Sobre The Force Awakens: Ótica

Esse texto contém spoilers sobre Star Wars: The Force Awakens e toda a saga de forma geral.

Há uma grande quantidade de elementos que constroem The Force Awakens. A sensacional trilha sonora de John Willians, os ângulos de câmera, o ritmo em que a história é contada, os diálogos e muitos, muitos outros fatores mais sutis. A maioria passa despercebida a uma grande parcela do público, e é sobre isso que falarei hoje.

Assim como Darth Maul, em The Phantom Menace, muitos elementos fortemente visuais de The Force Awakens agradam a enorme maioria do público, mas a razão pela qual fazem sucesso não são amplamente discutidas, explicadas ou mesmo questionadas. Claro, há coisas mais interessantes e urgentes para se falar na saída de uma sala de cinema, como o próprio roteiro, os plot twists ou previsões para os próximos filmes do que, por exemplo, buscar entender a razão de Boba Fett ter feito tanto sucesso com 3 linhas de diálogo em The Empire Strikes Back. Aliás, devo admitir que só me senti segura para fazer este tipo de análise após assistir ao filme pela terceira vez em poucos dias.

Talvez seja mais correto começar pelas organizações rivais presentes em The Force Awakens: a Resistência e a First Order. Já critiquei no texto “Visão Geral” uma certa simplicidade na forma que a First Order foi demonstrada, e continuo com essa impressão. Algumas referências a regimes ditatoriais, a mais clara aos de Mussolini e Hitler, me pareceram seguir a cartilha à risca um pouco demais, e alguma nuance moral nas organizações, e não apenas em seus integrantes, como Finn, seria uma brisa fresca em relação ao clássico “nós x eles” que vemos na ficção desde a Guerra Fria, salvo raras exceções (como as prequels, ironicamente para alguns). Entretanto, as origens do conflito são felizmente mais profundas que o clássico monocromático bem contra o mal que muitos teimam em enxergar; mais que isso, o conflito entre a Resistência e a First Order é o mesmo, a nível existencial, nos sete filmes da saga. Explico: trata-se do antagonismo entre natural e fabricado, verdadeiro e falso, benéfico e prejudicial, nada mais que versões atualizadas do dualismo platônico (que pode ser resumido de forma simplória em dois opostos: o corpo e a alma).

Contraste evidente entre natural e fabricado em detalhe da Batalha de Naboo

Um dos elementos mais interessantes de The Phantom Menace é a forma como esse conflito é retratado durante a Batalha de Naboo. Naquela ocasião, duas organizações radicalmente opostas, com interesses e métodos opostos, guerrearam pelo mesmo objetivo: controle. A coalisão formada por membros da Ordem Jedi, cidadãos, oficiais e realeza do planeta, além de nativos gungans, tinha em comum o apreço pelo natural. A arquitetura de Naboo, seja na cidade de Theed ou na idílica capital Gungan, têm na coexistência harmoniosa com a natureza sua principal marca, que se acentua ainda mais ao analisarmos seus sistemas de governo. Enquanto os gungans de Naboo, chamados de Otolla Gungans, obedecem a um chefe que difere biologicamente de seu povo, sendo um Ankura (a dinâmica é vista na natureza entre insetos, como numa colmeia, onde abelhas operárias servem a uma abelha rainha com características biológicas diferentes), o povo de Theed é liderado por uma sucessão de jovens rainhas, numa representação muito clara da vitalidade daquele povo cheio de artistas, roupas e hábitos extravagantes. A preferência pela figura da rainha também espelha as grandes sociedades matriarcais da humanidade, que tem sua primeira encarnação datada na pré-história, na figura da Deusa-Mãe, cujas filhas eram escolhidas como líderes de seus grupos por representarem a fertilidade e sabedoria da divindade. De fato, todas as mulheres eram consideradas filhas da Deusa-Mãe, ou “Deusas-Filhas”, originando a visão romântica que temos hoje das princesas, por exemplo. O próprio nome “Naboo” vem da divindade babilônica da sabedoria, “Nabu”, e a identidade visual da Rainha Amidala se inspira em representações de várias divindades femininas de diversas culturas que as colocavam como regentes das leis do universo, como Inanna, grande deusa da Suméria que acreditava-se reinar de um planeta verde esmeralda (!) que poderia ser visto em qualquer ponto do espaço, ou mesmo Astarte, outra deusa do panteão da Babilônia, assim como Isis, no antigo Egito, que usava adereços bastante similares aos da personagem de Natalie Portman.

A Rainha Amidala

Estes adereços, sempre repartindo seus longos cabelos, representavam a dualidade da alma humana e as ligações com o divino e a natureza, sempre focados na fertilidade, explicando a preferência por mulheres jovens (Padmé tinha 14 anos quando virou regente de Naboo, e afirma, no episódio II, não ter sido a mais jovem rainha já eleita). Por outro lado, a Federação de Comércio defende o oposto do que o planeta e sua rainha apreciam, expressando o artificial, a ganância e o total desrespeito pelas leis da natureza. De certa forma, no evento da Invasão de Naboo, o conflito ideológico foi bem maior do que a batalha física que ocorre no ato final do filme. É interessante perceber os paralelos entre a Rainha Amidala e sua filha, a Princesa Leia, que, apesar de lutarem a mesma luta, mas com outros adversários, vivem em épocas distintas cujas referências se fazem mais e menos “clássicas”, respectivamente, enquanto espelham a mesma história.

Na trilogia original, o dualismo continua, mas o fabricado, o falso e o danoso é representado com associação profunda ao mecânico, marca da época, reminiscente da própria revolução industrial e criação do cyberpunk de William Gibson na trilogia Sprawl, por exemplo. No período do império, Darth Vader personificava isso através de mais que suas ações, que podem ser dissecadas e até justificadas partindo de uma análise ambiental e psicológica de seu personagem durante as duas trilogias. Porém, sua identidade visual representa a maldade encarnada, passando da cor de suas roupas aos mais diversos tipos de próteses mecânicas. Em um dos diálogos mais famosos de Return of the Jedi, Obi Wan Kenobi tenta dissuadir Luke de buscar bondade em seu pai, justificando que seu velho amigo havia se tornado “mais máquina do homem, corrompido e mau”. A relação entre a perda da humanidade para a máquina invoca aspectos bastante profundos da humanidade, passando pelo processo da “desumanização”, representada ali em Vader. Essa “desumanização” implica na perda do livre arbítrio e da suposta bondade inata que a humanidade teria, de acordo com alguns círculos filosóficos. A própria Estrela da Morte também representa a audácia humana em copiar e distorcer elementos naturais em causa própria, sendo finalmente destruída pelo herói num momento de encontro com a natureza (ou a Força), quando Luke desliga o computador (tecnologia robótica) de sua X Wing e decide arriscar o tiro certeiro com base na intuição (a conexão com o natural, o intocado).

