Resenha: “Paterson”, de Jim Jarmusch (2016)

Assim como Pablo Larrain homenageia a prosa com a vultuosidade e paixão de Pablo Neruda em seu filme “Neruda”, o diretor Jim Jarmusch usa de aspectos líricos para homenagear a poesia em seu contemplativo filme “Paterson”, que conta a história de Paterson (Adam Driver), um motorista de ônibus casado, que tem um bulldog inglês que apenas o tolera, e nos tempos livres de sua metódica rotina ele escreve poesias.

Se você se apegar apenas aos fatos e ao ritmo de filme, propositalmente lento, paciente nas repetições e composições abstratas do nosso personagem principal poeta, certamente morrerá de tédio e odiará a experiência. Porém, tudo faz parte do processo onde Paterson, o poeta, nada mais representa a cidade em que vive, também chamada Paterson, berço de poetas e momentos de inspiração dos mais diversos, alguns relatados em diálogos durante as viagens de trabalho de Paterson, o motorista, como no mural do bar que Paterson, o poeta, visita e fala bastante das personalidades de Paterson, a cidade.

Tudo é bastante delicado no filme, desde a fotografia, passando pela boa composição de personagem construída por Adam Driver, e a direção de Jarmusch flutua em todos os aspectos filosóficos de inspiração (os sonhos de Laura), processo de escrita (as repetições da possibilidade do ônibus ter explodido com a falha elétrica) e a visualização do poema construído (a conexão das palavras soltas observando o riacho nas horas de refeições), concluídos com brilhantismo no bom diálogo entre nosso personagem principal e um poeta japonês, que fecha o filme com uma poesia que fecha o conceito da mensagem passada, ao meu ver: “se quiser ser o peixe na história de mulas e coelhos, basta ignorar o resto”

(Curiosidade: o jovem casal anarquista que fala sobre a história de um anarquista italiano que morou em Paterson em uma das viagens de ônibus nada mais é que o casal mirim que atuou em “Moonrise Kingdom”, de Wes Anderson.)

Nota do autor da resenha: 8,5/10,0