A Baioneta

Carta aberta de Eleni Helda Müller

Querida Helena,

A guerra me disse muito mais sobre mim do que Freud.

O livro monótono de palavras pomposas e complexas não se adequavam aos meus gostos simplistas, minha personalidade impaciente.

A baioneta se mostrou uma ferramenta didática muito mais direta, ela era uma fria, pontiaguda e metódica caneta.

Pele manchada, seca e marcada eram suas folhas.

O sangue vívido e fluído dos órgãos, sua tinta.

E a experiência do combate me atingindo em corpo e alma, o absoluto aprendizado.

A vida de minha vítima escapava como uma torrente do lugar que eu havia a perfurado com a baioneta, e rapidamente ela perdia todo seu ímpeto, vagarosamente passava a descansar, tornava-se um objeto inanimado, me deixando a sós com minha própria mente, com meus próprios julgamentos.

Essa era a pior parte.

Toda pessoa com a mínima maturidade se julga com poderosa crueldade, seria eu capaz de suportar a realidade e a mim mesmo? Tudo acontecia simplesmente rápido demais, a um segundo o inimigo era bravo e destemido, quando as balas falharam de selar o nosso confronto, o homem vê a frente de si uma mulher baixa, fraca e inexperiente, sem hesitar ele saca o punhal de ferro e parte contra minha pessoa, sustentado por todos seus mais primitivos instintos, eu por outro lado era muito mais mansa e cautelosa e não reagi de acordo, incapaz de responder à raiva esmagadora daquele homem, a fúria por trás de seus olhos castanhos, meu destino parecia ter sido selado.

Mas a natureza me enviou uma chance.

O homem que até então havia vantagem de terreno, escorrega na neve de uma forma extraordinária, ninguém esperaria que por baixo daquela camada alta e espessa de neve havia uma firme camada de gelo, sua bota perde completamente a aderência e seu corpo desmonta sobre ela, deslizando exatamente sobre meus pés.

Eu não desaponto o chamado da natureza e acabo com sua vida antes que ele pudesse reagir.

A última expressão dele incrédula! Espontaneamente indignado! Morto por uma mulher, fraca como um doente e inexperiente como uma criança, ninguém deseja uma morte tão estúpida, nem o mais melancólico dos suícidas (tudo bem, para esses qualquer tipo de morte serve).

Imediatamente após eu matar aquele rapaz, vejo em seu uniforme pardo todos os motivos por trás de seu entusiasmo por sangue, sargento segunda classe, belo, alto e saudável, detentor de um par de medalhas Americanas cujas palavras eu ainda não podia decifrar, provavelmente as ganhou por ter matado muita gente lerda como eu, ou talvez ela era realmente um herói.

Não preciso mencionar que ele carregava uma foto de sua esposa e filha por baixo do casaco, ele era o herói delas, seu nome no verso: Rogers. E para Rogers, meu cadáver no chão significava o prêmio de ver as duas belas damas novamente, essas duas mulheres inocentes e sorridentes eram o combustível que o incentivava a matar, Rogers só queria sobreviver, a vida havia o chamado para a glóriae ele havia agarrado a chance com todas as forças, eu era nada mais que outro mero obstáculo, outra história que ele contaria para seus netos e para os recrutas.

E em um passe de mágica, tudo havia acabado.

— Que Deus o tenha, sargento Rogers.

Irônico, não?

A baioneta me ensinaria muitas outras coisas pelo curso da guerra.

Um golpe no crânio é extremamente desumano, inflige dor extrema e deixa o inimigo em um estado horroroso, no coração é misericordioso, no pescoço é pavoroso, ele se debate desesperadamente na tentativa inútil de impedir a saída de sangue, no estômago é confortável, pois é a forma mais comum de morrer e a vítima tem a chance de falecer em uma posição que preserva sua integridade.

Haviam aqueles soldados que suportavam ou gostavam da guerra, viam os cadáveres com indiferença e seguiam ordens.

Havia também aqueles que se perdiam, se curvavam e pediam clemência ao divino.

Aqueles que se cansavam, olhavam todo o dia para o horizonte e desejavam voltar para casa.

Aqueles que desertavam.

Aqueles que morriam.

Aqueles que matavam.

E existia um tipo de “soldado”, gente na verdade, independente de sexo, gente raríssima que se destacavam entre os rankings, retratados nos cartazes de propaganda e registrados nos anais da história.

Gente que simplesmente matava demais.

Eu era uma desse seleto grupo de pessoas… Matei muito mais gente do que um soldado normalmente mata, centenas dela.

Mas depois resolvi me tornar um daqueles soldados que se cansavam, olhei de volta para casa e, aproveitando que era mulher, resolvi voltar.

Com amor de sua mãe, Eleni Helda Müller.