O homem vira máquina: detalhe da dolorosa transformação final de Anakin em Darth Vader

Em The Force Awakens tal conflito está expresso da mesma forma. A base Starkiller, trunfo da First Order contra seus adversários, é construída no próprio planeta que abriga seu imenso contingente, corrompendo seu estado natural de forma definitiva. Visualmente, a aparência da gigante cratera que dispara com poder para destruir sistemas estelares é perturbadora, se assemelhando a um câncer ou uma grande mina que deflora um cenário virgem. Se somarmos a isso que a flora do local aparenta ser muito semelhante a uma floresta de altitude, com imensa predominância de gelo e vegetação similar a pinheiros (árvores que evocam a infertilidade, já que secam o solo de nutrientes impossibilitando o nascimento de outras formas de vida, assim como o próprio frio), o planeta da First Order não poderia ser mais hostil para uma Resistência reminiscente de outro governo que buscava a simbiose entre as espécies, a República, cuja base fica em um sistema radicalmente oposto, repleto de vida, muito verde e água. Logo, é seguro dizer que o conflito ideológico continua o mesmo de todos os filmes, adequando apenas seus símbolos ao momento propício na linha do tempo da longa história da saga.

Alguns criticaram The Force Awakens baseados na percepção de que o enredo é muito similar ao do episódio IV, A New Hope. Desconsiderando o fato de que praticamente todos os contos da história humana, especialmente os mitológicos, são apenas versões do Monomito (observação do estudioso Joseph Campbell, que conclui através da mitologia comparativa e estudo da psicanálise que os ideais humanos se expressam através de arquétipos iguais, logo, contando histórias que contém sempre os mesmos elementos), é natural que os filmes da saga Star Wars façam referências e espelhem uns aos outros. Tal fato ocorre nas duas trilogias de George Lucas, especialmente entre The Empire Strikes Back e Attack of the Clones, e se faz presente também entre The Phantom Menace, A New Hope e The Force Awakens.

Mas qual a ligação entre The Force Awakens e as prequels, especialmente The Phantom Menace? Além do já citado conflito ideológico entre natural e fabricado, o filme de J.J. Abrams trabalha um conceito central do Episódio I, a simbiose. Como dito anteriormente, o primeiro filme das prequels sofreu tanto com o criticismo exagerado que muitos simplesmente não conseguiram (ou conseguem) enxergar seus elementos até hoje. No vídeo do famoso canal “Honest Trailers”, no Youtube, The Phantom Menace é criticado duramente pelo número de vezes em que os personagens iniciam debates em ambiente circulares, como a câmara do Conselho Jedi, em Coruscant, ou a corte do líder Gungan, Boss Nass. Entretanto, o que muitos dos críticos deixaram escapar é que tal repetição de eventos é intencional, e figura na esfera semiótica trabalhando o tema da simbiose entre as espécies e a natureza (já que o círculo é harmonia e reconhecimento da natureza cíclica das coisas). Muito além disso, o Episódio I demonstra claramente que a razão que origina a maior parte dos conflitos da galáxia de Star Wars repousa na falta desta harmonia, como quando o já explicado balanço da sociedade de Naboo é quebrado pelos ideais opostos da Federação de Comércio. George Lucas disse certa vez que algo a ser observado sobre The Phantom Menace é exatamente a disparidade entre bem e mal, na qual o lado dos bons encontra-se sob holofotes dos mais diversos tipos enquanto o “mal” espreita sorrateiramente através de jogos políticos, manipulação de bastidores e de opinião pública. Tal elemento é ainda mais trabalhado nos episódios II e III, e especialmente nas animações das Clone Wars, quando a sociedade se vira contra a Ordem Jedi por sua ineficiência em combater um inimigo oculto, questionando seus métodos e sua capacidade de ajudar a República.

Palpatine (Darth Sidious) manipula a jovem Rainha Amidala visando facilitar sua própria ascensão ao poder.

Em The Force Awakens, o mesmo tema é trabalhado, mas ao contrário: sai a sutileza com que os elementos são expostos em The Phantom Menace e entra um conflito claro, com adversários que se conhecem e contrastes mais consolidados. O episódio VII trata da história de dois personagens opostos, com muitas similaridades, que se encontram em várias encruzilhadas durante o caminho para alcançar o próprio potencial, não muito diferente das Ordens Jedi e Sith nas prequels ou do conto de Luke Skywalker em A New Hope. O destino de Kylo Ren e Rey envolve diversos enfrentamentos entre os dois e seus ideais conflitantes, cujos momentos de definição envolvem, muitas vezes, as mesmas figuras, como Han Solo, Chewie, Leia, Finn, Poe Dameron, Phasma e BB-8. Num sentido amplo, todos os personagens e eventos do filme servem apenas como pontes de ligação entre Kylo Ren, Rey e a concretização de seus ideais.

Além da similaridade geral dos elementos que constituem o roteiro, dois fatores se sobressaem entre as críticas: a forma como Kylo Ren se assemelha a Darth Vader, que falarei a respeito quando tratarmos especificamente deste personagem, e o surgimento de uma nova Estrela da Morte.

Detalhe da base Starkiller no poster oficial de The Force Awakens;

Antes de mais nada, é preciso ser dito que J.J. Abrams provavelmente previu que esse questionamento acerca da gigantesca estação espacial surgiria, e incluiu em seu filme uma cena que trata especificamente de esclarecer que a superarma construída pela First Order não é “outra estrela da morte” (chegando literalmente a desenhar para o expectador, demonstrando imagens comparativas das duas, lado a lado). Também devemos ter em mente que há uma concepção errada sobre o significado da Estrela da Morte na trilogia original.

Mais do que uma arma, a Estrela da Morte era uma base de comando e um símbolo da supremacia imperial, sendo provavelmente o ponto de partida para a execução dos planos do Império. Logo, era insubstituível, daí a necessidade de construir uma segunda estação em Return of the Jedi. Muitos, no entanto, enxergam a Estrela da Morte como a cereja do bolo do arsenal do império, e não como a pedra fundamental que de fato era, explicando as diversas piadas irônicas que sua reconstrução recebe até hoje (em uma sátira de animação com Legos de The Empire Strikes Back, por exemplo, Vader sugere que o Imperador tente coisas novas para combater a Rebelião, e se desaponta gravemente ao ouvir que seu plano consistia meramente em construir outra estação igual).

