Athenas — Westfront

Prólogo

Uma das histórias mais controversas e sinistras da segunda guerra mundial, Eleni Helda Müller também conhecida como “Athenas” é uma viúva, uma mãe e também uma das armas mais mortíferas do decadente império nazista, antes resignada no mundo dos homens e da guerra, ela se envolve em uma missão desesperadora que pode mudar o curso da guerra e de toda a Ordem Mundial como conhecemos.

A luz fraca da manhã pousa suavemente no batente da janela de carvalho, os raios brilhantes e dourados caminham e invadem o cômodo de uma menina vagarosamente, como a natureza determina, iluminando a cortina de linho branca, o lustre de alumínio e vidro, um rádio empoeirado encima de uma estante, a parede azul-bebê adornada com artes de todos os tipos de arte — Retratos preto e branco de uma França ocupada e soldados desconhecidos, os quadros de paisagens e cores vivas de Ludwig Dettman e os estonteantes cartazes da Eisenmädchen Hannah von Bauser e sua tripulação, segurando gloriosamente a bandeira nacional-socialista encima de seu Panzer IV, a luz prossegue e agora descende os móveis escuros aonde se repousam estatuetas de soldados, livros antigos e suásticas: presentes de militares proeminentes da Schutztaffel e Whermacht, não há brinquedos ou bonecas no carpete e os guarda-roupas estão preenchidos de vestes modestas de cores frias, os feixes então escalam o lençol rubro da cama de solteiro e aquece o rosto da adormecida jovem Helena Eleni Müller, despertando-a.

Helena é uma menina com a cara da mãe, meia-grega e meia-alemã, de longos cabelos castanhos de pontas curvas e outras enroladas, pele clara e limpa, seu rosto é achatado e as ameixas de suas bochechas são rosadas assim como seus lábios pequenos, o nariz reto e fino como uma estátua grega de mármore e os olhos grandes são castanhos claros, ela os abrem de repente, excitada ela imediatamente se levanta da cama com grande energia, Helena era alta para alguém de treze anos e seus braços e pernas são firmes e atléticos, frutos de anos de exercícios incentivados pela propaganda nazista e pela disciplina dada pela mãe militar.

— Helena! Aonde estás? Eu espero que não esteja dormindo! — Falou alto a mãe da menina, Eleni Helda Müller, de algum lugar daquela casa.

— Já estou indo! — Ela responde rapidamente, apressando-se para pegar suas roupas de trabalho.

Metade da súbita energia de Helena em acordar foi por do medo da mãe repreende-la caso fizesse corpo mole, a outra metade era pela felicidade que despertava na lucidez de sua puberdade, nas linhas do amadurecimento e no reconhecimento do esforço e sacrifício que seus pais fizeram, no alívio em entender que a pessoa mais importante de sua vida, sua mãe Helda, havia sobrevivido a uma guerra brutal que havia ceifado a vida de seu pai e ainda continua ceifando tantas outras vidas, naquela manhã Helena e sua mãe cuidariam do jardim da casa, ela veste o chapéu de palha e um velho vestido comprado em brechó, corre desengonçada pelo longo corredor de piso liso até a primeira saída a esquerda onde se situava o jardim particular da família, lá Helda já esperava vestida da mesma forma, com os braços cruzados e os olhos semi-cerrados.

— Você sabe que eu já prometia isso faz tempo pra Norma, né? Vamos, temos que terminar isso antes das sete.

Gutten tag pra você também, mamãe. — Falou de lado, Helda entrega a ela um pequeno balde com uma pá dentro.

Gutten tag. — Responde baixinho a mãe, com um sorriso de canto de boca.

