Iron Maidens : Cela 42

1933

Manhã no ano de 1942, o Sol estava oculto pelas massas cinzentas de nuvens carregadas, sinais de tempestade.

Afastado da civilização, no interior alemão um edifício erguia-se na vastidão da planície, era um edifício de máxima discrição, janelas pequenas e pintura exterior cinza, um silêncio absurdo pairava no lugar, dentro um oficial da Schutztafell espera impacientemente em um cômodo de cores neutras e enfermiço, sentado em uma poltrona vinho forte, na sua frente a secretaria trabalha indiferente e roboticamente, eficientemente organizando um maço de documentos e oferece ao oficial, esses documentos possuíam o símbolo do Terceiro Reich, o oficial ele se levanta para pegar sentindo uma enorme inquietude, a manga do uniforme militar impecavelmente engomado era um contraste com as mãos trêmulas, o homem não esboça uma palavra e então a secretária hesita, o encarando com olhos fixos por trás de suas lentes embaçadas.

Kommandant? Você está bem? ”

O comandante assentiu e ela entregou os documentos sem a mínima empatia,a mulher já o odiava e intimamente, desejava sua morte de uma forma brutal, o comandante traduziu a rudez com que foi tratado de uma forma diferente, julgou-a ignorante e inocente dos terrores que habitavam aquele edifício, ironicamente a poucos metros de distância da sua estação de trabalho.

“ …Pode abrir, soldado. ”

No canto da sala um soldado estava de prontidão, típico soldado alto de cara dura, vestia o uniforme verde musgo da Whermatch, abriu a velha porta metálica ao seu lado vagarosamente, soltando um ranger quase insuportável, a porta dava acesso a um corredor sem saída de cores frias, era uma prisão improvisada, feita às pressas devido as necessidades da guerra e da necessidade do segredo, do lado esquerdo era uma parede comum e reforçada, com pequenas janelas que davam uma iluminação precária, ao lado direito do corredor era um conjunto de dez celas.

Dez celas, dez documentos, dez presidiários, naquele lugar comandante Albert Brussels tinha uma missão a fazer, ele não tinha escolha a não ser fazê-la.

“ Meu Deus. ” — Pensou.

A inquietude do capitão agora se transforma em um medo irracional, graças as cores e ao clima ali tudo era cinzento, as celas tinha grades grossas de aço aonde o Sol mal tocava até mesmo em seus dias mais fortes, expeliam um odor de fezes, urina, pó e o encardido do passar do tempo, eram mal cuidadas e negligenciadas, silenciosas como túmulos, dentro desses pequenos cubículos inóspitos habitavam as maiores tragédias e terrores do Terceiro Reich, pesadelos de Adolf Hitler, Himmler e muitos outros governantes, monstros, abominações que um dia foram humanos, agora nem tanto.

“ Qual é a cela, comandante? ”

Ainda na porta o comandante engoliu a saliva com força, o soldado havia quebrado o silêncio e denunciado sua presença aos encarcerados, o comandante não ousou falar, ao invés disso lhe entregou o bilhete com o número da cela indicada: 42, a última, maldito azar! Ele pensou, o soldado lhe lança um olhar desconfiado, arqueando a sobrancelha.

“ Siga-me. ” — Disse então em um tom indiferente, passando a marchar.

Daí para frente era realidade, o nazista sentiu o impacto agora de seu nervosismo e o medo que instantaneamente consumiu o seu corpo, ali dentro daquelas celas habitava o horror, o sobrenatural, hesitou para dar o primeiro passo sem se preocupar com reputações, quando então bateu o primeiro passo o som parecia ter ecoado forte por todo o corredor, e de fato ecoou, porém nenhuma reação surgiu das celas, um breve alívio.

Prosseguiu em passos lentos, sentia seu corpo pesado, postura estática, os olhos retos e alertas por baixo do quepe em um só ponto no fim escuro do corredor, no canto de seus olhos ele não podia deixar de notar as silhuetas nas celas pelas quais ele passava, eram todos homens, ou quase-homens, deitados, ocultos no fundo da cela, encostados na parede, nenhum parecia notar sua presença no corredor, ou não se importavam, ele continuou vagarosamente, em um ritmo muito mais vagaroso que o do soldado.