Além da importância militar e política da superestação bélica, o fato de facções em guerra construírem superarmas cada vez em maior escala (e com maior poder de fogo) não deveria surpreender ninguém que tenha o mínimo conhecimento teórico da história da humanidade.

O problema deste tipo de crítica é que geralmente é acompanhada de diversas outras inverdades facilmente rebatidas que se tornam verdades absolutas através da disseminação da informação nos dias atuais (criando, efetivamente, factoides), o que explica o ódio generalizado por The Phantom Menace, por exemplo. O autor da crítica, na maioria das vezes, está longe de ser intelectualmente incapaz, e geralmente tem um repertório consideravelmente grande. No entanto, sua dificuldade não está na falta de conhecimento formal, mas no bloqueio que o impede de relacionar realidade e ficção, sem saber que, na verdade, os dois sempre se espelharam.

Deixando as organizações de lado, partiremos para os personagens, começando por Kylo Ren. Antes de mais nada, é curioso notar que, ao contrário de todos os vilões dos filmes de Star Wars até agora, Ren não se trata de um Sith; ele é líder dos misteriosos “Knights of Ren”, tendo adotado o nome após sua conversão ao lado negro. Também não está claro até o presente momento se o Supremo Líder Snoke, aparentemente um usuário da Força, trata-se de um Sith. Isso pode parecer bobagem para um fã que tenha pouca familiaridade com o extenso lore de Star Wars, mas, a eles, garanto que é um detalhe bastante importante. O ponto fundamental em relação ao antagonismo Jedi e Sith é que a segunda ordem surgiu de uma cisão da primeira, criada após conflito filosófico que é assunto de grandes obras da filosofia e ficção: meritocracia.

Kylo Ren

Assim como em Dragon Age, em que o tema central gira em torno do conflito entre magos e templários acerca da vantagem sobrenatural que o primeiro grupo tem em relação aos habitantes “normais” do mundo de Thedas (que faz com que a sociedade decida por isolá-los em pequenos claustros por medo de que livres possam dominar seus “inferiores”), a Ordem Jedi pensava que sua habilidade inata de controlar a Força os tornava moralmente responsáveis por utilizar seu poder apenas para proteção e conhecimento, buscando melhorar o mundo para todos os seres que nele habitam, enquanto os Sith partiam da premissa que, como não tiveram escolha sobre sua condição, deveriam ter total liberdade sobre como utiliza-la, como uma criança superdotada que tem carta branca para assumir uma posição de destaque na sociedade que escolher fazer parte, quase sempre em posição de dominância. Obviamente, há muitos outros pontos de discordância entre a Ordem Jedi e os Sith, como limites éticos em relação a como e quando utilizar seus poderes, o que gerou a divisão maior conhecida pela metáfora do “Lado da Luz” e “Lado Negro”, no qual os dois “ladosda Força recebem críticas de seus opositores, um pela incapacidade em agir de forma contrária a suas crenças, mesmo que a situação exija isso, e o outro pelo perigo inerente para a sociedade a qual faz parte e grande possibilidade de distorção pessoal de valores essenciais para o funcionamento de qualquer organização racional, como justiça e igualdade (o clássico “poder corrompe”). Assim, é incorreto afirmar que o “mal” em Star Wars ocorre por ocorrer, como característica inata. Neste cenário, a interpretação do “mal” de Agostinho de Hipona (Santo Agostinho para os católicos), de que o mal por si só não existe, mas se trata apenas da ausência do bem (o “bem” aqui representa os valores superiores, que os espíritas chamam de “evolução espiritual”), poderia ser aplicado para analisar todos os conflitos dos seis filmes anteriores da saga. Dizer que o Império era mau e a República, boa, é uma simplificação bastante burra do complexo dualismo moral presente em Star Wars. Afinal, a República é um utópico sistema de governo onde um incontável número de povos civilizados, em diversos sistemas e contando com diversas raças e culturas resolve se unir para o bem comum através dos princípios democráticos. Parece bastante improvável que isso funcione como na teoria, e, de fato, há corrupção, estagnação política e moral, corporações gananciosas tirando vantagem de sistemas com menos influência e da própria burocracia envolvida num sistema como esse. Já o Império centralizava o poder para abolir a burocracia e a corrupção que se aproveitavam da falha maior de qualquer sistema democrático, que é a própria representatividade. Desta forma, na figura de um líder carismático, havia pouco espaço para os problemas que atormentavam a República por muitos séculos, mas também acorrentava aqueles que tinham pensamentos divergentes ou buscavam fazer valer seus direitos, no caso de minorias. Mais que isso, a figura de liderança daquele sistema político, o Imperador Palpatine, tinha um senso de moralidade altamente questionável, apesar de afirmar em diversos momentos que suas ações levariam a sociedade à paz, o que era verdade, dependendo da ótica envolvida. Mais curioso ainda é reparar que, em determinados momentos da história da Ordem Jedi, alguns representantes desta escola de pensamento afirmaram que seus interesses envolviam “zelar pela paz, não pela liberdade”. Desta forma, as duas ordens claramente possuem mais similaridades do que ambas gostariam, e é exatamente por este ponto que a mudança de um vilão central que segue os ensinamentos Sith é tão importante, dificultando previsões e análises sobre a forma de agir personagem.

Muitos fãs criticaram o novo vilão em razão de suas similaridades com Darth Vader. De fato, Kylo Ren nos apresenta vários pontos em comum com seu trágico avô, o que é completamente proposital. Abrams não decidiu por um vilão alto, mascarado e de capa preta, incrivelmente poderoso, para “imitarVader. Pelo contrário, a história agora discute exatamente o impacto do vilão no universo da saga, enquanto, de forma ligeiramente lúdica, dialoga com o expectador acerca de suas próprias concepções erradas. Ren deseja ser como Vader, logo, busca imitar o que puder de seu “role model”, ignorante da verdadeira natureza de seu avô ou dos eventos que o levaram a se tornar efetivamente Darth Vader (assim como grande parte do público médio, que vibra com Vader a cada atrocidade cometida, mas não consegue enxergar que ele, na verdade, se trata de um personagem trágico e profundamente comprometido física e psicologicamente, o que o levou finalmente a se tornar um monstro durante a maior parte de sua vida). De certa maneira, Kylo Ren é como o público médio: com acesso a conteúdo que poderia contradizer sua crença, mas preferindo acreditar no que lhe parece mais conveniente em relação a natureza real das coisas.

Os restos de capacete de Darth Vader são reverenciados por Kylo Ren.