Eleni Helda Müller é uma viúva grega com uma cabeça de altura maior que sua filha, assim como ela sua pele era branca porém corada, marcada pelo trabalho e por algumas pequenas cicatrizes, seus olhos castanhos claros a filha havia herdado, porém eram fundos e mais expressivos: marcas da idade, assim como o típico nariz fino e os lábios pouco carnudos das duas eram quase os mesmos, Helda no entanto tinha cabelos lisos e escorridos, Helena pôde sentir no toque em seu ombro que as palmas de Helda não eram macias também, frutos de alguma história de seu passado. Naquela manhã retiraram dentes-de-leão, podaram os arbustos e a grama, colheram as maçãs maduras das duas grandes macieiras e os alfaces do canteiro pequeno, varreram as folhas velhas e os restos da natureza da pequena trilha de pedra que percorria todo o modesto jardim, colheram também algumas orquídeas e nobre brancas para a inquilina Norma, temendo que essas pudessem morrer antes de qualquer proveito, fizeram tudo de forma metódica e bem executado, usando precisão aonde precisava de precisão e força com moderação, Helda tutorava sua filha em cada passo e quando não dava instruções ambas trabalhavam em um agradável silêncio, quebrado por palavras e conversas pequenas.

Elas apreciam aquele momento juntas e julgam como verdadeira felicidade, porém sempre com o pesar permanente de que o homem que mais amavam família não está mais entre elas.

Norma Becker observava as duas trabalharem da janela da cozinha que por sua vez se situava ao sul do jardim da residência, tragava seu café quente despreocupada, diferente das figuras excêntricas das duas Norma era uma alemã comum, loira de cabelos lisos e face de feições fortes, nariz e queixo um pouco mais largos, engordou depois de ter parido um par de gêmeas Ada e Adele, duas bebês tranquilas de rasos cabelinhos dourados que ainda viviam no berço, os olhinhos azuis de suas gêmeas lembravam Norma do amor de sua vida, Adam Becker, um pai que lutava uma guerra perdida e desesperada em algum lugar da Polônia, o menor pensamento e a probabilidade de sua morte fazia Norma suspirar e se mergulhar em lembranças e pensamentos, a saudade esmorecia sua cara e ela anseia por seu retorno seguro, naquela manhã não era diferente, imersa em pensamentos pelo marido ela não percebe as gregas entrarem na cozinha pela porta de serviço, deixando suas devidas vestes de trabalho e ferramentas para trás.

— Norma! Trouxemos flores!

Norma rapidamente se anima com as flores em uma cestinha e consegue deixar a tristeza para outra hora, instantaneamente, uma habilidade que Helda em especial muito admirava.

— Então elas já cresceram?! Parece ontem que eu havia as plantado!

— Helena que lembrou que elas estão na época perfeita para o arranjo que você queria.

A menina faz um sinal lisonjeiro e deixa outra cesta de maçãs encima da mesa, disparando em direção ao fogão de lenha procurando o bule de café, atraída pelo cheirinho que pairava por toda a casa.

Danke Helena, eu estava pensando em fazer um grande arranjo e deixar no quarto dos bebês, sabe como essas coisas pode influenciar bem na cabecinha delas…

— Com certeza é uma ótima ideia! — Respondeu Helda empolgada de repente,tendo suas próprias lembranças — Em Tebes minha mãe tinha lavanda e margaridas por toda a fazenda, eu nunca me esqueci da sensação andar no meio daquilo…

Saindo de forma tão natural Norma responde com um tímido “É-é mesmo?…”, Grécia era um lugar místico para as outras duas, que não podiam deixar de olhar com extrema curiosidade pois Helda nada falava de sua vida antiga na Grécia, até mesmo para sua própria filha poucos detalhes eram dados, Helena e Norma tinham a vontade de implorar que ela contasse mais porém a ex-militar simplesmente não era de oferecer tréguas, nesse breve silêncio a menina inerte não olha direito para a xícara de café quente que tomava e queima a língua.

— Ai!

— Helena… — Reage Helda com certo olhar humor.

— Ora, deu de tomar café puro agora? — Pergunta Norma.

— Aaaai! Como vocês tomam isso? É muito quente! — Helena deixa a xícara na mesa, aborrecida.

— Você tem que ir tomando aos poucos garota! Isso não é que nem água e leite, cada bebida a gente toma de um jeito.

A menina agora mexe a língua buscando maneiras de parar a ardência sem nenhum sucesso, Helda apenas bate em seu ombro e apanha a xícara da filha para si, que comenta em dor.

