Camilo Salvador
Dec 22, 2016 · 3 min read

Nos velhos tempos eu costumava dar colheradas no doce de uva direto da tigela. Você fingia que não via, enquanto lavava a louça com tranquilidade.

“Ninguém faz doces como você, Vó”. Os netos adoram. Os filhos também.

Dizem que o doce só pode ser feito com a uva Isabel, a mais doce das uvas. Outros se gabam por terem conseguido completar a receita com uma mistura ordinária de uvas sem semente. Meu pai, ressabiado, defendia as tradições de sua infância com afinco. “Doce mesmo, ninguém faz, apenas a geleia de uva, que é diferente.”

Quando aparecia um doce fidedigno, feito por uma das tias, era fácil desconversar: “E o merengue? E o bolinho? O bolinho é demais!”.

“Imagina… que besteira”. Me lembro da sua voz. De como você fazia pouco caso, Vó.

Aliás, as disputas eram amenas na sua cozinha, não é? O tio armamentista convivia tranquilamente com a minha mãe, uma progressista radical. Trinta anos tentando discutir, nunca conseguiram. Quando ele citava os tempos do regime militar ou ela invocava Marx, todos riam e assuntos mais prazerosos ganhavam força, sobrepondo as ideologias: você falava de como a chuva afetava as orquídeas, da beleza dos santos, da saúde dos vizinhos, de como o seu médico era cuidadoso consigo.

E que ótima ouvinte! Lembro da sua euforia quando conversamos via internet, e eu te mostrei os montes de gelo derretendo na primavera.

Você era tão gentil que provocava também a gentileza do tempo. Sempre achei engraçado como ele passava devagar na sua casa.

O Vô comia com mais vontade, mostrava mais disposição para conversar. Relatava com certa satisfação a viagem para o Rio, a importância do trabalho no banco, o trânsito na Marechal, o estofado do Monza que ficou com o meu pai. Reclamava das dores só quando você estava por perto, meio que para fazer um charme.

Mas, infelizmente, como uvas retiradas gentilmente do cacho, esses dias foram consumidos, um a um. Você adoeceu, e o passar do tempo tornou-se pesado e dolorido. Das uvas de outrora, restaram apenas galhos, cascas e a sua força de vontade.


As viagens para Campinas agora duram uma eternidade, e meu joelho está cada vez pior. Até o barulho do vapor saindo da cafeteira começou a me irritar.

Ao nos reunirmos com o Vô, alternadamente, os familiares vão sozinhos para o fundo do quintal, lamentar a sua perda; regar as suas plantas de lágrimas.

Ontem entrei na cozinha e fiquei perplexo com a vacância que você deixou! Observei as mesmas pessoas, a mesa cheia de doces, a cristaleira do seu casamento, o azulejo português da década de 60; ainda assim, tudo parece tão diferente.

Foi assim, nesse êxtase de saudades, que o tempo finalmente parou. Um espasmo provocado pela sua ausência. Desavisado, senti o descompasso com o coração. Seria você tentando falar comigo? Fugi e vim até aqui tentar te escrever… dizer o quão importante você foi para mim.

Apesar do esforço descomunal, ainda falta tanto, eu bem sei…

Há mais de vinte anos, você ajudava meu irmão a subir na cadeira e nos servia com ameixas colhidas no quintal. Foi lá que eu comecei a ver o mundo, Vó.

Hoje, em particular, não consigo tirar da cabeça a imagem de você arrancando a pele das ameixas com a lateral da faca. Cuidadosamente rasgando meu peito em dois, tirando de lá um caroço duro e liso, e o enchendo com muito, muito açúcar.

Ainda assim, abandonado nessa cozinha das minhas recordações, temo pela passagem natural do tempo; pela inevitabilidade da morte; por não conseguir amar a todas as pessoas. E gostaria de te perguntar uma vez mais: “Amor, eu disse como. E como era mesmo?”

Tantas poesias eu li… nunca mais me abraçaram daquele jeito.

Camilo Salvador

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