Realmente espetacular, no entanto, é a forma como Kylo Ren, claramente aspirando pela figura de Vader, passa por diversos momentos de dúvida e demonstra clara obstinação em seguir o que pensa ser mais recompensador, lutando inclusive contra a própria natureza. Mas o conflito do personagem de Adam Driver está longe de ser o que parece.

Apesar de se inspirar em Darth Vader, Kylo Ren é, de muitas formas, seu oposto. Vader, por exemplo, necessitava da máscara e a odiava, enquanto Ren não, mas a usa por motivos pessoais. Mesmo cometendo diversas atrocidades, Vader tinha natureza bondosa, e foi levado ao caminho sombrio que tomou através de um misto de manipulação, vaidade e medo, não conseguindo escapar dos problemas que ele mesmo criou. Já Ren fez uma escolha, tendo a oportunidade de abandona-la a qualquer momento, mas, assim como um adolescente que fuma seus primeiros cigarros, se força a continuar mesmo com total ciência do quão danoso será quando voltar atrás não for mais uma possibilidade. Kylo Ren aparenta ser um cara legal, que, em suas palavras, sente o “chamado da luz” e tem dificuldades em se tornar o monstro que acha que o avô era em essência, visando assumir um lugar que crê ser seu. Entretanto, no mais interessante contraste com Vader, o verdadeiro monstro que Ren é se revela quando ele abandona a máscara, ao contrário de seu avô, que volta a ser Anakin Skywalker após os longos anos como Lorde Sith dentro da armadura.

Máscaras tem um papel importante na mitologia. Como explicado no primeiro capítulo de “O Homem e seus Símbolos” por Jung, o papel da máscara na cultura tribal era encarnar as características do que o guerreiro desejava, transformando-se efetivamente em algo que não era. Por exemplo, quando um guerreiro colocava uma máscara que representava um leão, “tornava-se” o leão e escondia sua própria fragilidade humana. A questão das máscaras é explorada em Star Wars de maneira absolutamente incrível, desde Revan, no período da Antiga República, a Vader e, agora, Kylo Ren. Porém, ao contrário de Revan e Vader, que se transformavam nos monstros ao vestir a máscara, Ren torna-se um, num indicativo de que aquela seja sua verdadeira natureza, ao abandoná-la após matar Han Solo, que também representa seu último elo com o passado. É importante ressaltar que a natureza de Ren, ao contrário de outros vilões, talvez seja efetivamente ruim, e a máscara, ao invés de torna-lo o monstro, seja utilizada justamente para personificar uma suposta dúvida causada por seu próprio medo e insegurança, mas não por moralidade ou consciência pesada, como Anakin. De forma simplória, Kylo Ren torna-se completo ao despir-se da máscara que utiliza para personificar algo que não é, mas isso não significa que sua natureza seja boa. Pelo contrário, a passagem da retirada da máscara parece marcar sua conversão definitiva ao lado negro.

É interessante notar o jogo de iluminação durante o assassinato de seu pai, quando a luz do sol que é sugado pela superarma da First Order se esvai e as trevas dominam o ambiente. Deve-se observar também que eles se encontram à beira de um abismo aparentemente sem fim, e é nesse momento, quando a luz se esvai do planeta, que o mesmo ocorre com Kylo Ren. Ao jogar seu pai do abismo e abandonar a máscara que utilizava como barreira psicológica, quem cai nesse abismo sem fim de um ponto de vista moral é o próprio Ren. Além disso, a cena é iluminada apenas pela luz trêmula (e vermelho-sangue) de sua própria arma, indicando que seu único caminho a partir daquele momento, numa literal “hora mais escura” é continuar o declínio e abdicar de qualquer resistência que tenha quanto a isso. Nos minutos seguintes, quando vai até a floresta perseguir Rey e Finn, Ren se encontra num ambiente natural e estéril, exatamente após revelar sua própria natureza, demonstrando que, naquele momento, não há mais personificações ou reservas sobre quem os personagens são ou poderiam ser. É a chamada hora da verdade, onde se encontra sua verdadeira essência, e a de Ren é negra, oposta à de Rey, que resolve aceitar o seu destino naquele instante de definição onde não há mais tempo a perder e deve-se romper com o passado e suas próprias ressalvas.

Assim como nos episódios IV e V (os capítulos mais sombrios da saga), as únicas cores de sabres de luz presentes no filme são vermelho e azul. Essa questão pode parecer trivial, mas é carregada de intenso significado.

O contraste entre os sabres de luz utilizados por cada personagem são de vital importância na saga.

A razão in lore para que os Sith utilizem sabres de luz vermelho remete a uma vitória da República e da Ordem Jedi sobre o Império Sith na Grande Guerra do Hiperespaço, cerca de 5 mil e 500 anos antes do Episódio I. Na época, os Jedi ainda utilizavam uma tecnologia conhecida depois como “proto sabre”, que viria a dar origem aos sabres de luz, que foram, finalmente, inventados pelos Sith. Com o extenso domínio da galáxia nas mãos dos Jedi e da República, as raras minas que continham os cristais utilizados para a fabricação dos sabres de luz (que também dá cor as lâminas) ficaram completamente fora de alcance para os Sith, que driblaram essa limitação construindo armas que continham cristais sintéticos, fabricados com uso de grandes fornos e alquimia. Estes cristais (que eram mais poderosos que os naturais, ironicamente), ganhavam sua coloração após extensos períodos de meditação de seu fabricante, que “conectavam” o minério à Força, fazendo-os também refletir a natureza de seu usuário através da cor. Como a maioria dos Sith concentra seu poder através da violência e outros sentimentos conflituosos, os cristais saíam vermelhos, ou, algumas raras vezes, roxos ou alaranjados. A questão semiótica, porém, é mais simples: o vermelho invoca paixão, intensidade e sangue. Prova disso é que pesquisas já demonstraram que a humanidade tem mais dificuldade em enfrentar adversários que utilizem a cor vermelha em suas roupas do que qualquer outra cor. O vermelho assusta, invoca sentimentos e memórias que tendem a mexer com as pessoas. Logo, é natural que os Sith utilizem a cor em suas icônicas armas. Porém, como dito anteriormente, Kylo Ren não é um Sith.

O que justifica então sua escolha pela cor? Em um primeiro momento, devemos lembrar que, Sith ou não, institucional ou não de sua crença, sua natureza é maligna, e, como tal, invoca os preceitos envolvidos com o tom avermelhado mais do que qualquer outra cor. Outro ponto interessante que não podemos deixar passar é que, ao contrário do sabre de luz empunhado por Rey e Finn, por exemplo, o sabre de Kylo Ren aparenta ser absolutamente instável e adaptado, refletindo sua própria natureza. De certa forma, é correto afirmar que, assim como o esquema de cores utilizado em Star Wars, o formato da lâmina de sua arma reflete também sua própria insegurança e natureza volátil.