A última cela era o destino, Cela 42.

“ É aqui kommander, cela 42, detenta Hannah Eldritch von Bauser.”

A última cela era de longe a cela mais “humana”, os sinais que uma mulher habitava o lugar eram evidentes, o chão era seco e o odor se remetia apenas ao inevitável, sentada na cama de lençóis limpos uma mulher, a única do corredor, lia o Mein Kampft com a pouca luz solar que tinha a sua disposição, o feixe de luz cortava seu rosto de forma que sua expressão era escondida pela escuridão, porém os lábios eram visíveis, ela permanece lendo o livro sem se importar com seus visitantes, o soldado se pôs entre o comandante e a cela.

Kommandant com todo o respeito, tem certeza que o senhor é o homem certo para o trabalho? ”

O oficial ignora a pergunta ousada do soldado, tossiu e ajeitou o cinto do uniforme, começou a dedilhar o maço de folhas que lhe fora a forma de achar o documento necessário da detenta, esse maço continha todas as informações básicas sobre os detentos daquele corredor, tentando encontrar coragem para lançar sua primeira palavra naquele silêncio sufocante, na escuridão da cela a mulher enfim deu atenção aos oficiais em sua porta, falando com uma voz rouca e um tanto surpresa.

“ Albert Brussels? ”

Hannah Eldritch Von Bauser se levanta e se dirige a grade atrapalhada, o deixando um tanto surpreso por ela conhecê-lo, ele não usava nenhuma identificação e ele mal podia ver o rosto dela naquele corredor, como podia? Ele só se recordava uma única vez em que estiveram perto, em um comício em Vienna anos atrás, querendo parecer durão e um típico oficial, resolveu ignorar, dedilhando a leva de folhas pela quarta vez seguida sem resultados.

“ Eu reconheço você, é um homem de certa forma infame. ”

Na cela 41 ao lado uma voz monstruosa e gutural repete as palavras da detenta, vinda do fundo do lugar.

Albert Brussels…

Escutar uma monstruosidade sussurrar seu nome era aterrorizante, a detenta vê humor em seu nervosismo.

“ Está com medo, Albert Brussels? ” — Ela pergunta.

“ Sabe porque eu sei seu nome?” — Sem sucesso em dedilhar, Albert tenta olhar minunciosamente cada folha.

“ Eu acredito que nós nos encontramos em Vienna. ”

“ Não nos conhecemos pessoalmente Albert, porém o seu grupo de oficiais era destaque, um bando de militares e médicos do qual eu nunca havido falar, de repente juntos do próprio Führer. ”

“ Bom, é normal que nós levantamos a inveja de algumas pessoas… ” —Seus lábios tremulam e falham em tentar exprimir confiança, Albert Brussels checa a reação da detenta e se assusta, os olhos delaeram uma mistura de beleza e feiura que o encaravam, a íris era um azul-marinho que reagia com o toque da luz fraca solar trazendo um certo misticismo neles, porém estavam inchados e desgastados de noites longas sem dormir, ele paralisou por um momento sobre eles.

“ Está insinuando que eu fiquei com inveja, comandante? Você sabe quem eu sou? ” —Hannah pergunta, logicamente Albert Brussels sabia, sabia muito mais do que desejava saber, toda a Alemanha naquele ponto sabia quem ela era! Porém apenas alguns sabiam de seu paradeiro.

De repente na cela ao lado, cela 41, um grito medonho.

Albert Brussels! ” — O monstro da cela 41 grita com enorme fúria e avança contra o capitão, fazendo um sonoro baque na grade da cela que o impede de alcança-lo, Brussels cai para trás de susto, deixando seus documentos cair todos no chão sujo e úmido, o soldado empunha e carrega sua carabina 98k 8mm imediatamente, apontando para o centro da testa do leproso.

