Emicida e o filme de Anna Muylaert

Em junho deste ano o rapper EMICIDA lançou o clipe para a música “Boa Esperança”, dirigido por Kátia Lund e João Wainer, com produção e realização do Laboratório fantasma. O vídeo narra a revolta de empregados domésticos contra os seus patrões, com cenas deles cuspindo na comida, amarrando-os e ameaçando-os de diversas formas. A revolta vira uma epidemia no Brasil.

O refrão da música cantado na voz de Nave é forte: “Por mais que você corra irmão/ Pra sua guerra vão nem se lixar/ Esse é o xis da questão/ Já viu eles chorar pela cor do orixá?/ E os camburão o que são?/ Negreiros a retraficar/ Favela ainda é senzala jão/ Bomba relógio prestes a estoura”. E o resto da letra retrata de maneira clara e bem rimada, o sofrimento, a violência e o racismo que os negros no Brasil sofrem desde sempre, fruto da herança amarga da escravidão.

Cenas do clipe “Boa Esperança”

Em “Que horas ela volta?” (2015), de Anna Muylaert, a mesma temática é tratada de uma forma diferente. No filme, a atriz e apresentadora Regina Casé, interpreta Val, uma empregada doméstica, nordestina, que mora há mais de dez anos na casa dos patrões em São Paulo. É considerada por eles como “quase da família”, no entanto, mora em um quartinho nos fundos da casa, desconfortável e jamais come na mesa de seus patrões.

Tudo começa a mudar quando a adolescente Jéssica (Camila Márdila), filha de Val, resolve ir para SP tentar o vestibular. A chegada dela serve como um elemento desnaturalizador daquela relação de subserviência. O preconceito contra pobres e nordestinos aparecem por vezes de maneira sutil, outras de forma escancarada, como na cena em que Jéssica conta que fará vestibular para arquitetura em uma das universidades mais concorridas de São Paulo, e eles riem.

Cenas do filme “Que horas ela volta?”

Com pitadas de humor muito bem executadas por Casé, o drama foi lançado em um momento bem apropriado para entender a realidade brasileira, de um país que a duras penas está lutando para ficar menos desigual. E sabe a rebelião lá do clipe do Emicida? Acontece quando a filha da empregada doméstica consegue vaga na universidade dos ricos e a empregada doméstica entende que “não é melhor e nem pior do que ninguém”. Isso é um tapa da cara da burguesia acostumada a ter privilégios em cima do direito dos pobres.

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