O Prólogo do Infinito

Brigid, Deusa da Primavera
Uma história importante em uma terra sem importância.
Uma história sentimental em uma terra sem sentido.
Essa é a história de Agravain e Martel, os primeiros e os últimos do reino dos posteriores.
Um lugar sem limites e fins, sem céus e sem terras.
Ocupada por desocupados.

O que há de relevância os mortais saberem daquele incógnito lugar? O que há de importância Deus, em sua infinita capacidade e conhecimento, manifestar-se a algo cujo valor não é nada além de um lapso no tempo-espaço?

Se me perguntassem, diria que Deus se manifesta para as grandes rochas e aos grandes monumentos, aos cursos incansáveis do rio e do ar, para a Lua e até para o núcleo incandescente do planeta, são elementos se manifestam e resguardam um valor inestimável, pra que se importar com os bichos de células?! No fim, comparados aos grandes astros habitantes do universo, seus feitios mais interessantes são suas incertezas e seus conflitos, quem faria o absurdo de consertá-los? Eles foram feitos para serem quebrados.

E no fim, Deus contempla-te não te contemplando.

Se haverá de um dia em que os infinitos frutos de Adão e Eva conhecerão o sutil e culminante significado do fim de todas as coisas, tal conceito perderá toda a sua verdade.

E tudo estará realmente acabado.

No entanto, os mortais são impedidos por suas próprias medíocres capacidades empíricas e mentalidades utilitaristas, enquanto todas as suas ações forem dirigidas por reações químicas não haverá nada a se temer para os Espectros, na verdade eles mal se lembrarão. Tal perigo é irrelevante a um nível quase inexistente, utópico, não serve para mais nada além para tópico de divagação e contemplação das oportunidades infinitas que o Universo pode oferecer.

O universo é niilista.

E divagar é o que os espectros fazer melhor, só perdendo para o observar.


Eram outras horas no reino dos posteriores.

Um lugar sem limites de céu e terra, ocupado por desocupados.

Sua mera existência é uma ironia e talvez um pleonasmo.

Seus habitantes se auto-titulavam espectros, pois não eram nem humanos, animais, seres sobrenaturais, eram nada.

Na verdade, cada um se auto-determinava.

Na verdade não havia nem a necessidade de títulos, porém fizeram mesmo assim.

Se intitularam assim quando julgaram que nada mais são do que já foram algum dia, espectros de si mesmos.

Eles eram “tudo e nada”, mas já que não podiam se chamar “tudo e nada” se chamam espectros, depois de um tempo alguém achou que podiam.

Pode se dizer que essa foi a única vez em que os espectros fizeram algo juntos, foi o ato de se auto nomear, assim como grupos de mortais quando se auto-determinam como um povo.

Entendeu? Eu espero que sim.


Eles decidiram-se rápido, pois então cada um podia voltar para suas próprias obrigações, tipos de obrigações que levam eternidades, mas alguma hora ou outra eles acabavam terminando, mas como demoravam “um pouco” eles as vezes acabavam se perdendo no que estavam fazendo ou simplesmente se esqueciam.

E para os olhos de um terceiro, os olhos de um mortal, eles pareciam deveras desocupados. Estáticos como estátuas ou simplesmente matando tempo com qualquer coisa mundana, mortais não eram frequentes nos reinos dos posteriores, aqueles que surgiam por qualquer eram seres verdadeiramente excêntricos, mais excêntricos do que os espectros estavam acostumados a ver, surgiam de dramas e histórias impressionantes, difíceis de se garimpar na imensidão do infinito! Faziam pedidos desesperados 99,9% das vezes e 99,9% das vezes os espectros os atenderam.

“Pedido” era uma palavra fortíssima e mágica para os espectros, são os tipos de coisas que só os mortais podiam fazer, como diversas outras coisas. É claro, um espectro pode “pedir” alguma coisa para o outro, mas ou é algo que o espectro pode fazer ele mesmo ou é algo impossível até mesmo para um espectro, coisas paradoxais como “Crie um outro espectro!” ou “Deixe de existir!”, enfim.

Então quando algum mortal de alguma maneira chegava lá de algum jeito sempre cativavam e aguçavam a curiosidade do reino, eram eventos de grande importância para os espectros observar aquele pequenos seres intrigantes, carregados de emoções e motivações fúteis, as vezes surgiam em grupos ou como casais, suas motivações eram irrelevantes, pedidos absurdos, bons ou repletos de maldades eram todos atendidos, ora porque não?

— Porquê fala de nosso reino na terceira pessoa de novo, Agravain? Está ficando maluco? — Falou Mileto no meu ouvido de repente, me despertando de meu transe, as vezes sinto detesto esse velho.

— E o que te interessas, velho? Estou tentando escrever um livro. —Ele tosse e solta uma gargalhada relinchada como todo idoso de pouco fôlego, não pude deixar de franzir minhas sobrancelhas.

— E está escrevendo em português também? Aquela linguagem esquisita!

— Se manda, caralho. Volte daqui a algumas décadas e quem sabe eu já esteja desocupado que nem você, sim?

“Caralho”? E isso lá é jeito de dama falar?! Hahahahaha!

Quem esse espectro está tentando enganar? Tinha a forma de um sábio ancião, de “sábio” só no nome, face caída de poucos cabelos grisalhos, rude e pragmático, se importava até mesmo em manter os detalhes ruins de ser velho para parecer convincente, como pigarrear e ter dor nas costas, porém no fim ambos tínhamos a mesma idade, para quem ele estava tentando parecer veterano? Ele prossegue falando.