Penúltima cela, cela 41, o nome do monstro era Teufel, suas mãos que seguravam a grade eram enormes e deformadas, gordurosas, cheia de bolhas e veias visíveis, seus olhos eram avermelhados e possuíam sinais de sangramento, seus dentes eram serrados e amarelos, sempre visíveis pois a carne de seus lábios eram flácidos e não se fechavam, sua face era leprosa e peluda, uma junção de inchaço, crateras e pelos irregulares por todas as partes, grunhia sons estranhos e dolorosos, quando seus olhos e o do capitão se cruzaram o oficial vislumbrou o inferno, os olhos da abominação estavam atônitos e fixos como um predador quando vislumbra sua presa, o oficial quase imediatamente sente perder suas forças com aquela aparência profana do homem, o soldado e a detenta porém não reagem de forma alguma, como se vissem uma coisa completamente natural e mundana.

“ Você está bem, capitão? ” —Perguntou o soldado novamente com a sobrancelha arqueada, Hannah gargalha, voltando para a sua cama inconformada.

“ O homem é um covarde, Aufseher! Ele se cagou pro Teufel! ” — Ausfseher era o nome do guarda, que resolveu não responder pela honra do oficial, Von Bauser continuava rindo abafadamente, com essa agitação os detentos das outras celas começam a se aglomerar em suas grades em curiosidade, monstros com suas próprias deformidades e peculiaridades assustadoras assim como o Teufel, caído no chão e dopado pelo choque Albert desliza seus olhos um pouco para a esquerda, olhando as outras celas com uma inocente curiosidade, teve a impressão de que um deles conseguia colocar a cabeça para fora, como se sua massa cefálica fosse gelatinosa e passava perfeitamente pelo vão da grade, o nervosismo atacava sua imaginação e o nazista sentia cada vez mais vontade de ir embora.

Porém toma um momento para respirar forte, lembrando sua posição, suporta a onda de choque provocada em seu corpo e a morfina do nervosismo, fez um sinal e o soldado Ausfseher se aproxima mais uma vez, o leproso da cela mais próxima era particularmente ameaçador.

“ O leproso… Manda ele pra dentro, está acabando com meus nervos.”

“ Pra dentro Teufel, pra dentro! Anda!” — E assim como alguém afugenta um animal o soldado cutuca a carabina bem no meio da face deformada do homem abominação, Teufel solta um grunhido insuportável de dor e se joga de volta na escuridão da cela 41, silenciando-se abruptamente.

“Está com medo do Teufel, comandante?” — Perguntou a detenta.

“Sua aparência… É assustadora.”

“É você quem o deixa assustado comandante, foram os camisas negras como o senhor que o fizeram assim, essa coisa. ” — O comandante se levanta e ajeita o colarinho, recompondo-se.

“ Se eu me lembro bem seu uniforme era tão negro quanto o meu, kommander.”

Diante da fala a mulher não pode evitar um sorriso sombrio, uma mulher comandante? O passado de von Bauser estava intimamente ligado com Hitler e a SS , ela não respondeu imediatamente, levou um momento para analisar o uniforme de Albert.

“ Tem razão comandante, eu sou… Ou melhor, era uma camisa negra, mas você é o único maluco vestindo um uniforme da Schutztaffel dentro desse lugar, isso é tudo que importa para eles.”

Assim como muitas pessoas os monstros também odiavam aquele uniforme, o uniforme de Albert estava todo dentro dos padrões da Waffen-SS com uma única exceção, a insignia que portava nos ombros e nos braços, era uma cruz com uma serpente enrolada sobre ela, as duas faixas indicavam que talvez ele comandava algum batalhão, coisa que Hannah pessoalmente julgava irônica.