— Não é só isso, mas é tão ruim também…Amargo…

As duas adultas se entreolham e gargalham, depois tomam um gole do café em uma perfeita sincronia que a jovem Helena nota muito bem, a mãe Helda por sua vez acaba soltando outro comentário.

— Hahahaha! Filha se você tomasse o café que sua mãe tinha na Grécia… Esse aqui é o negócio, o melhor café do mundo! Café germânico! Café bávaro!

Uma fala de viés patriota.

— Mas é tão amargo…

— É como cerveja e Whisky, você é jovem ainda e o sabor doce é o que te agrada mais, um dia você vai entender o privilégio que você tem por poder ter esse café amargado todo dia, a Alemanha…

Como todo ser humano adulto que emite opinião Helda olha para Norma ao seu lado buscando apoio enquanto continuava seus elogios ao grande café alemão, Norma engole devagar e não responde diretamente, ao invés disso prefere apontar para um objeto na estante do lado oposto do qual as mulheres estavam, encima da dispensa em uma pequena estante repleta de sacos de grãos, um dos sacos era um pacote pardo e desbotado feito de fitas e linho, preenchido pela metade com grãozinhos negros de café.

— O que que tem o saco de café? — Pergunta Helda.

Nele estava carimbado em cor de vinho os dizeres: Brasilianischen Kaffee, um silêncio breve paira novamente na cozinha enquanto as gregas tentam entender o que Norma queria dizer, então Helda reage.

— Ah! — Quando ela percebe simplesmente termina seu café e com a face enrubescida e some no corredor em passos rápidos e silenciosos, sem se importar em se consertar ou ignorar o fato como todo veterano de cabeça dura faria, as duas que permaneceram na cozinha se entreolham e sorri, não conseguem se segurar e riam baixinho para não constranger mais ainda a tímida ex-militar, apreciando um lado de sua personalidade que apenas elas conheciam.

A filha segue o caminho da mãe despreocupada, deixando uma Norma com a sobrancelha arqueada para trás na cozinha, a passos mudos por conta de suas meias ela corredor de piso de mármore ela se dirige até a porta do lado direito do corredor em um ritmo alegre e um sorriso descontraído, Helena então se encosta no batente da porta.

— Mãe!

O quarto de Helda era quase o dobro do tamanho do da filha e nele se situava uma bela cama de casal aonde nela ela estava sentada retirando sua meia, ela só levanta a cabeça um pouquinho e solta um murmúrio para indicar que estava ouvindo.

— Eu te amo!

Helda olha sua filha por um momento e então abaixa a cabeça, parando instantaneamente o que estava fazendo e seu silêncio parece muito mais pesado, cabisbaixa Helda encara a meia de lã grossa em suas mãos parada feito uma estátua, a menina sente como se tivesse feito um grande erro, ultrapassado uma linha que fora rigidamente marcada e expressa em algum momento do passado que ela esquecera.

As curvas mechas castanhas escondem a expressão do olhar de sua matriarca, porém Helena podia ler a boca fina e tenuemente reta de mãe, ela está endurecida como se estivesse segurando palavras, o coração escapa pela boca de Helena, lentamente ela vai arrastando pelo batente da porta se retirando, confusa se pergunta: “Porquê é tão ruim deixar escapar o que o coração sente? Porque ela parece chocada?”, se arrepende também por ter agido de forma tão espontânea, esquecendo a natureza militar e a frieza nítida de sua mãe por um instante por conta de uma brecha que ela havia dado, na casa rígida que havia vivido junto de seus avós ela nunca faria um erro do tipo, talvez os Alpes haviam mudado ela. Havia sua mãe também em todo o tempo de guerra mudado a forma como via sua filha? A menina não conseguia entender, entrando em pensamentos nostálgicos no meio do corredor.

— Helena, já não está na hora de você ir pra escola?