— E vai contar essa história para quem, Agravain? Para um mortal que nasce e morre tão rápido quanto os átomos se movem? Para um espectro?! Hahahaha! Talvez essa sua forma… Esteja afetando seus emoções, sabe como fêmeas são quando o assunto são emoções…

Embora meu nome seja masculino e um dia eu de fato fora um homem, gêneros normalmente não fazem diferença para os espectros, nós não possuímos sexo muito menos forma definida, nós mesmo a decidimos por facilidade de comunicação, então acabamos adquirindo a aparência de algum mortal que nos cativa ou nos aguça, mudamos constantemente nossa forma através do tempo, dessa vez eu era uma mulher de figura divina: Brigid, mulher alta de pele clara e feições perfeitamente simétricas, cabelos dourados longos e ondulados, vestido e casaco, adornada de flores e ouro, o busto levantado e lábios carnudos, uma verdadeira forma alva e jovem, Mileto se aproxima com certa malícia fitando minhas curvas, senta-se ao meu lado para admirarmos o infinito.

— Talvez, quem sabe. — Era inevitável que acabássemos sendo atingidos por nossas experiências e aparências, alguns mais do que os outros, não haviam motivos para orgulhos no reino dos posteriores, suspiramos coordenadamente e resignados.

Em uma de minhas experiências eu permiti que um grupo de mortais tivessem um breve, porém claríssimo, vislumbre da minha existência em céu claro e azul, isso foi o suficiente para moldar toda uma realidade, não precisei fazer mais nada, logo alguns reportavam minha presença nos lugares mais inusitados, outros entraram em discordância e criaram suas próprias versões do que eu poderia ser, me tornei Deusa, giganta, fada e até monstro! As histórias foram várias, inspiraram muitos pequenos humanos e mataram milhares de outros.

Essa breve experiência me cativou, então resolvi manter a aparência de Deusa Brigid por mais um tempo.

— Porém você era um macho peludo e fétido como um macaco, que ironia — Mileto não se cansa de invadir meus pensamentos — O que será que eles fariam se descobrissem a verdade? Já pensou nisso? — Uma melancolia pousa sobre meus ombros.

— Se matariam ainda mais, alguns grupos sobrepujariam os outros, o niilismo reinaria e as diretrizes de milhares de anos seriam viradas do avesso, então terminariam de se matar até que o mundo deles acabassem. Sabendo desse fim e podendo vislumbrá-lo tão perfeitamente, porque eu faria isso, sábio? Porque alguns de nós fazem?

O velho dá de ombros, ele era um dos covardes que faziam isso.

— Eu tenho que te relembrar de novo o sentido da vida, Agravain? — O sentido da vida não é coisa que possa ser facilmente comunicada.

Agora Corintos surge de repente também em meus aposentos cósmicos, velho e feio assim como Mileto, ambos compartilhavam de uma intimidade incomum entre os espectros, logicamente, minha súbita mudança de forma virou o motivo de suas piadas.

— Vocês estão parecendo mortais, melhor parar. — Foi mais do que o suficiente a fazê-los parar a caçoagem, ironicamente, o que tomavam por ofensa os aproximavam ainda mais dos mortais. — E honestamente vocês dois, se quisessem tanto parecer gregos masculinos e sábios, porque não assumem a figura de um homem poderoso, um Espartano por exemplo?

Silêncio abrupto, eles gargalham novamente, espartanos não são exatamente os maiores exemplo de masculinidade e espírito “macho”.

— É um efeito contrário ao seu Agravain, nós nos sentimos pacientes e despreocupados, começo a imaginar que começamos a tomar essas formas para experimentarmos essas sensações.

Era verdade, eu me sentia mais vaidosa e concentrada, me movia entre as estrelas com delicadeza e certos detalhes me importavam, além de me mover de forma mais artística e pronunciava minhas palavras as vezes com demasiada autoridade, talvez era os efeitos de ter sido idolatrada por tanto tempo, as vezes chegava ao ponto de até me importar demais com a vida de alguns milhões de mortais.

— Acaba logo com esse planeta Agravain, nada de produtivo vai sair desse planetinha, nós três sabemos disso! Se não o fizer, eles farão por si mesmos! — Pragueja o intolerante Mileto e Corintos, que já deviam ter a cota de mundos que eles deram fim, falavam com tanto ardor que quase me convenceram, porém realizo rapidamente que tudo na existência tem a ver com a experiência, não era sobre o resultado que aquele pequeno planetinha podia dar, tinha mais a ver com a experiência de deixar aqueles pequenos humanos apreciarem o prazer da vida.

Eles se sentem claramente aborrecidos com minha decisão, sentiam com vontade de acabar com aquilo logo porém jamais atropelariam minha autoridade, isso me faz realizar também que os espectros afinal não eram tão parecidos assim, nós podíamos nos desdobrar entre nós assim como os mortais se desdobram entre si.

Ora, sim! Por um momento esqueci do porquê eu estar escrevendo essa narrativa, a história do dia em que até o infinito reino dos posteriores pareceu pequeno para nós, 99,9% dos mortais fizeram pedidos que sempre atendemos, essa história é sobre os incríveis 0,1% daqueles humanos que fizeram o pedido correto e assim, tornaram-se espectros.

E mesmo entre estes, o homem que um dia se tornou espectro e desistiu.