Ser professor no Brasil é tipo abraçar o capeta?
Thiago Rabelo
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Eu também aprendi muito sobre a docência por tabela. Atualmente trabalho na área, junto de alguns amigos. Vou fazer um comentário abrangente, porque os pormenores foram muito bem discutidos pela Senhorita inoperante.

Primeiro devemos distinguir docência para o ensino básico (fundamental e médio) do ensino superior. São dois mundos distintos.

No ensino básico o professor sofre muito. A maioria deles precisa acumular empregos em duas escolas para ter uma renda superior a 2 mil reais. Professores da rede pública usualmente dão 50 horas-aula por semana. Há uma heterogeneidade absurda entre os alunos nas salas de aula. Muitos são, de fato, alfabetizados no ensino médio. As condições das escolas públicas são ruins, e nas escolas privadas estruturadas os professores são reféns da política educacional da instituição — i.e. pessoas com boa formação precisam dar aulas de uma disciplina pela qual não se interessam, para 10 turmas diferentes, para ‘tapar buraco’.

No meio do caminho entre ensino básico e superior há os cursinhos, que prefiro ignorar. Só lembro que apesar de pagarem melhor do que algumas escolas, eles dificilmente cobrem o buraco que o ensino básico criou; muitos são grandes caça-níquéis.

O ensino superior é um universo em si. A maioria das universidades privadas hoje não valoriza o professor, por diversos fatores. Primeiro porque não precisam dele — podem contratar outro com titulação menor se for necessário. Segundo, porque há vários mestres e doutores não absorvidos pelo mercado de trabalho. Terceiro porque a conjuntura ProUni + FIES e a falta de fiscalização acabou criando um círculo vicioso de financiamento em algumas instituições, e o MEC faz vistas grossas para as condições educacionais, afinal o business é simplesmente muito bom pra se perder. Empresários estão ficando ricos fornecendo à sociedade um serviço lamentável.

Com relação ao professor do ensino superior público, é o único trabalho que se aproxima de condições dignas, na minha opinião. Digo isso com base no salário médio do professor (próximo 7 mil reais para 40h semanais). A carga horária de aulas (principalmente nas federais e IFs) ainda é muito alta, o que restringe os projetos de pesquisa e extensão. Deveríamos diversificar e flexibilizar as instituições públicas conforme as necessidades regionais, competências e recursos, dando mais opções de carreira aos professores. Alguns professores estão satisfeitos com a docência. Outros, preferem a pesquisa. Seria interessante um regime de contratação que vinculasse a carreira à atividade principal do professor.

No mais, vale ressaltar o grande rombo nos cofres públicos deixado pelo programa Ciência sem Fronteiras. Dinheiro hoje que está faltando no nosso ensino básico dilacerado.

Espero ter contribuído. Abraços