Comenta uma Norma na cozinha completamente inerte ao que estava acontecendo, a menina aproveita essa deixa e dispara para seu quarto para trocar de roupa novamente, o sol da Bavaria havia se levantado fazia poucas horas agora e os ventos agradáveis do outono de 1944 estavam apenas começando a soprar, dando fim a um infernal verão de bombardeios e dias úmidos para trás, veste o uniforme de sua escola de elite: Camisa social branca, vestido que ia até suas canelas e lenço de marinheiro negro, cabelo preso e sapatos modestos, sempre era possível encontrar algum símbolo do partido Nacional-Socialista em algum lugar, fosse na bolsa de couro que carregasse em seus braços ou o bordado nos ombros do uniforme ou nos broches e berloques, o Estado simplesmente estava em todos os aspectos da vida dos alemães e Helena se dirigia para uma escola nazista de prestígio apenas por conta da influência de sua mãe.

— Estou indo… — Assim como havia entrado em seu quarto Helena sai com a mesma velocidade, sem ousar olhar novamente para o quarto de sua mãe.

Alguns minutos depois, Norma caminha tranquilamente pelo corredor agora com sua cestinha de flores recém colhidas, dirigia-se ao quarto de seus bebês quando percebe que a porta de Helda ainda permanecia aberta, isso era incomum da militar, tão diligente com sua privacidade, então a amiga não resiste e dá uma olhada para dentro do quarto e encontra Helda sentada na grande janela branca aberta, a luz do Sol brilhava perfeitamente contra sua face e revelava uma expressão mórbida e seus olhos vermelhos marejados, ela segura um retrato que a amiga não podia ver exatamente quem estava nele, julgou que era seu falecido marido e Helena em seus primeiros anos, por mais que quisesse e lhe fosse permitido nenhuma lágrima escorria do rosto da grega, ela era como uma estátua de mármore que agonizava em silêncio e emitia uma aura fúnebre de melancolia, lábios trêmulos e a postura desnecessariamente erguida, os anos no exército que perturbam e traumatizam tantos homens faziam o mesmo trabalho com Helda Müller.

A primeira reação da amiga foi de interrompe-la e a oferecer um abraço fraterno, porém Norma realiza que ela não podia.

Norma realiza que ela apesar de ambas serem mães e possivelmente ela poderia perder seu marido também, elas não estavam no mesmo patamar.

Realiza que não presenciou a violência crua e a carnificina da frente de batalha, ela nunca viu a morte e nunca foi a morte de alguém, nunca ouvira o último grito agonizante de um ferido, por mais que sua mente pudesse ser criativa ela estava convicta que a realidade é completamente diferente, ela sempre estaria blindada dessa choque.

Mal podia começar a medir as experiências de guerra que Helda guarda com zelo e discrição dos últimos quatro anos que se passaram na guerra e portanto, pouco tinha direito de interferir ou de confortar, essa seria uma tarefa para a filha, julga que sua presença e sua ajuda já eram tônicos de bom tamanho e então resignada, se retira.


Naquela janela a vista dos divinos alpes germânicos Helda desesperadamente buscava por uma cura, buscava a cegueira das torpes imagens que vagavam em sua consciência,o esquecimento das pessoas e das realidades, o afeto das pequenas coisas e a redenção de seus atos, porém quando as mesmas vinham sentia uma culpa fulminante, um peso que lhe esmagava a alma e o peito, seus olhos vasculham o quarto e olha as imagens e seus pertences, cada um deles eram coisas que a empurrava de volta ao estado quo, ao Estado de guerra, violência, além da beleza dos Alpes elas existiam e chamavam Helda, agonizavam pela sua ilustre presença mais uma vez nos campos de sangue e pólvora.

— Não! — Falou para si mesma a veterana, o retrato de seu marido e sua recém-nascida filha não a confortava mais, ela ansiava o verdadeiro, o vidro protetor era frio e a imagem era imóvel, a felicidade que seu timbre trazia e o calor de sua presença havia acabado e quando via Helena feliz com sua presença ela sentia-se culpada e hipócrita, ceifara a vida de tantos homens e os privara da mesma felicidade, se sua filha viesse a saber disso, poderia ela ainda amar uma pessoa tão torpe da mesma forma?

— É claro que não! — Respondeu para si mesma, no silêncio pleno da sala Norma e suas duas crias ouvia os devaneios da amiga.

