Relacionamento aberto

Deitado no batente da minha janela, notificações do dating app (que eu já não abria há séculos) chegaram aos montes. Perfis e perfis preencheram a página com belos sorrisos e óculos escuros. Dentre a modelo de espelho de academia, a garota com mil tatuagens nos braços e a estudante pró-feminismo usando camiseta de projeto social, algo diferente chamou minha atenção dessa vez.

– Que engraçado — falei em voz alta pra mim mesmo.

A foto do perfil retratava a sombra de um casal, projetada em um belo gramado. Na próxima imagem, o rosto de uma garota sem extravagâncias, com a cara lavada, um belo sorriso e uma mochila marrom, em um ponto turístico qualquer. Acho que do alto de Machu Picchu.

Luiza, 27. Na descrição do perfil, algo incomum havia sido digitado:

Somos um casal curioso, em um relacionamento aberto, querendo conhecer outras pessoas.

Não sei vocês, mas eu tenho o hábito de julgar perfis nesses aplicativos em poucos segundos. Não que eu seja um usuário muito experiente; não é isso. Meus amigos usam muito mais do que eu.

O que acontece é que eu escolho meio que instintivamente, sabe? E eu nem me preocupo tanto, afinal, são tantos perfis que eu posso me dar o luxo de errar.

– Ops, desculpa aí. Até nunca mais.

Mas esse era um perfil inédito. E parecia legítimo, o que é mais intrigante.

Dar ou não um like no perfil de Luiza, 27, foi uma decisão que eu demorei mais de 5 minutos pra tomar. Aproveitando o impasse, desci as escadas e fui procurar por filtros de papel escondidos no fundo do armário. Coloquei a água pra ferver, montei o aparato e derramei a água sobre o pó. Só quando a xícara começou a transbordar lembrei de procurar pelo açúcar.

Mas antes de dar o primeiro gole, já pensando porque eu havia feito tanto café, cliquei com convicção no coraçãozinho.

– Pra que essa preocupação? Ela não vai dar like de volta mesmo…

Mal meu dedo tocou a tela naquela região mínima, o aplicativo deu uma travada, e o celular vibrou com o alerta de um novo match. Alguém naquele casal havia gostado de mim, pelo jeito. Até desconfiei.

Muito educada, Luiza me agradeceu pelo “like” e perguntou se eu era da Unicamp.

– Rápido demais hein, Luiza? E essa pergunta eu é que gosto de fazer — logo pensei. Bom, pelo menos você não colocou “rsrs” nas suas frases.

– Sim, Luiza. Sou sim. E você?

Machu Picchu sunrise, por Daniel Schwabe

Luiza, 27, foi uma das pessoas mais legais que eu já conheci nesses aplicativos.

Melhor. Uma das pessoas mais legais que eu já conheci. Ponto.

Nossa conversa foi naturalmente de “o que você faz mesmo? sério?” até os clássicos da literatura que ela não gostava.

Em poucas mensagens ela já tinha despertado em mim uma curiosidade imensa, tanto que me vi pedindo o seu WhatsApp minutos depois. Ela passou, sem joguinhos, seguido do número do Vinicius, seu namorado.

– Adiciona o Vinicius. Ele também quer conversar contigo.

O lance do namorado ainda era um pouco estranho, admito. Ainda não tínhamos falado dele.


Luiza ficava super ocupada durante a semana.

Tanto que depois da conversa no domingo, ela só me enviou uma mensagem na quarta-feira, se desculpando pela demora ao responder, e pedindo que eu tentasse conversar com o Vinicius nesse meio tempo (pelo menos até o fim de semana), porque ele estava mais tranquilo.

E esse foi um bom pretexto pra iniciar uma conversa, de fato. Obrigado Luiza.

Vinicius não gostava muito de redes sociais. Por isso o perfil do casal havia sido feito com base no Facebook da Luiza. Ele me disse que eles eram um pouco seletivos nos aplicativos — “mais com a ideologia do que com aparência”, segundo ele — e que por esse motivo ainda não haviam saído com ninguém de lá.

– Nunca rolou. Mas já saímos com outras pessoas, claro.

Conhecer Vinicius foi quase como reencontrar um irmão pra mim. Nosso primeiro papo foi sobre a escassez de opções culturais em Campinas; como todos os espaços são espaços de consumo. Falamos com pesar do cinema que fechou, e na sexta-feira já discutíamos se valia ou não a pena adicionar gorgonzola no lanche de frango por mais R$ 3,50. Eu achava que sim, porque gorgonzola é bom pra caralho. Ele achava um exagero.

Muitas coisas aconteceram na sexta e eu não li as minhas mensagens no WhatsApp. No sábado, porém, recebi o seguinte texto após o almoço:

Residentes da Ilha de Barão Geraldo e pobres almas isoladas aqui, estaremos hoje no bar [endereço]. Coxinha + Double chopp até as 21:00 + calor de brinde.

Eu tinha marcado um jantar para aquela noite, mas nesse momento a curiosidade já era incontrolável; respondi “estarei lá” para o Vinicius. Copiei e colei a mensagem pra Luiza.


