O homem do Infinito

Tales de Mileto, o primeiro

Então em algum momento do tempo-espaço eu parei para observar o planeta que eu influenciei morrer, pobre planetinha! Não aguentou os parasitas que feriam sua carcaça e que roubavam suas energias, implorou por eutanásia aos deuses locais e os tolos atenderam! Aquele panteão de homens e mulheres realmente que não eram frutos da imaginação mágica dos habitantes daquele planetinha? Um grupinho seleto de pretensiosas divindades, munidos de poder limitado e presos à realidade mágica daquele lugar, realmente acreditavam serem de absoluto poder e sabedoria e aplicaram um cruel Armagedom!

Imbuídos de narcisismo e hipocrisia e baseados em textos de homens primitivos e já há muito tempo mortos, aplicaram uma punição de caráter divino na fauna e na flora daquele planeta, nas crianças e nos inocentes, tudo por causa da soberba de uma seleta cúpula de crentes que ordenavam guerras e destruição em massa em nome dos próprios Deuses que os julgavam! Eu conseguia sentir tamanha hipocrisia na pele (de forma figurada, é claro), mesmo um ser transcendente e onipresente como eu não conseguia deixar de ficar estupefato testemunhando tamanha estupidez.

Você consegue me entender?

Não existe juiz se não existe bandido.

E no momento em que a vida do último humano foi ceifada pela ação daqueles Deuses, as memórias e a importância que os criaram e os sustentavam deixaram de existir e em um súbito sopro mágico todos eles sumiram imediatamente em um ridículo som de peido, independente do “poder” que eles mantinham, não houve cenas místicas e últimas palavras, os destroços do planeta ainda voavam por todos os lados do espaço, a casa dos Deuses que pendia em algum lugar do cosmos sumiu da mesma forma, como luz de lâmpada que se acende e se apaga, não houve nem tempo para impactantes últimas palavras, e por fim e o mais irônico, não houve nem tempo para aquele pequeno panteão de Deuses terem a epifania de suas medíocres existências, o que eu julgo que seria uma punição adequada, seus átomos voltam a compor o ciclo infinito do universo e aqui jaz Terra-097, aonde se minha interferência criou um final tão patético, ao menos me rendeu uma bela aparência.

Em outras realidades, como no planeta que eu chamo de Terra-1080 os humanos tinham a aparência mais primata, Estados e pessoas extraordinárias nasceram ao passar dos séculos e moldaram a realidade, evoluíram, moldando a religião ao seu bel-prazer ao ponto que a fé perdeu seu sentido e tornou-se apenas objeto de tradicionalismo e cultura (esse é o destino de todas as fés, se me perguntassem), minha imagem de Brigid servia mais para adornar os carros e as residências, um último símbolo de resistência contra o imparável progresso científico! Tudo em vão.

Ah, o progresso! A ciência da esperança! Quão longe foram aqueles meros macaquinhos buscando derrotar seus conflitos internos!

Tornaram-se especialistas em criar lógicas e entender o funcionamento da realidade, ao ponto de conseguir substituir famílias e amantes por máquinas programadas, reverencie a máquina e inconscientemente tornará-se ela, não havia mais espaço para besteiras como empatia e idiotices como errar e perdoar, “isso é coisa de macaco” diziam eles, incapazes de aceitar suas próprias aparências, como se macacos não fosse tudo que eles eram, aliás, eles eram somente uma espécie das milhares de outros macacos que ali habitavam, o fim já me tornou claro antes mesmo de se revelar, na primeira crise climática (que inclusive eles sabiam muito bem que ocorreria, mas ignoraram) a comida e a água se foi, terminaram de se matar em primitivas guerras tribais e canibalismo, tristemente aqui perece a vida na Terra-1050, se tornou outra estrela no infinito.

Tais experiências nunca deixavam de me intrigar, notar como o complexo nada mais é que um aglomerado de simples e que no fim não importa quão difícil e torturante é o caminho de uma raça, tudo nasce e morre em um profundo e nítido breu.

E antes que eu pudesse perceber, milênios haviam se passado e meus propósitos ali estavam concluídos, pela primeira vez em um muito tempo eu torno para o infinito universo atrás de mim, as ondas do tempo-espaço vibram intensamente, vários Espectros viajam através do tempo-espaço para um mesmo ponto no infinito, algo acontecia no reino dos posteriores.

Começo a viajar pelo tempo-espaço para ver o que estava acontecendo de tão extraordinário para estar atraindo tantos Espectros, foi quando em algum momento eu escuto uma voz feminina suave, repleta de tranquilidade.

— Agravain, mamãe está de volta! Parece que algum humano conseguiu se meter lá… No nosso reino…

“Tranquila” é pouco eu diria, era Mahakeshi com sua costumeira aparência alienígena, uma mistura de mulher sensual e braços longos como de aranhas, pele azul e os olhos que nunca se abriram (dizem que eles escondem dois buracos negros), adornada em ouro e com seu costumeiro cachimbo que ela mesmo moldou, munido com um tabaco mágico que podia providenciá-la todo tipo de prazer que as ervas são capazes de proporcionar, JUNTAS, então eu já havia me acostumado faz tempo com seu estado permanente entorpecida.