Já a escolha do azul para rivalizar com o vermelho pode ser explicada da mesma forma. O azul representa paz e equilíbrio (aumentando a sensacional ironia por trás do duelo entre Obi Wan e Anakin, quando os dois empunhavam sabres do mesmo tom, indicando que um espelhava o outro, assim como a Ordem Jedi espelhava a Ordem Sith naquele momento da saga). O verde ou o roxo, outras cores utilizadas por Cavaleiros Jedi ao longo da franquia, não passariam o mesmo efeito por sua própria essência: o verde representa vida, esperança e renovação (daí sua utilização no episódio VI, quando há o “retorno do Jedi”, que no caso é Anakin, e não Luke, ao contrário da concepção errada popular), e o roxo indica dubiedade. Roxo é o resultado da junção de vermelho (o mal) com azul (o bem), sendo mais indicado, talvez, para Kylo Ren do que para os novos heróis. Além disso, há de se lembrar da fixação de Ren com seu avô, Darth Vader, que utilizava a cor em sua arma após a conversão para o lado negro.

Variedade de cores e modelos de sabres de luz

Finn utiliza-se da mesma fórmula empregada por George Lucas para indicar a natureza de Luke Skywalker em Return of the Jedi: o personagem utiliza preto a maior parte da história (sugerindo que tenha natureza ), mas, após cumprir seu papel, demonstra que sua “alma” sempre foi branca através da mudança na vestimenta. No caso de Luke, sua roupa preta abre após o ataque de raios do Imperador, revelando seu interior. Já Finn cobre sua roupa toda negra com a jaqueta de Poe Dameron, num indicativo que, além de tentar disfarçar sua própria natureza (que pode ser num primeiro momento), busca fantasiar-se daquilo que idealiza, no caso, um corajoso e moralmente correto piloto da resistência. Sua inabilidade em pilotar e covardia dão ainda mais indicações que Finn gostaria de ser como Poe, mas ainda não está pronto para abandonar suas vestes primárias iniciais (pretas), demonstrando seu passado sombrio como agente da First Order. Entretanto, deve-se ressaltar que, ao contrário de seu parceiro stormtrooper morto no começo do filme durante o massacre da vila em Jakku, Finn nunca teve sangue nas mãos. Neste caso, o sangue reminiscente dos dedos do stormtrooper morto (este sim, com mortes no currículo) serve para mais do que apenas ajudar o expectador a diferenciar o então soldado FN-2187 (mesma numeração da cela onde a Princesa Leia é mantida presa na Estrela da Morte, em A New Hope, além de indicação que Finn, assim como todos os membros da First Order, são apenas números, descartáveis) do resto do pelotão: indica que, apesar das mãos de Finn estarem limpas num sentido moral (já que ele se recusa a assassinar os inocentes), sua organização, expressada através de seu uniforme, não está. Ao despir-se gradualmente da armadura de stormtrooper, Finn passa por um processo de elevação moral que segue no mesmo ritmo, primeiro com o capacete, ou seja, a peça de armadura que protege a cabeça, local onde reside o questionamento, para depois livrar-se do resto. No final no filme, quando Finn se encontra inconsciente sendo tratado pelos extensos ferimentos sofridos no duelo com Kylo Ren, ele encontra-se vestido de branco, demonstrando o fim de sua evolução moral e seu novo “alinhamentoético. Mas Finn não é o único que troca de roupa ao atingir o ápice de seu potencial (pelo menos em relação ao filme): Rey também abandona a maior parte de sua roupa de catadora de lixo em Jakku, quando estava presa ao passado, para utilizar vestes mais elegantes do seu estilo. A cor destas vestes também muda: ela se cobre de cinza enquanto, por baixo, ainda usa branco, como foi durante todo o filme.

Finn; suas vestes acompanham a evolução moral do personagem

Paralelamente a Kylo Ren, Rey também tem limitações psicológicas que a impedem de deixar o passado para trás; muitos elementos, como o fato de viver na carcaça de um AT-AT (literalmente vivendo no passado), brincar (o tema musical de sua personagem, aliás, tem um tom mais infantil e lúdico que o resto da trilha) com um capacete de piloto da Aliança Rebelde, se sustentar através da reciclagem de lixo e insistir em voltar para Jakku, mesmo após ser convidada para um “emprego dos sonhos” ao lado de Han Solo (a quem enxerga como um mentor) indicam isso. Naturalmente, como vítima de abandono (foi largada pelos pais no planeta desértico com pouquíssima idade, acreditando na promessa de que um dia voltariam por ela), a negação é um dos passos rumo a própria cura psicológica. Rey, no entanto, está estagnada neste processo de autoconhecimento, permanecendo assim até vir completamente a si no encontro final com Kylo Ren, após aparentemente ter perdido tudo que havia recentemente conquistado, devido, em parte, à própria relutância. É interessante observar que, mesmo em negação, Rey tinha perfeita noção de que ninguém voltaria por ela e que seu caminho envolvia mais que procurar lixo nos restos de uma batalha espacial (atenção aqui para a cena bastante significativa em que Rey observa uma senhora muito idosa enquanto executavam o mesmo trabalho, enxergando-se, em choque, na anciã daqui a alguns anos). Como demonstrado durante sua conversa final com Maz Kanata, e, posteriormente, no interrogatório de Kylo Ren, a garota chegou até mesmo a ter visões sobre seu futuro (o encontro com Luke Skywalker, numa pequena ilha perdida). Ela, assim como Ren, tinha incerteza e medo como impedimentos para abandonar o passado e aceitar sua verdadeira natureza e papel no mundo. Ao tomar o sabre de luz dos Skywalker como seu (pelo menos durante o duelo com Ren), Rey efetivamente assumiu o posto do herói que Finn ocupava provisoriamente durante o período em que ela estava em negação, e o ato de “pegar a espada” tem extenso simbolismo na cultura e mitologia geral (inclusive em Star Wars, quando Obi Wan toma o sabre de seu mestre assassinado, Qui Gon, para derrotar Darth Maul, assumindo seu lugar na saga). O termo “passar o bastão” se refere a esse lugar comum das histórias.