“ E além do mais, eu não me lembro de nenhuma divisão especial da SS com uma rosa e uma serpente, muito menos me afiliar a ela, esses monstros sentem fome e medo, a maior parte da razão deles fora embora, eles não diferenciam mais uma maçã de um cadáver, um humano de uma presa, porém o uniforme, o uniforme negro é simbólico para eles, você não queira saber o que eles podem fazer se colocarem as mãos em você. ”

Abriu um breve sorriso de ponta a ponta, Albert agora entendia um pouco melhor, a detenta era perversa porém tinha certa sanidade, ele toca sua insignia com certa paixão, procurando resolutividade em algum momento de seu passado.

“ Mas não há nada que eles podem fazer, eles estão presos.”

“ Talvez estejam presos porque eles querem…”

A fala despertou-o, Albert faz um sinal para o soldado para que ele afugente os demais detentos colados em suas grades e assim o soldado obedece, mesmo temendo que se afastasse o Teufel poderia vir tentar assusta-lo novamente.

“ Você estava ocupada no front então provavelmente não ouviu falar, minha divisão é Nimbelung, se trata mais de uma polícia, como a Gestapo, Kripo ou Sipo, uma divisão de oficiais e médicos, dedicados a trazer um futuro melhor para a nação aqui em casa no homefront. ” — Então pode se escutar o soldado gritando e forçando os demais detentos a ir para o fundo de suas celas, Albert falava como um político, mostrando o ombro de forma que a detenta pudesse ver perfeitamente o brasão de sua divisão.

“ Que tipo de dedicação? ”

“Confidencial.” — Curto e grosso, porém era óbvio.

“ Ora, ora. Um homem misterioso esse Albert Brussels! ” —Von Bauser volta a leitura de seu Mein Kampf . — “ Mas sinceramente Brussels, vestido dessa forma, você não devia estar aqui.”

“ Não há lugar na Alemanha que um homem da Schuztaffel não possar Von Bauser, você sabe muito bem disso, você vestiu essas mesma vestimenta negra que eu visto agora. ”

Intimamente Hannah não negava, vestiu o uniforme da SS e usou e abusou do poder que emanava dele, porém também conhecia e a inveja que ele atraia, de todas as partes, as pessoas passam a desejar seu mal-estar imediatamente, nesse ponto os dois não eram diferentes, eram afinal apoiadores ferrenhos da ditadura, heróis ou carrascos? Invasores ou conquistadores? Para Von Bauser ainda existia uma diferença crucial entre ele e ela.

“ Você não é Schuztaffel! Você é um covarde, eu te teria executado só pela vergonha de entrar aqui mijando nas calças. ” — Falou então.

“ … Eu estava sendo precavido Von Bauser, eu sei o que essas… Coisas são capazes de fazer, assim como eu sei o que você é capaz de fazer, você não está aqui nessa prisão por qualquer coisa, devo te lembrar disso também? ”

Hannah Eldritch von Bauser era sobretudo uma mulher de espírito, uma filiação perfeita entre ímpeto e planejamento, de aparência era uma mulher atraente, de ordinários trejeitos femininos e de típicas características de alguém da Baixa Baviera, com um rosto de traços fortes e ao mesmo tempo delicados e finos, cabelos longos e loiros, caucasiana, apesar de uma veterana e encarcerada por meses naquele inferno,sua pele era limpa e livre de stress, com exceção dos olhos inchados e uma cicatriz na parte direita da face, marca de um projétil que quase terminou com a sua vida, a maior e mais relevante característica de Hannah são seus olhos, normalmente castanhos, sobre a luz do sol eles se tornavam um belo e escuro azul marinho, Albert Brussels nota como ela não se diferenciava muito dos milhares de cartazes da propaganda.

“ Eu não sou um monstro Albert, eu cometi um crime contra o estado e não nego, mas o porquê me trancarem nessa prisão com esses monstros ainda me é desconhecido. ” — A bela aparência dela porém estava longe de convencer Albert Brussels disso, o que trouxe Hannah Eldritch para aquele lugar não foi sua aparência ou seus crimes, foi a brutalidade e a frieza deles.

“ Eu tenho aqui sua ficha e todos essas coisas para te lembrar, apesar de eu não estar achando agora... ” — A esse ponto ele volta a suas folhas e começa a ler os registros contidos nela.

