The Missing: Uma poderosa e obscura experiência

2018 foi um ano interessante para os jogos. Ele não teve tantos lançamentos de presença para mim como seu ano antecessor, mas os jogos que saíram cativaram bastante o público. Não foi difícil que grandes pequenos jogos passassem por fora de nosso radar. Tome Minit, por exemplo: Um excelente jogo indie que ficou obscurecido naquele ano.
The Missing foi um destes jogos. Por estar inserido num círculo social de pessoas que apreciam bastante a obra do diretor Swery65, (Que vocês devem (ou não) conhecer por Deadly Premonition) Este título não me escapou por muito tempo, e dada a insistência de diversos amigos acabei jogando a versão de Switch recentemente.
The Missing é uma experiência que é incomparável com outras que tive com videogames. É um jogo que busca de uma forma muito clara falar com você, e ele usa a mídia em que está sendo representado de forma extremamente criativa. Embora tenha alguns problemas bem expostos, ele se paga com sua mensagem extremamente válida, excelente narrativa e perfeita construção de um mistério psicológico.
Aqui temos um jogo de aventura e puzzle, e sua historia começa com J.J, que é a nossa protagonista, (apaixonada por doces) e sua melhor amiga Emily, decidindo que vão acampar numa ilha que supostamente fica no leste dos EUA. Segundo o jogo, neste local ocorre-se um fenómeno sobrenatural de recriar memórias e acontecimentos. Entretanto, Emily desaparece nesta ilha, forçando sua amiga a procurá-la, enquanto desvenda os mistérios deste local.
De imediato prepare-se, pois nada é o que parece. Esse jogo é lotado de simbolismos, mas o começo dele não foi o suficiente para me cativar. A gameplay era simplista, quase um walking simulator. E os primeiros minutos de jogo era apenas nossa protagonista por algumas poucas sessões de plataforma, gritando pela amiga. Mas a experiência era subjetiva o suficiente para me forçar a manter o foco no game.

Acho que o melhor adjetivo que eu poderia dar para The Missing é que este é um jogo extremamente críptico. Quase tudo no jogo tem um significado, e ele te mostra bem aonde quer chegar. Não existe nó sem ponta, e nada passa batido.
O diferencial de J.J como personagem, também é nossa mecânica central: Ela pode se mutilar, cortando membros, se despedaçando, pondo fogo em si mesma e até se decapitando. De uma fora extremamente mórbida, nós temos que nos multilar para resolver os puzzles do jogo. As vezes temos que alcançar uma chave, e só alcançamos ela arremessando nosso próprio braço arrancado nela. Isso claro, não é por acaso e quando entendemos a relação desta mecânica com a história, e como ela funciona como instrumento narrativo, tudo se encaixa de uma forma perfeita. Ainda que a mensagem aqui seja especificamente um tema um tanto quanto sensível, a atmosfera do jogo repassa a mensagem de forma muito eficiente.
Embora você provavelmente vá ficar um pouco desconfortável em ter que ouvir os gritos de agonia de J.J toda vez que ela é forçada a se desmembrar por um puzzle, tais desafios são bem consistentes em qualidade, e nos fazem realmente por a cabeça pra funcionar. Ele só falha gravemente quando são inseridas sessões de plataforma, quando a movimentação da personagem claramente não foi feita para isso, nos levando a situações bem frustrantes. Mas no geral, os puzzles são extremamente bem pensados, mesmo com as limitações da gameplay
Swery sabe mesclar elementos de horror muito bem na estrutura de The Missing, e nos seus puzzles. Criaturas bizarras e imortais nos perseguem o tempo todo, passando por corredores estreitos e pasagens pequenas, nos deixando com uma sensação de desconforto sem igual. Isso somado a atmosfera sofrida e críptica do jogo, constrói uma experiência única. E, embora as sessões de horror fossem o que mais me prendesse de início, isso mudou quando o jogo foi avançando.
É injusto gastar tanto tempo falando da gameplay de The Missing, quando este não é o foco do jogo. O foco do jogo é sua narrativa e a construção da atmosfera. A gameplay é propositalmente travada, e lenta, o que nos coloca nos passos de J.J de uma forma mais direta, e nos fazendo voltar a atenção para a narrativa. Genial quando se para pra pensar, mas muita gente vai perder o ponto aqui. (Como eu, quase perdi) Para muitos, a jogabilidade de The Missing é seu ponto mais fraco, mas quando o próprio criador do jogo nos indica que isso foi proposital, fica difícil colocar um aspecto crítico aqui.
Durante a jornada de J.J, nos deparamos com cada vez mais mistérios, e ocultismo. Entretanto, a trama é vagamente jogada em nós conforme vamos acessando as mensagens do celular da personagem, com as quais nós vemos a sua relação com conhecidos e amigos. E isso é feito de forma excepcional, diversas dicas para resolver o enigma do jogo estão ali desde o início.
Nestas conversas, todos os personagens parecem pessoas de verdade. Seus diálogos e personalidade parecem realmente humanos, e não forçação de algum roteirista de meia idade. (cof cof, Life is Strange cof cof) A única coisa concreta que temos nesta trama são as mensagens de celular, portanto conforme avançamos nos acontecimentos do jogo, mais nos agarramos a essas mensagens, como as únicas coisas que dizem algo de relevante sobre os acontecimentos.
Acredito que me extender a partir daqui seria spoiler de mais, e um spoiler pode destruir toda sua experiência com esse jogo. The Missing é uma experiência única e poderosa. Eu gosto como ele é um jogo que foca na vida de universitários, ao mesmo tempo que possui um mistério envolvente e sobrenatural. Era difícil tirar a cabeça dos ocultismos e puzzles do jogo, mesmo depois de desligar o console. Tudo isso culminou em um final extremamente cativante e emocional, com uma mensagem válida e importante. Como o jogo se inicia dizendo: ‘’Este jogo foi feito acreditando que ninguém é errado por ser quem é’’. E isto, meus amigos é a mais pura verdade.
Todo mundo deveria jogar The Missing. É um jogo que fala sobre nós mesmos, e nos convida a pensar em como nossas ações aftam as pessoas a nossa volta, e como nós lidamos com nós mesmos. Ele nos convida a nos perguntar se estamos mesmo sendo nós mesmos, e se estamos felizes com isso. Este é um dos poucos jogos em que é possível ignorar todos os aspectos técnicos e focar na mensagem, algo que jogos como Journey fazem também, por exemplo. Portanto, não deixe as aparências te enganarem! Jogue The Missing, você não vai se arrepender.
Agradeço por ter lido até aqui! Se gostou, acompanhe meus outros textos e meu Medium, já que sempre posto aqui. Caso se interesse por The Missing, ele está disponível para quase todas as plataformas, e sempre entra em promoções na Steam! Até a próxima~~
