Alguma diferença?


Dia desses, estava eu voltando para casa de ônibus, me encolhia na poltrona e me aconchegava de cansade que estava. Coloquei meus fones e liguei a música. Em poucos instantes o ônibus saiu, observei pela janela aquela cidade vizinha à minha, que tanto me é de costume aos olhos.

A noite começava a cair e é nessas horas que algumas pessoas são vistas em determinados lugares. Olhei para ela ali, na rua, na esquina. Uma mulher morena, nova aparentemente. Uma travesti. O ônibus continuou a andar e ela saiu do meu campo de visão, ficou para trás, na esquina, enquanto eu continuada aconchegade na poltrona.

Que coisa estranha, eu ali sentade, indo para casa depois de um dia de estudos e ela lá, em pé, depois de uma vida que eu não tenho ideia de como foi. Nós, duas pessoas iguais em situações diferentes.

Fiquei pensando por muito tempo durante a viagem nela. O que me fazia diferente dela? Sofri preconceitos diversos, opressões, assédios durante minha vida, e ela também, mas em graus e assuntos diferentes. Ou alguns nem tanto. Ela certamente sofria mais estando na esquina, sendo muitas vezes desrespeitada e ridicularizada do que eu dentro do onibus em minha poltrona naquele momento. O que me fazia diferente dela para ser respeitade e ela não? Não encontrei muitas diferenças, a não ser nossas vivências.

Mas eu sabia que não estava tão a salvo em minha poltrona, a diferença é que os preconceitos direcionados a mim são mais velados, mas são aqueles que te prende e te cala, te sufocando um pouquinho a cada dia. E os dela talvez sufoque em uma dose só.

Eu sou mais parecida com ela do que as pessoas daquele ônibus poderiam supor. Ela é apontada e eu sou observade, ela é vista como o pior da sociedade e eu mais invisível do que ela, nós somos silenciadas, pelas pessoas do ônibus, pelas famílias, pelas maiorias e minorias (muitas vezes), pelos estudantes, professores, patrões, adultos, crianças que já aprenderam a nos silenciar.

Digo por fim, o que me fazia diferente dela? Nada. Assim como não éramos diferentes de ninguém naquele ônibus. Tudo é apenas uma questão de perspectiva, e eu prefiro a perspectiva da igualdade.