Por Favor doutor

Eu devo ter algum problema na cabeça, por favor doutor, me receita algo para eu não surtar, me sinto desajustado, deslocado e revoltado, não consigo me adaptar, se o meio é esse eu prefiro me manter a margem desse rio, a agua é densa, pesada e cheia de lodo que te prende, e te afoga no raso.

Por favor doutor, já to beirando os 30, não aguento mais ouvir as maiorias criticarem as minorias, estou perdendo essa luta que eu nem deveria estar lutando, seres iguais se vendo como diferentes e superiores, até quando? Devo ter algum problema na cabeça, por favor doutor me descreva algo para eu me acalmar.

Será que foi a aula de historia? Foi ela doutor? eu sabia que devia ter cabulado, ou ter ficado desenhando, mas na época me pareceu interessante, ela falava daquilo que eu ouvia nas musicas, de Caetano a Fugazi, dai eu lembro dos livros, ah os livros, quando a Maria Luiza, minha professora de historia, falou desse diário, de uma menina, que virou um livro, e contava sobre como ela passou por um período de repressão, OPA!- Mãe me da um livro?- devorei em uma semana, ou duas, faz tempo não lembro direito, mas foi rápido, e doía, mas a curiosidade e a angustia me faziam ler mais e mais, como pode alguém fazer um outro ser sofrer tanto? Ta errado isso aí, não ta doutor? então, vou continuar aqui, um ano depois, não tinha aula com a mesma professora, agora era o Mauricio, de começo, confesso senti falta, mas cara, gente boa esse cara, me senti em casa novamente, lá fui aprender sobre uma historia que era bem parecida com aquela outra, mas era aqui no brasil mesmo, e certo ponto falou o nome de dois caras com meu nome, Carlos, um deles Marighella e outro Lamarca, e esses camaradas, junto com mais um monte de gente, deu corpo e alma pra uma luta, que pera ai, uma luta pra mim? é mesmo, pra mim? Como assim professor? Quer dizer que para eu chegar a pensar por mim, me indagar e ser quem eu sou (e viria a ser) alguém teve que lutar, sofrer sentir dor na mão de um torturador? Por favor professor, quer dizer, doutor! Hitler voltou, com outro nome, e trouxe um tal de Fleury, tipo um carrasco, que não sente nada além de prazer pela dor, como deixaram isso acontecer “psor”? Em nome da ordem? Mas ordem de quem? Ah é a ordem de quem tem mais e pode te causar mais dor, engraçado, parece coisa de filme de ficção, né doutor? Mas não é não.

Acho que falei demais, já ta dando o tempo? Diz ai doutor, essa dor é por isso né? Como é mesmo aquela frase “penso logo resisto”? Então é por isso que querem tirar mais coisa que faz a gente pensar da grade curricular? Para a gente não ter que passar aqui no consultório? É pro nosso bem? pra nossa saúde?

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