— Mas o infinito né… Tá difícil achar aonde ele está exatamente… Então a mãe só tá parada lá… Paciente…

Mamãe é um Espectro que resolveu se intitular mãe de todos os Espectros, não sei pra que, Mahakeshi desaparece de repente sem esperar respostas, deixando uma breve nuvem de fumaça rosa de rastro como se ela fosse uma espécie de aparição do espaço, poderei responder ela daqui a alguns anos-luz quando chegar no reino dos posteriores.

De repente algo capta a atenção dos meus olhos dentro de uma nebulosa próxima, uma densa nuvem de hidrogênio que emitia uma forte cor vermelha, dentro ela está repleta de astros jovens, planetas, meteoros e meteoritos rápidos que viajam rápidos como a luz, eu me dirijo para lá e sinto que as moléculas são tão densas que eu poderia capturá-las com mãos nuas e mortais, a intensa atividade inter-estelar causava ainda uma alta temperatura no local, algo de certa forma incomum para o espaço, todo o local era um como um inferno incandescente e silencioso dentro do vácuo,o caos do processo de criação, o mais impressionante de todos os processos.

E no meio daquele caos um pobre homem vagava perdido, flutuando em alguma espécie de bolha transparente que o mantinha vivo e bem saudável! Ele estava acordado, assustado e admirado ao mesmo tempo com a intensa atividade dos astros.

— Ei! — Chamo sua atenção e me aproximo da bolha.

— O que? — Ele percebe minha presença — Ei ei ei cuidado! Vai estourar a bolha!

Fala em um puro e nítido grego antigo, eu o respondo na mesma língua.

— Senhor se essa bolha não estourou até agora nesse lugar, não vai ser comigo que ela vai estourar.

Um idoso caucasiano de cabeça calva e de poucos fios grisalhos em ambos os lados da cabeça, sua barba igualmente branca se alonga até seu busto e os olhos eram grandes e claros, fundos em sua face, nariz fino e grande, seu complexo mostrava o cansaço de sua idade com os ombros e rostos caídos assim como, portava típicas vestes gregas de linho, sandálias e nenhum adorno, carregava um livro arcaico escrito em grego, esse homem é exatamente como aquela dupla de pestes, Tales e Corintos.

— Nós estamos no A-peiron? — Ele pergunta e eu percebo que ele não estava falando de inferno ou céu grego, se não diria Tartarus ou Olympos,eu tomo um momento para considerar a situação.

Ele era claramente um dos raros mortais que nós Espectros tanto adoramos.

— Qual é seu nome, homenzinho?

— Anaximandro de Mileto…

É lógico! Um notável filósofo da escola de Mileto, ele era aprendiz do próprio Tales de Mileto! Precursor e criador de pensamentos primordiais que seria utilizados por mortais muito depois de seu tempo, como teria um personagem como ele acabado nesse lugar?

— Senhora… Você é… Artemis? — Pergunta o filósofo nervoso.

Eu era claramente alienígena também àquele lugar com minha aparência, aliás eu parecia completamente uma divindade naquele lugar, com meu corpo emanando luz para que aquele homem pudesse me ver melhor naquele inferno vermelho, Anaximandro não pôde conter mas achar que eu sou um dos deuses de sua cultura, meu medo imediato me diz para concordar para não confundir ainda mais a pobre alma, porém nós Espectros já vivemos e sabemos demais para agirmos com instinto.

— Não Anaximandro, eu sou um… Ser de outro mundo e posso dizer que seus Deuses e os Deuses dos outros não são reais, ao menos não na maioria dos mundos.

— Então os Deuses do Olimpo não são realmente reais? Como eu pensei! Eles não podiam ser.

— Não são exatamente uma farsa, mas são frutos da imaginação de seus ancestrais para explicar a sua realidade imediata, assim como as suas teorias meu amigo, apesar de excelentes são como são chamadas, teorias.

Anaximandro dobra as sobrancelhas, duvidando de minha afirmação.

— Mas minhas teorias ESTÃO certas! Nós estamos no Arché! A última realidade do Apeirón!

— Não, nós não estamos! — Eu respondo, aliás, nós estamos dependendo da maneira que você olha, tudo é relativo.

— Sim, e a prova sou eu estar aqui, minha teoria é real!

Primeiro eu acho um mortal no meio do espaço e agora ele discute comigo, eu não pude deixar de sorrir e ficar curiosa, eu me aproximo mais ainda da bolha em um sinal de desafio, estava a todo ouvidos.

— Ora, é? Então explique-me como você concluiu essa afirmação.

Ele responde em uma só sentença o seguinte absurdo.

— Eu roubei um barco e viajei até o fim do oceano aonde o buraco do Sol se põe, demorou algumas horas… Quando finalmente o crepúsculo chegou eu remei com todas as minhas forças para ir de encontro com o buraco, a luz intensa do fogo que irradiava de dentro dele me cegou mas eu não desisti, continuei remando até chegar ao ponto em que o calor se tornou insuportável… Quando eu acordei, aqui estava eu… No a-peirón, além dos limites do meu mundo!

Depois disso só soou o completo silêncio do vácuo, Anaximandro deve ser de um daqueles mundos… Mas para explicar como ele chegou nessa conclusão maluca eu preciso explicar qual é sua teoria em primeiro lugar. Não é desapontante, eu prometo.