O guia do streaming no esporte, parte IV.

Chegou o momento de fechar a série sobre o streaming no esporte. Na parte anterior foram destacados os principais mercados do futebol europeu, incluindo a Champions League. Agora é a vez da América do Sul. O texto começa destacando a Libertadores, passa para a Argentina, onde o Boca Juniors chama atenção e finaliza no Brasil. Por aqui, outros esportes como basquete, vôlei e futsal também são exemplos para a indústria.

Leia também os textos anteriores da série:
Parte I, crescimento do mercado.
Parte II, esportes americanos.
Parte III, futebol europeu.

Para iniciar, é preciso falar do principal torneio do continente. A Libertadores passa por algumas alterações para que se torne um campeonato com maior potencial de venda no mercado, mais atrativo para patrocinadores. A final única é uma tentativa neste sentido, apesar de todas as críticas que a Conmebol recebeu pela decisão. Outro ponto foi a mudança na forma de venda dos direitos de transmissão, com uma divisão em pacotes. A partir dessa alteração, o Facebook aproveitou e adquiriu um destes pacotes de jogos para o período entre 2019–2022. Será mostrada uma partida por semana, às quintas-feiras, de graça via rede social.

A Argentina foi precursora na transmissão de partidas via streaming no continente. De 2009 até 2017 o campeonato local foi visto no YouTube, além de partidas da segunda divisão e finais continentais que os argentinos disputaram. Foi uma medida aplicada pela presidente Cristina Kirchner, que criou o programa “Fútbol para Todos” e comprou os direitos de transmissão da competição local, transmitindo os jogos de maneira gratuita via YouTube e canais de televisão aberta. Seu objetivo era tornar o futebol acessível a todos os torcedores do país. Nos últimos dois anos do programa houveram modificações, com mais canais transmitindo as partidas e uma mudança nos valores pagos aos clubes. Segundo dados do jornal La Nacion, o gasto do governo federal com a compra foi de cerca de 10 bilhões de pesos argentinos. O programa foi encerrado pelo sucessor de Cristina na presidência, Mauricio Macri, com a justificativa de diminuir os gastos públicos. Utilizar o streaming como meio de transmissão é uma das propostas da Superliga, órgão independente que passou a organizar as duas primeiras divisões do futebol argentino recentemente, para elevar o nível do esporte local.

Programa argentino, encerrado pelo atual presidente.

Tratando individualmente dos clubes, o Boca Juniors iniciou 2018 com parceiras comercias com os serviços de streaming de música e vídeo Spotify e Netflix, que trarão conteúdo exclusivo para o torcedor. O principal objetivo do clube é aumentar o consumo de sua marca fora do território argentino. O River Plate também possui acordo com a Netflix, e séries sobre os clubes devem ser produzidas ainda em 2018. Para a Copa do Mundo da Rússia, o país lançou uma plataforma de streaming, com acesso a quatro canais da televisão aberta argentina, que transmitiu as partidas do mundial.

Passando para o Brasil, o principal esporte do país evolui pouco nesse mercado. Grandes clubes de futebol comercializaram com a Rede Globo e com o Esporte Interativo(Grupo Turner) seus direitos de transmissão via streaming do campeonato nacional de 2019 até 2024 junto com outros meios do passado, como televisão aberta. Não se sabe hoje quanto irá se valorizar este modelo de transmissão, mas é possível dizer que valerá mais do que o estipulado em 2016, quando ocorreu a venda dos direitos. A única instituição que manteve os direitos foi o Flamengo, do Rio de Janeiro. Com isso, o clube carioca possui uma excelente oportunidade de prevalecer em relação aos concorrentes. As receitas de publicidade das instituições brasileiras estão abaixo do potencial e usar os meios digitais para atrair novas marcas pode ser o que falta para alavancar este segmento. A alternativa seria a criação de uma plataforma própria de streaming, com conteúdo sob demanda, que crie uma aproximação entre o clube e seus torcedores espalhados pelo Brasil.

