#ClubedoLivro 1: “Três viúvas”, Liliane Prata

Por Danielle Cameira

Os livros não deveriam doer. Mas doem, e muito. Esse foi o meu pensamento ao prender o livro entre os dedos no meio da madrugada. Cláudia e Ísis, duas mulheres que perderam seus maridos em um acidente de carro, lidavam de maneiras completamente diferentes com o luto.

Cláudia, como uma planta seca esquecida em algum canto de sua própria casa, não sentia nada. Sem ânimo algum pela vida, passava os dias ociosa, esperando apenas a volta do marido para que as coisas fizessem algum sentido. Se fizessem. Era como se vivesse a vida no automático, sem amor, sem desejos, sem resposta.

Sem Rogério, ela já não via motivos para levantar da cama, trocar de roupa, cuida-se, comprar pão e não sentia sequer fome. Ou frio. Ou sede. Sem ele, via as horas passarem sem importância, sem amigos, sem pensamentos, em silêncio. Teria ela realmente amado o marido ou havia apenas se acostumado a sua presença?

Ísis, pelo contrário, foi aos extremos. A vida com o segundo marido era regada de carinhos, respeito mútuo, café da manhã na mesa da cozinha, café quentinho, panquecas. Ela o admirava. Ele havia aceitado como sua própria filha, Júlia, fruto do primeiro casamento de Ísis. Sem ele, foi à loucura. Chorava desesperadamente, ficou em estado de choque, não conseguia ficar em pé, não falava e, após dias sem responder às ordens da mãe para que desse jeito na vida, permaneceu jogada no chão da sala, babando no tapete, enquanto assistia a mãe, Soraia, levar Júlia para sua casa.

(Foto: Arquivo pessoal)

As duas histórias se encontram na empresa onde os dois falecidos trabalhavam. E, assim que Cláudia percebeu que a outra viúva desesperada queria fazer amizade, mentiu sobre sua própria história, não deixando claro que seu marido era o outro ocupante do carro. Talvez por vergonha, talvez por preguiça de fingir sofrer um luto que não sentia.

Juntas — já que nada tinham a perder e pouco ganhavam separadas-, as duas mulheres, mais a pequena Júlia, foram tentando no dia a dia recuperar o significado de sua própria existência. Na ida ao mercado, na oficina de artesanato, no encontro com amigas, na rotina de levar a menina à escola, tudo. Cada ação era um novo desafio na busca da vontade de viver de cada uma delas.

Cláudia não foi capaz de chorar a morte do próprio marido e não parecia se culpar por isso. Justo ela, que antes havia sido uma mulher cheia de si, que estudara duramente para a realização de um sonho que ela mesma se julgada predestinada a realizar, sofria com o vazio dentro de si. Dia após dia. O fato é que após ter experimentado a maior frustração de sua vida ao falhar em um exame profissional de violino, viu-se murchando, aceitando, resignando, calando e se acostumou com o marido, com a vida pacata, com a rotina até que nada fazia despertar a mulher batalhadora que já havia sido. Para mim, Cláudia perdeu a batalha para a vida.

Ísis fez de tudo para superar a perda do marido. O amava? Sem dúvida. Mas ela tinha consciência de que precisava viver, por sua filha. Professora voluntária de artesanato em uma escola, decidiu retomar as aulas paralisadas por seu afastamento. Nelas, o contato com as crianças, a gritaria, as perguntas, os materiais, as obras de arte, tudo fez com que aos poucos fosse recuperando o prazer de ensinar, de preparar a próxima aula, de andar até a sala dos professores, de apertar a garrafa términa e sentir o vapor do café encostando em suas narinas. E levava Cláudia sempre junto, para onde quer que fosse.

Cláudia também estava junto em um jantar com um professor da escola. Nele, Ísis acabou se apaixonando e entregando tudo o que transbordava do seu coração para alguém que acreditava ser o próximo homem da sua vida. Ele era perfeito, mas não estava interessado. Ela agarrou-se nele como a um salva-vidas. Depois, perdeu tudo mais uma vez.

E a terceira viúva? Soraia, mãe de Ísis, já havia sido viúva um dia também. Diferente das duas últimas, casou-se, e viu a vida a dois cada vez mais distante, mais negligente. A agressividade de seu marido fez com que já não o amasse. Quando ele morreu, era como se tivesse agradecido.


A história dessas três mulheres tocou em uma parte de mim que já havia esquecido: a do luto. Não necessariamente pela morte de uma pessoa, mas de um sentimento. A dor na boca do estômago, o corpo inerte enquanto dias se passam sem a menor vontade de viver, o choro interminável, a perda de autoestima, a falta de forças e o desejo de desaparecer.

Em inúmeras passagens do livro me identifiquei com os pensamentos e tentativas de Ísis de dar a volta por cima, descobrindo velhos prazeres. Me encontrei na forma triste com que ela se entregou a primeira tentativa de amar e sair do buraco onde estava há tanto tempo. E depois voltei ao fundo do poço junto com ela quando descobriu que havia sido apenas “mais uma”.

Com Cláudia, foi diferente. Me senti no corpo dela, sentindo cada pontada de dor como se fosse minha. Todo o livro me levou a reencontrar algumas dores que já tive. E o melhor: reaprendi a encontrar maneiras de sorrir e seguir em frente.