Às oito horas da noite, depois de uma garrafa de cerveja em casa, convenci a minha amiga que ao invés de jantar poderíamos ir comer uma coxinha no bar, e ela aceitou (pois ela é um doce).

Lá acabamos nos sentando em uma mesa estreita com Vinicius e Luiza, que me receberam com um único abraço, e mais duas garotas, bem indignadas com o lance do Impeachment.

Conversamos por horas como velhos amigos, mas quando alguém da mesa ao lado lembrou que o double chopp já tinha acabado havia tempo, apressamos nossa saída.

O Vinicius gritou para trazerem a maquininha, que chegou num instante. Todo mundo falou se era débito ou crédito, agradecemos ao garçom e nos vimos em frente ao bar por minutos silenciosos nos quais as meninas se despediram, e eu disse que já era hora de levar a minha amiga pra casa.

Em um abraço rápido nos beijamos; Luiza disse que o encontro foi ótimo, nos agradeceu por vir e antes de se distanciar disse no meu ouvido que eu era muito bonito. Incrível como as mulheres tem esse poder, de nos fazer acreditar nessas mentiras.

Fui até o carro olhando para o céu, enlaçado na cintura da minha amiga que falava baixinho “Sempre que você bebe você fica pensativo, né?” — pergunta que eu tive de responder com um sorriso mudo.

Quando cheguei na porta do condomínio dela, o meu celular vibrou duas vezes: “Olha só, os seus amigos te mandando o endereço…”, constatação que eu repliquei com o mesmo sorriso mudo de antes.

– Quando uma mulher fala pra um cara chato igual a você que ele é bonito, ela só pode estar mal intencionada, né?.

Né? Boa noite, linda.

– Boa noite. Você ainda me deve um jantar. Coxinha não é janta.


Saindo do condomínio, virei a esquerda, passei por uma vala, e aproveitei que tinha reduzido a velocidade para mandar um áudio: “Estou indo aí, gente, tudo bem?”. Recebi um “OK” por texto, seguido de uma série inteligível de emojis que dizia—“corre, corre, coração, relógio, soon, duas mãozinhas, corre, sorriso, sorriso safado, sorriso safado, vergonha, zoeira”.

Depois eles me mandaram um áudio no qual eu percebi a voz da Luiza ao fundo “tá bom… é pra vir MESMO, Camilo!”.

Chegando ao sobrado meio escondido, avistei a sombra do Vinicius abrindo a porta, destravando o portão e sinalizando pra eu colocar o carro lá dentro. Descendo, ele me disse que tinha tomado cerveja demais, e que agora só iria beber água. A Luiza estava no banho.

A casa deles era de muito bom gosto. Na sala não havia praticamente nada, apenas um sofá branco de dois lugares, que era lindo apesar de pequeno. Na parede reconheci um Renoir, um criado mudo, abaixo, e um abajur bem bonito, que emitia luz branca na direção do quadro. No mais, o vazio era sutilmente iluminado pela luz do quarto acesa. O quadro pairava em destaque.

Nu Dans un Paysage, ca. 1887 — Oil on canvas

Segundos depois Luiza saiu do banho, passou pelo corredor de toalha, sorrindo, e ao encostar a porta o vapor de xampu ganhou impulso para invadir toda a sala. O cheiro era tão bom que me fez desabar no braço do sofá.

– Você é bem hétero né, Cmilo? (falam meu nome rápido assim, sem o “a”).

Infinito.

– Já se perguntou o porquê? Apanhou o copo de água e se sentou.

Sim sim, penso nisso sempre.

– Hmm. Por que então, ué?

Sei lá cara. Tendência mental de mais de dez anos com mulheres… e eu sempre tive sorte com mulher, também. Fico com cada mulher incrível, não sei nem como.

– Hahahaha. Legal.

E vocês?

– A gente é mais hétero, também.

Tendência mental?

Vinicius terminou de beber a água rapidamente.

– Não. Pragmatismo.


Luiza saiu do quarto com um pijama branco com pequenas estampas, quase transparente, com alças bem finas de renda azul. Fiquei um tempo pensando que ela tinha um corpo incrível, e que o pijama parecia mesmo bem confortável.

Ela estava com os cabelos um pouco molhados, e se sentou no centro do sofá, inclinando a cabeça para frente; as costas estavam a mostra.

– Vi, tem café?

– Não. Pensei que café essa hora te dava dor de cabeça. Disse o Vinicius meio surpreso.

– Nem sempre. Vou fazer, então. O Camilo gosta de café também. É bom pra tirar esse gosto de cerveja que não sai da boca. Eca.

– Deixa que eu faço. Descansa aí. Levantou-se.

Café é comigo mesmo. Quer ajuda? — disse por educação.

– Fica tranquilo.

Enquanto o Vini ia caminhando até a cozinha, Luiza chegou mais perto, alinhou o olhar com o meu e ficou ali me encarando. Eu sempre achei as mulheres mais lindas sem maquiagem, sabia?

Encabulado, desviei o olhar para o quadro, e, em seguida, para o criado mudo, onde avistei pela primeira vez uma câmera fotográfica.