Foi pensando nisso que o Palmeiras lançou a TV Palmeiras Play. A plataforma do alviverde conta com vídeos de lances atuais e do passado, documentários e transmissões ao vivo de treinos, jogos das categorias de base e entrevistas coletivas. Segundo dirigentes, a TV Palmeiras Play é uma evolução do canal do YouTube do clube, um dos maiores do Brasil, com cerca de 880 mil inscritos. O Corinthians inaugurou sua plataforma na sequência, em parceria com a TV NSports, empresa de áudio visual. Um dos objetivos do clube é transmitir modalidades menos populares, como o basquete, que estreou o canal, e o futsal. O Corinthians percebeu que a produção de conteúdo pode atingir novos consumidores, além de um novo mercado de patrocínio.

A primeira transmissão foi cercada de polêmica.

Apesar dos contratos existentes que costumam bloquear iniciativas dos clubes, já houve uma transmissão via streaming de um grande evento de futebol. Foi o clássico paranaense Atlético x Coritiba em março de 2017, mostrado por YouTube e Facebook. As associações não possuíam acordo com nenhuma emissora para a transmissão do campeonato estadual e aproveitaram o clássico para inovar. O fato não agradou os demais agentes envolvidos, como a Federação Paranaense, que conseguiram adiar a partida, quando todos já estavam posicionados para o início. Em uma segunda data ninguém conseguiu impedir que o jogo e a transmissão ocorressem. Segundo dados dos clubes, foram cerca de 210 mil acessos simultâneos. As finais do estadual entre os dois clubes também foram transmitidas via YouTube e Facebook, fato que não se repetiu este ano.

Em 2018 algumas federações estaduais começaram a apostar em plataformas próprias para alavancar seus campeonatos e eventos locais. O primeiro caso vem de Santa Catarina. Como não houve acordo para a transmissão das partidas via pay-per-view, foi lançado o FCPlay, que transmite as partidas que não forem mostradas pela televisão aberta e fechada. O torcedor pode contratar o serviço por todo o campeonato ou partidas específicas. São eventos de menor importância como os estaduais que restam para os clubes, em sua maioria. Outros dois exemplos vêm do Acre, com a FFAC Tv, e do Espírito Santo, que também inclui no serviço a replicação do sinal na TV aberta. Isso possibilitou a transmissão de todas as rodadas do estadual em 2018, de forma inédita. As categorias de base são outra oportunidade de transmissão, como ocorreu na Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2018, com um canal próprio da Federação Paulista mostrando a maioria das partidas. Já para o mercado internacional o Campeonato Brasileiro possui um acordo mais concreto. A Mediapro, em parceria com o YouTube, transmite o Brasileirão por um canal específico para 27 países, localizados na Europa, Ásia e Oceania.

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Com relação aos esportes olímpicos, o grande sucesso no Brasil se trata do Novo Basquete Brasil. Desde 2015 já eram realizadas transmissões via Facebook e a partir da última temporada a liga também se tornou parceira do Twitter. Com isso, o campeonato garante presença em redes sociais pelo menos duas vezes na semana, além de interação diária no perfil do NBB com vídeos dos melhores momentos. O fator mais importante dessas transmissões nas redes sociais é a captação de um novo público para o NBB, diferente daquele que acompanha o torneio pela televisão aberta ou fechada. A entrada do Twitter contribuiu para um crescimento na audiência, em um aumento de 29%, em relação à temporada anterior. Foram cerca de 2 milhões de espectadores até as quartas de final, fase que se encerram as transmissões. Essa melhora ajudou a atrair novos patrocinadores. Desde janeiro de 2018 o Açúcar Guarani é o patrocinador oficial das transmissões online da liga e tem sua marca exibida nas mídias sociais. Para as finais, quando a liga realizou programas pré e pós-jogo nos canais de streaming, houve acordo com a LG, empresa de eletrônicos. A marca foi exibida na bancada onde estavam os apresentadores. Campeonatos menores de basquete, como a Liga Ouro (2ª divisão) e o Campeonato Paulista também utilizam a tecnologia para levar seu conteúdo ao público, com o segundo transmitindo todas as partidas do torneio que iniciou neste mês de agosto.