“Talvez seja porque eu não devia estar aqui?”

“ Nimbelung Corps nunca erra, você se afundou, você merece estar aqui.”

Albert continua.

“ Essas… Coisas, eram todos estrangeiros, produtos de governos corruptos e escravos do capital que atentaram contra a boa segurança do povo alemão, são todos homens que tentaram nos enganar, nos envenenar! E você está entre eles agora! Logo você! Uma Alemã pura que nasceu e cresceu nos alpes, um dos maiores orgulhos do Führer, acabar desse jeito. É por isso que eu digo que mulheres nunca vão servir para ser militares, ainda mais comandantes, é natural que você decaiu ao nível desses lixos. ”

Pragmatizava como um político, a mulher olha para o lado desapontada, havia ouvido aquele discurso preconceituoso mais vezes do que podia contar, e ele não soava mais convincente, na sujeira do limbo ela descobriu que não era diferente de nenhum deles, de como o terror e a solidão atingem todos os humanos da mesma forma.

Porém Hannah Eldritch intimamente ainda era uma nacional socialista, uma nazista, a retórica contra a ignorância incomodava seu ardente idealismo, ela se contradizia todos os dias e reconhecia isso, porém relutava, agarrando-se em acreditar que o nazismo era uma ideologia a ser aperfeiçoada.

O monstro em especial da cela 41, Teufel por exemplo, um dia foi um americano jornalista hospedado em Lyon na França, de boa índole e muito famoso, sua vida terminou assim assim no momento em que deixou de lado língua e origem e voltou para salvar pobres almas durante um confronto, foi quando ele se cruzou e ficou de frente com um inteiro batalhão alemão, ou ele se rendia ou morria.

Teufel…Na época vocês não poderiam prendê-lo porque os Estados Unidos era um país neutro na guerra, então simplesmente sumiram com ele… E então a Nimbelung corps passou a cuidar dele, pobre Teufel…” — Pensou Hannah, sua expressão endurece.

“ Então a Nimbelung Corps é o órgão corrupto do exército que tentou me transformar em um deles, que tentou fazer experimentos e me transformar em uma ferramenta humana? — Diante da súbita pergunta, Albert hesita.

“ A Nimbelung não é corrupta. ”

“Não? Eu sou a heroína desse país, mesmo assim tentaram me prender e me transformar em uma leprosa, realmente tentaram. E quando não conseguiram, quando eu lutei de volta vocês me prenderam aqui, porque temem a mim Albert, mas precisam de mim… Das minhas capacidades genéticas, tentaram roubar o que eu tinha mais de precioso de todas as formas, ora como vocês tentaram! ”

“ E o que você tem de mais precioso, Hannah? ”

“ Ora, você não sabe Albert? ” — Ela fita o general de forma seca.

“ Eu não tenho esse tipo de informação, porém eu tenho certeza que foi para o bem maior. ”

“ Claro, bem maior. ” — Ela olha para o lado novamente, desapontada, aquilo atiça o oficial.

Supondo que a Nimbelung tentou te roubar o que você tem de mais precioso, Hannah… Logo você! Que não tem mais nada! O que isso seria?”

“ Você não entenderia nem se eu desenhasse, pobre homem. ”

Ela soa e gesticula como uma mulher madura desdenha de um virgem, mesmo assim Albert não entende, ele era um homem ingênuo e tolerante, tratava ofensas apenas como características selvagens do ser humano, ignorantes e sentimentais, e nisso deixava de entender mensagens atrás delas, Hannah prossegue.

“ Você não se sente culpado? Pobres homens como esses sendo transformando em monstros, para qual propósito?! Para qual função?! Eles vivem em tortura e dor permanente, despidos de suas consciências e governados por seus instintos selvagens! Eles não são armas, eles são monstros desgovernados! E Tudo porque tiveram o azar de nascer em um lugar diferente, pertencer a um povo diferente, é só olhar para o Teufel Albert, você vê agora os resultados das experiência de sua divisão? ”

“ Madame, minha divisão não faria isso injustamente, esses homens eram homens perigosos e mereceram isso, nós tivemos misericórdia em não matá-los de vez! Não percebe que são um bem maior serem mantidos assim? Como experiências vivas? Ao invés de soltos nas nossas ruas, impunes?”