O silêncio era ruim para Helda.

O que a veterana acreditava que seria um tônico na verdade lhe era um veneno, o silêncio não a revelava um esperançoso futuro, apenas a jogava de volta ao seu passado derradeira, Helda escuta a pequena Aida rir em algum lugar da casa e isso a leva a pensamentos cada vez mais profundos, a um passado não tão distante, o passado de como ela havia acabado naquela janela.

Quando retirou-se da frente de batalha em pleno pico da Operação Barbarossa, Helda desafiou todo o alto-escalão Alemão, as leis marciais e o próprio Führer, o único motivo para o qual Helda não fora deportada, presa ou executada imediatamente foram completamente os frutos de sua propaganda, ela era uma heroína que sustentava a moral do exército nas mais tristes derrotas, os homens a viram como uma mãe que precisava voltar a seus deveres de mãe, contava também com o apoio de sua divisão, suas compatriotas da 1ª divisão panzer de elite Iron Maiden, especialmente Hannah von Bauser, atiradora, sua tutora e maior estrela, que foi o fator culminante para que o próprio Führer concedesse a permissão de sua volta ao Reich e sua precipitada aposentadoria, ela viajou para o Sul da Alemanha, no lugar aonde conheceu seu falecido marido: Bryann Müller, morto na invasão da Polônia, sua filha Eleni Helena Müller pelos longos anos de ausência da mãe na guerra estava aos cuidados dos avós paternos em Munique, um casal sórdido e fechado de cristãos que por diversos motivos morais, raciais e de gênero foram contra o envolvimento de Bryann com Helda, culminando na mudança forçada dos recém casados para Berlin, abandonando o casal de idosos à sua mercê, dez anos depois Helda Müller é uma viúva e uma veterana das forças armadas e sua primeira ação foi retirar sua filha da residência dos avós, que mesmo depois de décadas ainda odeiam Helda com a mesma intensidade de quanto a odeiam do primeiro dia, culpando-a pela morte precipitada de seu filho.

Para impedir que a filha fosse envolvida em uma briga desnecessária e que a fosse revelada um complicado passado a veterana agiu com rapidez, raptou a própria filha em uma noite de Janeiro, fugiu de Munique para o interior na baixa Baviera na divisa com a Aústria, distrito de Laufen am Neckar, aonde acreditou que a natureza lhe curaria todas as cicatrizes, passou a dividir uma residência com sua grande amiga Norma Becker, uma mulher de bom coração e humildade inabalável que mostrou diversas vontades e sentimentos que Helda havia esquecido, Norma é também mãe de duas pequenas e graciosas gêmeas chamadas Ada e Adele, que estavam ameaçadas de crescer sem a existência de seu pai, Adam Becker.

Um dia estavam comendo Helda e Norma uma farta, aquecida e deliciosa torta de maçã no jardim da residência, entre as árvores e as orquídeas as pequenas gêmeas estavam presentes, estando a gorducha Ada no colo de Helda comendo pedacinhos minúsculos da torta com impressionante serenidade e paciência, Adele sentava no colo da mãe, a pequena Ada abocanhava a colher com o recheio que Helda trazia com parecia se divertir com isso a pequena Ada, as duas conversavam de como a veterana inspirava disciplina até nas mais simples das pessoas.

— Eu não acho que Adam vai morrer, Norma. — Falou Helda com ousada normalidade e aleatoriedade, alimenta a pequena Ada e checa a reação da amiga, a mesma demora um pouco para responder.

A face de Norma muda quase instantaneamente, ela ajeita a Adele em seu colo e Helda continua falando.

— Depois que ele viu a foto de você e esses dois anjinhos, isso vai lhe dar uma força imensurável.

Ela se segura para não chorar de imediato, respira profundamente para afugentar as lágrimas, como apoio moral Helda leva a mão em seu ombro para lhe transmitir forças, ela sabia muito bem que a amiga queria falar sobre aquilo, então Norma fala baixinho, como se não quisesse que suas filhinhas sentissem sua tristeza.