Putz, eu queria comprar uma câmera dessas!

– Você gosta de fotografia? Aquele sorriso já invadia a minha mente.

Adoro. Já tirei umas fotos aí.

– Mentira!

Vou mentir pra quê, mulher?

– Pensei que você só tirava fotos no microscópio. Bah. Tive uma idéia!


Quando o Vinicius voltou com três mini-xícaras de café em uma travessa, ele me encontrou afundado no braço do sofá. Já a Luiza estava deitada, só de calcinha, com a cabeça no meu colo. O abajur estava agora voltado para o outro braço, e o criado mudo fora posicionado no centro da sala, servindo de suporte para a câmera.

Ele ficou encarando perplexo aquela cara de safada.

Eu tomei a iniciativa de afastar a cabeça da Luiza com cuidado, levantar, pegar uma xícara e sorver um gole. Café frio ninguém merece.

Muito bom, Vini. Obrigado. Pega o seu café Luiza, vai esfriar.

– Hmm, docinho hein?

Eu já ia me afastando em direção da câmera, Luiza matou o café em um gole só, pulou na minha direção e me deu um beijo macio, que foi ficando mais firme, e que eu poderia descrever mais como uma mordida no final. Depois disso ela apontou para a câmera, fazendo bico. Nós já tínhamos combinado tudo.

Eu recolhi as xícaras, e as coloquei com cuidado em cima do braço escuro do sofá, exatamente onde eu estava sentado antes, enquanto a Luiza arrancava as roupas do Vinicius, avançando nas mordidas conforme as roupas eram tiradas.

– Por que você faz isso comigo, Lu?

– Hahahaha, fica quieto, você está sendo filmado.

Eu entendo a Luiza. Sério. Entendo os desejos, a iniciativa e a sagacidade. Ela havia percebido que aquilo tudo era novidade pra mim, mas conseguiu estabelecer as regras do jogo de um jeito que eu também podia jogar. E eles agora tinham um elemento novo.

Quando ela começou a chupar o Vinicius com ele ainda em pé, eu tive de interrompê-los pela primeira vez. Bom, ela disse que eu poderia fazer isso quantas vezes eu quisesse.

Pedi pra que ele ficasse sentado no sofá, e acertei a luz de modo que eu pudesse gravar com a melhor qualidade. Luiza continuou. Ela não tinha largado do pau dele um só instante. Ela estava se divertindo.

No momento em que ele ia gozar, ela se afastou devagar, puxou o abajur para frente do sofá e pediu pra eu arrancar a calcinha dela. Essa foi uma parte do vídeo que poderia ter ficado melhor, porque apesar da luz ter ficado ótima, eu já tinha ajustado o foco na bunda da Luiza, e perdi um pouco da movimentação do Vini atrás.

Finalmente, ela montou no pau dele com vontade, e colocou as mãos dele onde ela queria. Só depois de uns 30 segundos, hipnotizado, eu consegui pedir pra eles escorregarem um pouco pra esquerda, onde a luz estava mais intensa. A Luiza virou para a câmera sorrindo, porque o braço do sofá estava atrapalhando a perna dela, forçando ela a mudar de posição.

Sinto muito. Eu é que estou dirigindo essa porra.

Por fim, ela ajeitou o joelho em cima do braço do sofá e a planta do pé do outro lado, e começou a meter bem forte, indo e voltando. O Vinicius tentava alcançar o cabelo dela, sem sucesso. Acabou controlando ela com uma mão na cintura e outra na nuca.

Nesse momento eu consegui alinhar as costas da Luiza à linha que divide o primeiro terço da imagem na vertical, e o primeiro terço horizontal à base do sofá. A imagem estava linda, perfeita. Muito melhor que todos aqueles vídeos em HD com legenda “passionate sex” no RedTube. As três xícaras de café apareciam fora de foco, no limite da imagem.

Isso! É isso!!!

– Isso, isso…vai. Goza! Goza! — replicou a Luiza. Arranhando os seios.

Olha, apesar de clichê, eu sempre achei desleal mulher falar essas coisas no meio da foda. Sou solidário ao Vini. Claro que foi demais pra ele, que gozou momentos depois, com aquela pressão absurda.


– Gravou tudo? Ela veio em minha direção, toda suada.

Acho que sim.

Cliquei no botão vermelho pra parar a gravação. Queria pegar ela vindo e sorrindo para a câmera no final.

Respirei fundo.

Luiza parou ao meu lado, se pendurando no meu pescoço. Passei a mão em torno de sua cintura, que escorregou com o suor até a bunda. Ela ficou me olhando por um tempo; um olhar único de satisfação.

O Vini, meio tonto, procurando a garrafa de água se aproximou enquanto assistíamos ao clipe no mini-display da câmera:

– Será que gravou com som?


Aos leitores — esse é o meu primeiro conto erótico. Se vocês quiserem ler outros, aconselho procurar pelos textos da Seane Melo, que domina o gênero. Para uma outra perspectiva sobre dating apps, indico o texto da minha amiga giovana. Saudações.