“ Entendo, agora eu entendo. ” — Fala Hannah.

“ Entende ?” — Pergunta Albert.

“ Você não passa de um oficial da baixa classe que limpa a sujeira deles, o que você saberia da verdade, certo? Você só recebeu lavagem cerebral tão forte quanto a desses coitados. ”

A esse momento o soldado volta, Albert agora realmente se sente ofendido, era uma verdade inconveniente convenientemente jogada em sua cara, o silêncio se instala de novo no corredor, olhou para o soldado e fez um sinal com os dedos, pedindo as chaves da cela 42, depois sem voltar-se para a detenta, falou.

“ Pois bem, eu sei que você será levada agora para ser executada, von Bauser. ”

“ Executada?! Pelo o que?! ”

“ Isso é algo que será discutido depois, mas provavelmente pelos crimes e desacatos que você cometeu, soldado, abra a cela! ”

O soldado e Hannah trocam olhares, ele põe a mão no bolso para pegar sua chave e antes que ele pudesse fazer qualquer movimento ela o agarra contra a grade e começa a sufocá-lo, sua força foi eficiente e o soldado perde seu balanço, nessa perca de balanço ela rapidamente apanha sua carabina e a aponta contra o oficial.

“ Soldado! O que está fazendo ?! ” — Ao mesmo tempo Albert já sacou seu revólver, Hi-Popper 19mm cromado preto, Hannah também já tinha sua carabina mirada contra ele, largando o soldado da grade.

“ Ela me rendeu senhor! ” — Ele permanece caído no chão, tentando recuperar o fôlego.

“ Vá chamar ajuda! Vá! ” — Ordenou o oficial, perplexo com a incompetência do soldado maior sendo facilmente subjugado por uma mulher.

A situação para o oficial era difícil, com o barulho os detentos voltam para as grades e voltam a produzir sons aberrantes, grunhindo, sussurrando e rosnando, dessa vez ele realmente tenta manter a calma, a linha tênue e frágil entre a linha e a morte o mantinha em alerta.

Albert! Albert!  — O leproso Teufel está na grade da cela 41 de novo, esfregando e marcando seu rosto contra as elas, os olhos permaneciam sangrando e ele era claramente atiçado pelas roupas negras da Waffen-SS do comandante, todos os outros monstros seguiram seu exemplo e começaram a debater em suas celas, chacoalha-las em tentativas fúteis de quebrá-las.

Foi um momento súbito de descuido que tudo aconteceu, Albert não escutou som de disparo nenhum, tampouco seu corpo sendo furado por um projétil, ao invés Albert sentiu o impacto de um punho violento contra o seu queixo, que o jogou contra a parede e o desabilitou ali, imediatamente sendo jogado já semi-inconsciente contra o canto do corredor, os olhos semi-cerrados, o soldado Aufseher estava de pé novamente e o aplica um chute no estômago como garantia, Albert havia sido traído.

A loira sorri com uma enorme perversidade, com os olhos azul marinho arregalados encarando Albert, triunfantes! Albert junta todas as suas forças e levanta seu revólver para disparar contra ela, que ao perceber o menor movimento de seu braço mirou a carabina contra sua mão direita e dispara com destreza, estraçalhando a mão de Albert com um disparo cirúrgico, sua carne e seus dedos voam com o impacto.

Pânico.

Entorpecido pela dor, ele pode ver claramente seu dedo menor caído perto da cela 41, aonde o leproso Teufel gritando seu nome agarra seu dedo como se fosse um tesouro, o leva a boca imediatamente e esmaga a carne dura com seus dentes amarelos facilmente, estraçalhando-a e sujando todo seu lábio ferido com sangue e restos mortais, a visão fez o pânico começou a tomar conta do oficial, ele volta os olhos para a encarcerada, o soldado abria a cela calmamente para ela agora, foi tudo uma encenação, ela abre novamente o seu livro Mein Kampf e ali estava a ficha sumida que Albert não conseguia encontrar, ela havia afanado quando ele caiu assustado.

