o aviso dos viajantes

O cubo está parado
Um sol cinza nasceu
O copo ao chão quebrado
A água se perdeu

Lá fora, eu sei que há carros
Nos barulhos de motor
Aqui, sempre há cigarros
Nos furos do
Cobertor caído
Perdeu-se o calor
No corpo resfriado
A mente pondera o estrago
Os olhos espremem a dor

O cubo está parado,
O panda é de algodão
O fone está apagado
A bateria ao chão
Agosto é como um sonho
Do qual já se esqueceu
O amanhã é um estranho
E o hoje é como eu
Eu não sou quem eu achava
Não é falta de tentar
Eu não posso atender mais
Quando você ligar

O cubo está parado
A chuva ainda cai
A mente é uma TV
Só estática sem canais
Há vários eus de mim
De tempos divergentes
Agora, todos estão aqui
Eles observam a gente

Há um de mim que é louco
Que não sabe falar
Ele, às vezes, balança
Quando tem falta de ar
Ele veste tons castanhos
E faz greve de fome
Ele foge de estranhos
E ele nunca dorme

O cubo está parado
À tarde, o céu é azul
O teto é cor de gelo
Aqui onde éramos um
Talvez um dia eu volte
E tape os seus olhos por trás
Talvez você se revolte
Talvez seja tarde demais

Há um eu que é medroso
Que se encolhe se chover
Ele tece contornos
Nos rostos a escorrer
Nos vidros embaçados
No nome escrito ali
Ele guarda silhuetas
De quem eu nunca vi

Há um eu que é cientista
Tentando voltar atrás
E, às vezes, na cobiça
O encanto se desfaz
Ele nos viu na noite
Ele nos viu sair
Ele anotou as horas
Ele me viu fugir

O cubo está parado
Além do vidro, anil
Na hora em que, ao meu lado,
Um dia se sorriu
O cubo está parado
E a chuva não parou
O vidro, ainda molhado
A fonte já secou

Também há um eu poeta
Que observa sem estar lá
Ele nos viu na rua
Ele nos viu no bar
Ele não sabe ao certo
Onde eu queria estar

O cubo está caído
Do vento que passou
A construção de um mundo
Que este eu não sustentou
Os vários eus perdidos
Talvez tenham algo a fazer
Talvez eles existam
Do que eu nunca vou dizer

O cubo está quebrado
Eu o deixei cair
Com medo do pecado
Do surto ainda por vir
Quando eu me encontro só, é
Quando eu me encontro mais
Quando o silêncio explode
E a alma se desfaz
Desfaz-se o antigo encanto
Perdeu-se o calor
A boca exprime o espanto
Os olhos espremem a dor

Mas sabe, há um eu criança
Que está sempre a ouvir
A mesma música que se repete
E isso o faz sorrir
A métrica é a mesma
Mas, agora, há um verso a mais
Após o último acorde
Sua alma se refaz
Refaz-se em novo encanto
De novo, um antigo calor
Recita como infanto
Para o próximo sol a se por

E por dois ciclos lindos
Sobre a grama e à meia luz
Nós fomos perfeita harmonia
Mundos na via vazia
Num gesto que não se traduz

Eu revejo isso no fogo
Eu revejo isso na luz
Eu revejo isso no escuro
Mas eu me vejo na cruz

Talvez um dia eu surja
Descendo escadas de subir
Entrando por portas de sair
Talvez eu chegue e fique
Talvez eu só vá fugir
Correndo de transeuntes
Temendo a multidão
O fluxo para o futuro
O presente inseguro
Meus cantos de escuridão

Talvez um dia eu explique
Ou você entenda por mim
Como um viajante do tempo
Anunciou o meu fim.