Conto de Sexta-Feira ou O Ponto Final
Já era noite longa, mas nem tanto assim. O comércio fechado, mas a rua cheia. Um desfile interessante, alguns vestidos para a noite, arrumados, perfumados; já outros, suados e cansados, ainda tentavam voltar para a casa depois do dia, depois da cerveja que ajuda a suportar o dia. E assim, seguem em parada, entre algumas cores e cheiros diversos pintando a noite escura indo de encontro a madrugada. Os barulhos da noite instaurada, mas ainda não morta, são curiosos. Existem risadas, vidros quebrados, vozes graves e finas, todos espaçados por silêncios, que por sua vez são interrompidos constantemente por carros rápidos demais para obedecer os sinais de trânsito.
É todo um quadro curioso de se observar, a gente que passa, bêbada, cansada, despreocupada ou carregada demais de pensamentos. Mas é sexta-feira, dia em que podemos por de lado alguns pesos e ter a graça de olhar para o nada, só por saber que no dia seguinte o despertador não toca. É dia de se despir de uniformes, ternos e termos, que entre a madrugada é quase carnaval, as cabeças giram ou dormem, ambas engolidas pela realização de sonhos e desejos.
E cada alma segue sua sina, esperando encontrar o bar ou a cama. É normal, possui certa magia a noite de início do final de semana. E então, quebrando o espírito onírico, um grupo corta a rua correndo, atravessa em disparada, a frente um só: é rápido demais para os outros. É magro, alto, com veias pulsantes, carrega a mochila deslizando pelo braço, que em ângulo reto não permite que a mesma caia. Os retardatários gritam, “pega, pega, pega!”.
Cada um em seu destino se desperta e olha a passagem. É — também — rápido demais. O policial que ali estava a observar os caminhos sai em disparada e alcança o desgraçado. Um, dois, três segundos, caíram os dois no chão, em volta, os demais transeuntes vão de encontro para ver o espetáculo da captura, todos correm, alguns chegam e querem chutar o já rendido, todos xingam, alguns cospem. Levanta a cabeça o caído, “vababundo” gritam, pisca o abatido, “ladrão filho da puta”, abaixa a cabeça, “agora vai aprender”, se esconde no asfalto. De algum lugar voa um soco, o policial pede paciência que a viatura já se aproxima, a cabeça quica no concreto, o nariz abre, o cheiro de sangue enche a noite.
Os segundos, tão poucos, passaram como eternidade. Chega, então, o grupo inicial, o que havia dado a palavra de ordem. Os passos tão rápidos e desesperados ficam mais calmos até encontrar em luto a turba em volta do criminoso. Por alguns momentos a rua se cala, o ônibus no ponto desiste de ver a confusão que já cessara. Então, reunidos todos, nesse pós gozo de violência, uma voz, “o que fizeram com ele?”, “pegaram o ladrão”, “achou que ia escapar”, “safado filho da puta”. “Ele não fez nada”. “Mas vocês gritaram ‘pega, pega’”. “Era o ônibus”.