Rey

Já citei a aplicação impecável da Jornada do Herói de Joseph Campbell em The Force Awakens. A análise seria incompleta, no entanto, caso não mencionasse a interessante inversão de papéis que Abrams idealizou no sétimo episódio da série. Sim, pois, se em A New Hope, Obi Wan Kenobi se celebrizou no arquétipo do velho sábio, que introduz a aventura ao herói e guia seus passos por algum tempo, no novo filme quem reproduz essa função é Han Solo. A emocionalmente pesada cena de sua morte, por exemplo, é um espelho perfeito da morte de Ben Kenobi no episódio IV em todos os aspectos: ele se deixa assassinar em nome de uma causa maior, ganhando tempo para que os heróis possam fugir e cumprir seus papéis; é assistido de longe por seu pupilo, no caso do jovem Luke Skywalker e, agora, Rey; seu assassino tem profundas relações anteriores com o personagem (aprendiz e filho, respectivamente) e, finalmente, são personagens quebrados emocionalmente que percebem que o tempo não lhes foi gentil, mas colaboram da forma que podem, mesmo que lhes custe a vida. A extrema ironia da correlação entre Han (que passa grande parte de sua participação entre ladrões, sendo perseguido e traído) e Ben, a quem o primeiro chamava de “velho fóssil” e questionava sua sanidade mental e apego por causas aparentemente perdidas em nome de idealismo, só agrega mais valor ao filme e à direção de Abrams.

Abaixo, um resumo dos 12 passos da Jornada do Herói de Campbell, que estabelece caminhos básicos para a narrativa clássica baseada em mitologia comparativa e psicologia, e sua aplicação nos 3 filmes iniciais de cada trilogia:

1 — Mundo Comum: O ponto de partida, a vida e mundo do herói antes do começo da aventura.

Em Star Wars — A New Hope: Luke Skywalker é órfão e vive em Tatooine, um planeta desértico, isolado e pobre, com seus tios, que são fazendeiros. Ele deseja deixar aquele lugar e viver em um mundo diferente, e gostaria de alistar-se na academia, como seus amigos já fizeram antes dele.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Anakin Skywalker é órfão de pai e vive em Tatooine com a mãe, Shmi, onde são escravos de Watto, um vendedor de peças sucateadas. Anakin sonha em se tornar um Jedi e conhecer a galáxia.

Em Star Wars — The Force Awakens: Rey é uma órfã que vive sozinha em Jakku, um remoto planeta desértico. Ela se sustenta coletando peças dos restos das naves que participaram de uma batalha entre a Aliança Rebelde e o Império, trinta anos antes, e sonha com o dia em que virão busca-la para longe daquele planeta.

2 — O Chamado da Aventura: A aventura se apresenta ao herói, muitas vezes em forma de um problema.

Em Star Wars — A New Hope: O Tio de Luke compra dois droids, R2-D2 e C3PO, que pertenciam a uma nave de rebeldes que tentava contrabandear dados importantes para a resistência. R2-D2 mostra a Luke um pedido de ajuda de uma das tripulantes da nave destinado a Obi Wan Kenobi.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Anakin conhece na loja de seu dono um grupo liderado por Qui Gon Jinn, um mestre Jedi, que precisa de ajuda para conseguir peças para consertar sua nave e sair de Tatooine e cumprir sua própria missão.

Em Star Wars — The Force Awakens: Rey encontra BB-8, um droid que pertence a um piloto da Resistência e traz consigo uma importante pista da localização de Luke Skywalker, e precisa ser levado à General Leia Organa. Após conhecer Finn, um -ex-stormtrooper, o grupo é atacado pela First Order.

No segundo passo da Jornada do Herói, um problema se apresenta ao herói; em The Force Awakens, isso ocorre quando Rey encontra BB-8.

3 — Resistência do Herói ou Recusa do Chamado: O herói recusa ou demora a aceitar o desafio, geralmente por medo.

Em Star Wars — A New Hope: Ao levar o droid a Obi Wan Kenobi, o velho mestre Jedi pede que Luke deixe Tatooine e vá com ele em sua missão para ajudar a rebelião contra o Império. Luke recusa, com medo de decepcionar seu tio, argumentando que deve ajudá-lo na colheita e não pode embarcar numa aventura.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Após ganhar a grande corrida de pods e conseguir as peças necessárias para a viagem do grupo de Qui Gon (além da própria liberdade), Anakin recebe a oportunidade de deixar Tatooine para começar seu treinamento Jedi. No entanto, reluta em deixar a mãe, sua única família. Porém, decide ir com Qui Gon para Coruscant após uma conversa com Shmi, que alerta seu filho sobre sua inabilidade de se abrir ao novo e aceitar eventos fora do seu controle.

Em Star Wars — The Force Awakens: Rey, BB-8 e Finn conseguem fugir de Jakku a bordo da agora sucateada Millenium Falcon. Rey, porém, deseja voltar rapidamente ao planeta temendo que alguém finalmente venha por ela e não a encontre;

Após se aproximar de Han Solo e encontrar o sabre de luz que pertenceu a Luke Skywalker no castelo de Maz Kanata, ela se nega a tomar a arma para si e se enveredar pelos caminhos da Força, dizendo não querer ter nada a ver com o conflito.

4 — Encontro com o mentor (guia espiritual): O herói encontra aquele que será seu mentor, guiando-o e treinando-o para o desafio. O mentor também pode ter ajudado o herói a vencer o medo da aventura no passo anterior

Em Star Wars — A New Hope: Luke é salvo de um ataque do povo da areia por Ben Kenobi, a quem descobre ser o próprio Obi Wan, que então lhe conta de seu verdadeiro potencial e lhe entrega o sabre de luz que pertenceu a seu pai, chamando-o para seguir o mesmo caminho.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Qui Gon Jinn se aproxima cada vez mais de Anakin, percebendo seu enorme potencial para se tornar um cavaleiro Jedi, e passa a ensiná-lo e incentivá-lo para a grande corrida. Após deixarem Tatooine, mesmo proibido de treiná-lo formalmente, Qui Gon passa a ensiná-lo o que pode sobre filosofia e percepção.

Em Star Wars — The Force Awakens: Han Solo, apesar de inicialmente cético, se surpreende com as habilidades mecânicas e percepção de Rey. Ao longo da jornada, decide guia-la, revelando a ela a verdade sobre a Força, a Ordem Jedi, oferecendo-lhe um posto na Millenium Falcon (a qual a jovem recusa), e, por fim, trazendo-a a Maz Kanata, que lhe informa sobre o seu destino.

A relação entre o herói e seu mentor é formada após o quarto passo; em The Phantom Menace, Qui Gon e Anakin se aproximam cada vez mais durante seu tempo em Tatooine.

5- Cruzamento do primeiro portal: O herói sai de seu mundo conhecido para adentar num mundo mágico.