— Adam nunca foi um homem forte, é um homem frouxo, um bunda-mole! Sua cara na adolescência me irritava, ele parecia um velho com dor sem motivo algum, eu batia nele.

A veterana solta uma risadinha diante da revelação.

— O chefe o amedrontava e ameaçava seu pagamento, seu pai o tratava com desdenho e a mãe o apalpava como se fosse um boneco de neve, ele podia desmontar a qualquer momento, os garotos lhe riam da cara e um dia homens bêbados o jogaram no rio Neckar, por pura malícia ao notar sua forma corporal inofensiva, nossa como eu me irritava!

Elas se levantam e se dirijam ao limite da residência, um pequeno cercado de gramado que garantia vista privilegiada ao rio límpido e cristalino rio Neckar.

— Eu sou filha de fazendeiro, aprendi a trabalhar duro e a enfrentar meus cinco irmãos desde pequena, meu pai nos levava a igreja para que a gente pedisse perdão a Cristo e eu acabava pecando mais, batendo no Adam, como ele era covarde!

Aida e Adele estavam inocentemente hipnotizadas pela visão da correnteza do rio, Helda não podia deixar de imaginar o quão grandioso e misterioso aquele estreito de águas parecia para elas.

— Eu batia nele porque ela um covarde e acreditava que isso o endureceria, deixaria ele com cara de bravo! Verdadeiramente bravo! Que homem aceitaria apanhar de uma mulher? Então um dia quando eu o surrava nas margens desse mesmo rio Adam impediu um dos meus murros e contra-atacou.

Aquilo deixaria qualquer mulher indignada, porém Helda claramente não era qualquer mulher e perguntou com grande naturalidade.

— Ele te bateu?

— Me bateu com uma flor, Helda. — As lágrimas escorrem de seus olhos, ela se corrige.— Me tocou a face com uma Eldelweiss selvagem, eu vi suas mãos e elas estavam cortadas.

Agora a veterana ficou verdadeiramente surpresa, a imagem de Adam Beckers sofre uma drástica mudança em sua mente, Eldelweiss é uma rara flor que só cresce nos alpes, em locais de difícil acesso e depois dos pinheiros ingrimes e volumosos, levava coragem e dedicação para subir só para colhe-la, uma empreitada feita frequentemente por soldados que queriam provar seu valor.

— Então como pode Adam ser um covarde?! Ele fez isso só para te impressionar!

— Sim, e deu certo, me apaixonei na hora.— Responde uma tímida Norma, as pequenas Aida e Adele eram literalmente a prova viva disso, agora a mãe de gêmeas parece muito mais confortável, como se houvesse soltado um peso de seu peito do seu próprio jeito, ela conclui então sua história.

— O chefe que o amedrontava porque queria trazer um pouco de disciplina, coisa que o pai negligenciava, ele permitia os mimos da mãe porque era doce e não queria entristece-la, naturalmente ela foi o deixando… Os bêbados o atacaram depois que ele se aproximou para oferecer água e sua carroça para levá-los pra casa, eles o humilharam por agir com bondade, ele deixava eu bater nele porque eu era uma criança triste e irritada, eu vivia entre cinco irmãos e ainda me sentia sozinha, Adam procurou uma forma de ajudar… Em sua própria forma.

As últimas palavras soam apaixonadas e sua continuidade prosseguiu em sua mente, Norma suspira como e sente seu espírito renovado pelo rio Neclar, pelos alpes, pela brisa do outono e pela presença de Helda, ela a abraça forte como sinal de agradecimento por escutá-la, não trocam palavras por um longo minuto e Norma procura secar as poucas lágrimas que desceram nas rédeas de seus vestidos, na residência as duas não percebem a chegada de uma certa pessoa, uma jovem Helena serpenteia atraída pelo doce cheiro da torta para o jardim e encara complexa enquanto mastigava seu pedaço de torta, duas mulheres se abraçando docemente, sozinhas, em um final de tarde com os Alpes no horizonte, a pequena grega engole sonoramente seu pedaço de torta, parcialmente corada.

— Meu Deus… Que pecado…

— Helena, por favor… — Elas se soltam, Norma de uma forma muito mais abrupta.