Outros esportes também utilizam o streaming para aumentar o número fãs. A Superliga de vôlei é transmitida por uma plataforma própria, em uma seção do site da Confederação Brasileira de Vôlei. Além de alguns eventos ao vivo, também é possível encontrar jogos anteriores e melhores momentos. O Rúgbi é mais um esporte que conta com sua plataforma para atrair torcedores. A última modalidade a implementar o serviço de streaming foi o futsal, em 2018. O esporte repete outras experiências mostrando apenas as partidas que não serão televisionadas pelo Sportv, canal que transmite o campeonato. Já o futebol feminino busca aumentar sua visibilidade através do Twitter. A Copa América de 2018 foi exibida na plataforma, com a seleção brasileira levantando a taça novamente.

Twitter e NBB, um dos casos do esporte brasileiro.

Os canais de televisão começam a notar o crescimento do mercado de transmissões ao vivo. ESPN e Esporte Interativo iniciam uma parceria com o portal UOL, em que suas plataformas ESPN Play e EI Plus são transmitidas pelo portal. Já a Fox Sports, pensando na Copa do Mundo, lançou um serviço que possibilita a assinatura dos canais sem a necessidade de possuir um pacote de televisão à cabo. O diferencial deste serviço, chamado de Fox+, é a inclusão de séries próprias do canal como Walking Dead. Já a Globo aparece com mais de um projeto no mercado. A empresa fechou parceria com o Comitê Olímpico Internacional para reprodução de conteúdo relacionado aos esportes olímpicos. O acordo envolve todas as mídias do grupo, mas o principal foco é o streaming. Além disso, começou a vender o conteúdo dos canais Combate e Premiere FC sem a necessidade da assinatura de um pacote de televisão. É mais um agente a perceber a mudança no mercado e busca desvincular seu conteúdo da tevê paga, atingindo um novo tipo de consumidor. Empresas do mercado de vídeo também auxiliam no crescimento da indústria. É o caso da Samba Tech, localizada em Belo Horizonte, responsável pela infraestrutura necessária para a reprodução dos diversos tipos de conteúdo audiovisual. São responsáveis pelo FCPlay, do futebol catarinense, e do canal da Confederação de Rugby, além do mais recente lançamento, o PlayPlus da RecordTV.

É possível notar que a maioria dos esportes brasileiros já estão preparados para uma troca de plataforma de consumir conteúdo. No entanto, o país ainda é muito ligado ao futebol, principalmente aos grandes clubes. Um movimento de utilização do streaming que partisse destes poderia alterar o cenário no Brasil, porém não é o que o mercado sinaliza, ao menos em relação aos eventos ao vivo. Uma alternativa seria iniciar o trabalho com a criação de conteúdo on demand para que os torcedores se acostumem a esta nova forma de consumo.

Essa série de textos observou os principais mercados do esporte mundial. Trouxe informações das quatro ligas americanas e sua tentativa de atrair consumidores mais jovens aos tradicionais esportes. Da Champions League, maior competição de clubes do planeta, e sua expansão para a América do Sul através do streaming. E terminou no mercado brasileiro, onde os clubes de futebol perderam a chance de transmitir seus jogos do campeonato brasileiro em sua própria plataforma de streaming, enquanto os outros esportes mostram força no serviço. É perceptível que o streaming está presente em todos os principais agentes da indústria esportiva. A maior incerteza é quanto esse novo negócio pode movimentar financeiramente. Se empresas como Facebook e Amazon ainda não tem condições para adquirirem os direitos completos das competições, viabilizam suas transmissões a partir de acordos com outras empresas de mídia e até mesmo canais de televisão. Tais canais que já percebem a alteração no mercado e criam alternativas fora da tevê a cabo para atrair assinantes. O jeito de consumir esportes está mudando, é hora de atenção por parte dos produtores para não perderem nenhuma oportunidade. Para os consumidores, assistir aos seus jogos favoritos será cada vez mais fácil. Aproveitem.

Texto de Rodrigo Romano.