A menina

Dentro de mim mora outra pessoa. Eu não sabia que ela morava em mim e quase a matei sem querer. Descobri que ela existia de um jeito estranho. Acordei um dia sem querer levantar. Meu coração estava apertado, tudo estava meio cinza e me vinha uma vontade imensa de chorar. Mas eu não sabia o que havia de errado. Passei algum tempo assim até que fui ao espelho e fiquei olhando o meu rosto demoradamente. O nariz, a boca, os poros, as marcas de espinha, e então os olhos… Me assustei. Bem no fundo de um deles estava ela. Uma menininha pequena assim, de caber na palma da mão. E me olhava tão triste, tão magrinha, tão pálida... “Qual o seu nome?” - perguntei. Ela não respondeu e só ficou me olhando com aqueles olhos grandes e castanhos. Quis abraçá-la. Mas como? Ela era tão pequena. E estava tão lá no fundo. Me abracei. E me pareceu que ela fechou os olhos e sentiu. Ela parecia tão fraquinha. Fiz um chocolate quente e peguei alguns biscoitos doces. Será que ela ia querer? Arregalou os olhos com curiosidade. Então comi os biscoitos e bebi o chocolate. Ela me deu um sorriso tímido, que retribuí. Parecia um pouco mais alegre, mas não queria falar comigo. Será que era muda de nascença? Olhou pela janela e olhou para mim, como quem quer dizer alguma coisa. “Ah, não.” - falei. “Você não quer sair, quer?” Eu não queria. Ela então sentou no chão olhando para baixo e parecendo tão sem esperança que fiquei com pena. Tive que me levantar. Não por mim, mas por ela. Fomos dar uma volta no parque. Descobri que ela gosta de flores amarelas, de abraços, cachorrinhos e chafarizes, e gosta quando eu ando pelo meio fio dos canteiros. Ela gosta de pintar e dançar e fica bem zangada quando eu passo tanto tempo trabalhando a ponto de esquecer de deixá-la fazer essas coisas. E adora tanto olhar o céu, mas tanto, que às vezes até quando estou em casa, mas inclino bem a cabeça para trás e imagino o céu azul cheio de nuvens brilhantes, sinto que ela sorri.
Hoje ela está bem mais forte, posso sentir aqui dentro. Pintei flores no meu quarto pra ela ver quando eu não tiver tempo de levá-la ao parque e sempre faço biscoitos de baunilha com chocolate. Estamos cada dia mais próximas. Semana passada ela me disse o seu nome. Eudaimonia. E me pediu para não descuidar dela novamente.
Eu sei que ela está bem, mas de vez em quando olho no espelho bem no fundo dos meus olhos, só pra ter certeza.