Hannah sai da cela calmamente e se encosta na parede, começa a ler o conteúdo da folha.

“ Resumo: Hannah Eldritch von Bauser praticou crimes contra a Schuztaffel, Medical Corps e Nimbelung Corps, destruição de uma unidade médica inteira, morte de meia centena de soldados e quinze funcionários da equipe médica, destruição de propriedade, equipamento militar, métodos brutais de tortura, manipulação e controle mental. ”

Ela guarda o documento em seu bolso novamente.

“ Foi isso que eu fiz, Albert.” — O soldado atrás dela vai até a cela 41 e coloca a chave na fechadura mas não a gira, olha para Albert para ver sua expressão assustada, ele então subitamente consegue forças para suplicar.

“ Não! Por favor, não! ” — Ela se aproxima do Teufel e sussurra para ele, o monstro até então selvagem surpreendentemente assente com ela, parecendo entender as palavras da detenta normalmente, entre os sussurros Teufel olhava Albert surpreso como se fosse esclarecido, Hannah estava enganando a abominação.

“ Não entenda mal Albert, eu sou uma heroína, eu vou abrir os olhos do nosso Führer da corrupção e das coisas horríveis que a Nimbelung corps anda fazendo, coisas que ela fez com esses pobres homens tentando sujar a imagem do governo. ”

O grupo prestigiado de médicos e militares da Nimbelung estavam ameaçados, praticamente mortos agora, a divisão não suportaria outro massacre de Hannah novamente, a mulher era de fato um monstro, Albert ainda se lembra das propagandas em todas as partes mostrando a sobrenatural habilidade daquela mulher em liderar e lutar, ele sabia que dar o aviso de alguma forma.

“ Agora, meu caro Aufseher, Sieg Heil?

Sieg Heil!” — Aufseher faz a saudação nazista e leva a sola de sua grossa botina negra na cabeça do oficial.

Albert perde a consciência, alguns momentos depois começou a sumariamente recuperar os sentidos, primeiramente foi a audição, escutou sons de chaves, comoção e grunhidos de todos os tipos, movimentação, seu tato identificou esmagamento e sua roupa sendo rasgada, os ossos se quebrando, a pior dor que um ser humano poderia sentir o despertou por completo, o olfato identifica o cheiro forte de ferro, fezes, carne e sangue, quando finalmente abriu os olhos se viu cercado por todo tipo de abominação, eles estavam comendo ele, o medo então o consome por completo, e aquela mística sensação quando se lida com o absurdo, com algo que não pode entender, no fim do corredor uma luz forte.

“ Eu disse que você não devia entrar com esses uniforme Albert Brussels! Isso atiça os monstros! ”

A porta de entrada aberta, nela estavam Hannah, Aufseher e a secretária de pé o encarando, ele tentou falar, porém sua mandíbula já não estava mais ali, tentou levantar, os monstros mastigavam seus membros.

Albert percebeu que Hannah não entendia que aquelas eram ordens do próprio Führer, experimentos mandados pela alta cúpula nazista, ou talvez ela estava ignorando isso, se agarrando em alguma imagem idolatrada de Adolf Hitler, ele desejava fugir, Nimbelung Corps fazia seu trabalho sujo, desejava fazer algo contra aquilo mas ele estava acabado, aquele era o seu último momento.

Monstro. ” — Foi seu último pensamento, Teufel abocanha seu crânio com força sobre-humana, arrancando de vez Albert de sua vida.

A porta é trancada a duas chaves e um poderoso suporte, o prédio é evacuado e tão rápido quanto o Albert Brussels os monstros também são traídos, agora estavam presos para sempre junto com o oficial naquele edifício reforçado, destinados a morrerem de fome.