Em Star Wars — A New Hope: Os tios de Luke são assassinados por agentes do Império, que buscavam R2-D2 e C3PO. Com a tragédia, Luke não tem mais laços que o prendam a Tatooine, e decide ir a Alderaan com Obi Wan. Juntos, vão até o porto de Mos Eisley, buscando um transporte.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Após ganhar a corrida e sua liberdade, Anakin deixa Tatooine pela primeira vez com Qui Gon e seu grupo, rumo a Coruscant onde espera se tornar um Jedi.

Em Star Wars — The Force Awakens: Han leva Rey, BB-8 e Finn até o castelo de Maz Kanata, onde a jovem, que pouco conhecia além de Jakku, se surpreende com a variedade da galáxia e é apresentada a um novo mundo.

6 — Provação, ou A Barriga da Baleia: O herói encontra seus aliados e conhece seus inimigos, enfrentando testes e conhecendo o funcionamento do mundo mágico.

Em Star Wars — A New Hope: Na cantina de Mos Eisley, Luke é salvo de um ataque de bandidos por Obi Wan, que utiliza a Força e seu sabre de luz. Então, conhecem e contratam Chewbacca e o Capitão Han Solo.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Ao chegar à nave, Anakin e Qui Gon são atacados por Darth Maul. O mestre Jedi consegue sobreviver ao ataque do Sith, e Anakin conhece o grupo.

Em Star Wars — The Force Awakens: Enquanto se escondia na floresta, o castelo de Maz Kanata é atacado e destruído pela First Order. Rey enfrenta stormtroopers pela primeira vez, e obtém sucesso. Porém, é facilmente capturada por Kylo Ren.

O herói conhece o funcionamento do mundo externo no sexto passo; em The Force Awakens, Rey atira pela primeira vez, enfrentando stormtroopers.

7 — Aproximação (primeiro êxito): O herói consegue seu primeiro êxito no mundo mágico, e se aproxima do momento chave da aventura.

Em Star Wars — A New Hope: Obi Wan ensina a Luke sobre a Força durante a viagem até Alderaan, começando um breve treinamento. A nave, entretanto, é capturada pela Estrela da Morte, base do Império.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Anakin chega a Coruscant com Qui Gon Jinn, com quem começa a aprender sobre a Força e o mundo fora de Tatooine. Rapidamente, porém, embarca com o grupo para Naboo, onde buscam liberar o planeta do domínio da Federação de Comércio.

Em Star Wars — The Force Awakens: Rey consegue resistir à tortura de Kylo Ren. Em sua ausência, descobre como utilizar a Força para escapar de sua cela e foge.

O herói descobre mais sobre a própria capacidade no sétimo passo; em A New Hope, Luke é treinado brevemente por Obi Wan a bordo da Millenium Falcon.

8 — Provação: A maior crise da aventura.

Em Star Wars — A New Hope: Han, Luke e Chewbacca se disfarçam dentro da Estrela da Morte e conseguem encontrar a Princesa Leia, capturada pelo Império. Após o resgate, porém, são descobertos por Stormtroopers e travam a primeira luta do grupo.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Anakin acompanha Qui Gon e o grupo enquanto eles invadem a capital de Naboo, sob intenso fogo inimigo. Eles, porém, vencem a batalha inicial ilesos.

Em Star Wars — The Force Awakens: Han, Chewie e Finn decidem arriscar tudo e invadem a base da First Order tentando desativar os escudos da superarma e resgatar Rey.

9 — Consequência e Recompensas: Após enfrentar a crise, o herói tem sucesso e ganha a recompensa, ou elixir.

Em Star Wars — A New Hope: Fugindo dos stormtroopers, o grupo acaba num compactador de lixo prestes a ser ativado. Lá, Luke é atacado por uma criatura monstruosa, e é salvo por seus aliados, que, então, resolvem suas diferenças e começam a trabalhar juntos visando sair da Estrela da Morte.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Após invadir o palácio de Naboo, Qui Gon ordena que Anakin se esconda em uma nave do hangar. Desobedecendo o mestre Jedi, Anakin ativa a nave e participa da batalha espacial entre as forças de Naboo e da Federação de Comércio.

Em Star Wars — The Force Awakens: Após ter sucesso em desativar os escudos e encontrar Rey, o grupo se prepara para sabotar o regulador de potência da superarma com explosivos, mas são seguidos por Kylo Ren e suas tropas.

Os passos oito e nove apresentam o primeiro grande desafio do herói; em A New Hope, a famosa cena do compactador de lixo representa estes passos.

10 — A Volta: O herói se encaminha para fora da zona da aventura, no que pode ser o mundo comum. Também pode ocorrer reafirmação do desejo do herói na sua causa.

Em Star Wars — A New Hope: Após o sacrifício de Obi Wan, o grupo consegue escapar da Estrela da Morte e encontra a base rebelde. Lá, Luke decide se juntar à Aliança Rebelde, e Han aparentemente resolve ir embora e voltar a sua vida normal.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Anakin volta a Naboo após a batalha espacial e reencontra Obi Wan, que, com dificuldades, viria a se tornar seu mestre Jedi após a morte de Qui Gon.

Em Star Wars — The Force Awakens: Após a morte de Han Solo e a explosão de parte do regulador de potência, Rey e Finn fogem da base imperial e se encaminham para a Millennium Falcon, onde planejam fugir com Chewbacca.

11 — Ressureição: O herói enfrenta outro teste, e deve utilizar os conhecimentos adquiridos na aventura para ter sucesso.

Em Star Wars — A New Hope: Durante a batalha espacial entre as forças rebeldes e a Estrela da Morte e suas frotas, Luke segue as intruções de Obi Wan e utiliza a Força para conseguir um tiro impossível, destruindo a gigantesca estação espacial do Império.

Em Star Wars — The Phantom Menace: Durante a batalha espacial entre as forças de Naboo e a Federação de Comércio, Anakin é atingido e acaba preso, com seu caça incapacitado, no interior da nave de comando inimiga. Cercado por droids e sem possibilidade de defesa, Anakin consegue retomar a potência de sua nave e dispara contra o reator da gigantesca nave de comando, destruindo-a e encerrando a batalha que ocorria no planeta. Utilizando sua experiência como piloto de corrida de pods, consegue fugir da imensa nave antes que ela exploda.

Em Star Wars — The Force Awakens: Após Finn ser derrotado por Kylo Ren, Rey assume seu destino e duela com o assassino de Han Solo. Em um determinado momento, decide se abrir para o chamado da Força e fere gravemente o vilão, ganhando o duelo e salvando a vida de Finn, levando-o inconsciente para a base da Resistência com a ajuda de Chewbacca.

No décimo-primeiro passo, o herói passa pela maior provação da jornada, e deve utilizar o que aprendeu para ter sucesso; em The Force Awakens, Rey deve aceitar seu destino e enfrentar Kylo Ren.

