplo de capitalismo bruto, é preciso dinheiro: a formação intelectual é cara, desde o mínimo que é o mais importante na formação do escritor, os livros.
  2. Será que é óbvio o que vou dizer? Da mesma forma que a realidade possui camadas que dissimulam o conhecimento cujo potencial de transformá-la é latente, o texto literário, para ter o nome que tem, nunca é a superfície. Em outras palavras, o texto é duplo: o que está escrito diz na superfície e diz como camada subjacente. Portanto, o texto literário conta, no mínimo, duas histórias. Será que descobri tarde demais o que é o texto literário? Descobri com leituras de ficção e, longe de alcançar a intencionalidade do autor em determinada obra, supus a camada subjacente com minha interpretação de leitor e, devo dizer, condicionada a partir de minha (pequena) bagagem cultural. Com a verdade, escrever passou a ser outra coisa, difícil, caminhante em idas e vindas e que necessita de esforço diário. Sabe aquele livro engavetado, cujo silêncio das editoras é incompreensível para quem tem consciência da genialidade inata? (Não é o meu caso, porque tenho como defeito o perfeccionismo e aí sequer cheguei ao fim de romance que comecei a escrever.) Está explicado?
  3. É pelas camadas do texto literário que o livro tem o poder de mostrar o que a realidade esconde.

Confesso que minha trajetória pessoal é definida mais por deformações do que por formações. Às vezes penso se minhas dificuldades são comuns ou, ao contrário, refletem o ensino escolar que tive e, na mesma medida, minha atuação durante o período escolar. Fato é que cresci durante os anos do Partido dos Trabalhadores e, como consequência, sendo de camada popular, acessei espaços de conhecimento de que meus pais, por exemplo, passaram distantes. Conheci a arte e suas possibilidades. Enxerguei a realidade como mentira (mote para textos que virão) e desejo, com a escrita, alcançar outras possibilidades de realidade, mesmo que no espaço em que o livro se realiza.

Texto escrito em tempos de dúvidas.