12 — Retorno Com o Elixir: O grande problema é da aventura é resolvido, e o herói volta ao mundo comum com o conhecimento do mundo mágico da aventura, ou elixir, e ajuda a todos.

Em Star Wars — A New Hope: O Império sofre uma grande derrota, a Estrela da Morte é destruída e o herói e seu grupo são premiados por seus atos

Em Star Wars — The Phantom Menace: A invasão é repelida e a Federação de Comércio sofre uma grande derrota. Os heróis são premiados por seus atos.

Em Star Wars — The Force Awakens: A First Order sofre uma grande derrota e deixa de oferecer riscos imediatos. Com o mapa para Luke Skywalker completo, Rey o encontra no topo de uma ilhota em um planeta desconhecido, e lhe entrega o sabre de luz de seu pai.

Após ter sucesso na aventura, o herói retorna ao mundo normal, onde muda a vida de todos com o que aprendeu (elixir); Em A New Hope, Luke, Han e Chewbacca são celebrados como heróis.

Há outros pequenos detalhes podem passar despercebidos, mas colaboram enormemente para o êxito do filme, como, por exemplo, o braço vermelho que C3P0 utiliza durante a maior parte da história. Entretanto, após o mal ser derrotado temporariamente, Luke ser encontrado e Rey ter assumido seu destino, o braço original dourado volta a ser colocado, indicando que ele agora está completo, assim como a Resistência. O fato de R2-D2 se religar após a derrota da First Order também faz essa relação. Alguns fatores como a Capitã Phasma (interpretada pela aclamada Gwendoline Christie, de Game of Thrones) ter apenas uma pequena participação e sequer chegar a tirar o capacete metálico que usa é reminiscente do personagem Boba Fett, o qual ela espelha. Não mostrar seu rosto, nesse caso, é uma forma de tornar a personagem menos humana (assim como os stormtroopers e clones), indicando sua personalidade fria e robótica (como a organização que ela serve). Yoda, por outro lado, tem sua função dividida em duas figuras: Maz Kanata e o próprio Luke Skywalker, seu ex-pupilo. Luke e Maz, porém, são figuras com contrastes evidentes: ambos são sensíveis à Força, mas, ao contrário de Luke, Maz não é uma Jedi (linha dita pela própria); assim como Yoda, Maz tem muitos séculos de vida, mas vive o oposto da vida de isolamento que os membros da Ordem. Os dois, porém, tem papel importante em guiar a heroína, Rey, cada um contribuindo a seu modo. Outro elemento que os liga também é fundamental a Rey: o sabre de luz construído por Anakin. Maz Kanata a entrega a Rey, que, após finalmente aceita-lo e usá-lo contra Kylo Ren, encerra o filme na belíssima cena que o entrega a Luke. A própria narrativa se utiliza de reverência e mistério em relação a alguns eventos, dialogando com o expectador sobre elementos do conto e estreitando laços com os fãs que se reencontram com seus ídolos (como, por exemplo, na forma que Han confessa a Rey que a Força, a Ordem Jedi e os eventos da trilogia original não são apenas lendas, buscando valorizar ainda mais seu impacto no novo filme e criando cumplicidade com o público).

C3P0 utiliza um braço vermelho durante boa parte do filme, indicando que a Resistência, assim como ele, está incompleta.

Mas talvez o maior sucesso de The Force Awakens tenha sido conseguir trazer de volta a muitos fãs a sensação original que tiveram quando conheceram a saga. Eu me incluo nisso. Seja da geração da primeira trilogia ou sua sucessora, a qual faço parte, The Force Awakens demonstra a grandeza do que é Star Wars e porque seu mundo fascina tanto. De fato, a parcela do público que não foi fisgada pela série muitas vezes questiona a razão de tanto deslumbramento. Porém, o que estes devem entender é que Star Wars não pode ser analisado como uma simples obra cinematográfica, porque já não é há muito tempo. Star Wars superou seu próprio formato, e encanta, ensina e dialoga com o expectador de forma que nenhuma outra obra conseguiu na ficção moderna. Indo além, preencheu lacunas existenciais de gerações inteiras, tornando-se modelo político, moral, ético e até mesmo religioso a um público cada vez mais carente de representações convincentes de todos estes itens que auxiliam na própria formação.

Capitã Phasma da First Order

The Force Awakens também exerce o importante papel de substituir The Phantom Menace e, principalmente, A New Hope como porta de entrada para seu universo. Não me entendam mal, A New Hope é um dos filmes mais importantes de todos os tempos, e sou completamente apaixonada por The Phantom Menace, que, como disse anteriormente, me apresentou à série que mudaria minha vida. Entretanto, o quase patológico ódio da crítica e de parcelas mais influenciáveis do público ao episódio I efetivamente aleijaram sua capacidade original de encantar (e, goste ou não, encantou muito) toda uma nova geração de fãs, e A New Hope sentiu demais o efeito do tempo. Seus efeitos especiais então vanguardistas, o ritmo lento do roteiro, o sonolento reencontro entre Obi Wan e Vader e muitos elementos formadores de sua história provavelmente não teriam feito parte do filme caso fosse lançado hoje pelo mesmo George Lucas e equipe original. O mundo mudou, e, apesar de Star Wars contar uma história atemporal, a forma como é contada tem um prazo de validade cada vez menor (assim como o attention span das novas gerações), e ocorreu com A New Hope o que ocorrerá com The Empire Strikes Back, Return of the Jedi e, posteriormente, as prequels. Se para as gerações que conheceram Star Wars nos episódios I, II e III, a trilogia original ainda era relevante e parte integrante de qualquer maratona, em alguns anos se tornará parte da história, repousando em um merecido trono de ouro. É apenas a forma que as coisas acontecem, e negação não mudará a maneira que a comunicação evolui, especialmente com o advento da internet. Abrams sabe disso, e The Force Awakens tem o enredo mais ágil dentre os sete filmes da saga, mas nem por isso a história perdeu profundidade ou teve elementos importantes mal explicados. A imersão de The Force Awakens é uma resposta ao mundo que vivemos e a forma que nos comunicamos e consumimos conteúdo, atualizando a série para este mundo. Não posso afirmar que esta nova trilogia, que se encerrará em 2019, manterá o nível de The Force Awakens ou a percepção e coragem de Abrams e Lucas, antes dele, mas posso afirmar, sem sombra de dúvida, que foi um grande e necessário primeiro passo e me considero incrivelmente sortuda em poder acompanhar tudo isso, e estes acontecimentos são importantíssimos por uma razão muito simples: o mundo precisa de Star Wars.

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