Reminiscências

Reminiscências que resistem ao mar — Foto por Annie Spratt

10 de Dezembro de 2013

Hoje pela manhã fui até o cartório para registrar uma procuração junto da minha mãe. O texto, as informações prestadas e as assinaturas eram de nossa autoria e responsabilidade. Por que então tivemos que ir até o cartório para fazê-lo? E ainda pagar por isso!? Reminiscências da colonização portuguesa; do tabelião ex-presidiário.

No rádio, o prefeito de Campinas alegava que assumira a prefeitura com débitos. Não discutiu as problemáticas que surgiam na entrevista, falou apenas do que supostamente já fez: dobrou ou triplicou alguns números, alterou algumas porcentagens, graças a deus. Reminiscências de uma política de favores, de um estado-igreja e de um ensino de matemática pré-histórico. Todos as instituições públicas tem débitos quando alguém as assume. Todos os políticos também. São suas reminiscências.

Em um grupo do Facebook um colega acusa o outro (que morava com ele) de supostamente ter roubado seus livros e estar vendendo-os na internet, enquanto ele está viajando. Faz e publica um panfleto com o título “Livros roubados — foto — não compre desses ladrões (que eram meus amigos)”.

Se os livros não foram roubados, então por que eles me bloqueariam no Facebook?”, defendeu-se o delator. Triste reminiscência de uma sociedade estúpida, na qual nenhum problema pode ser resolvido através do diálogo, associada a subcultura absurda e arrogante criada com a internet.

Finalmente, a tarde, na oficina do vidro do Instituto de Física me reencontrei com o texto “Reminiscências”, de J. Cícero, datado de 1980 — texto de comemoração do aniversário de 10 anos da mesma oficina — que iniciara suas atividades em um mar de terra, com uma Rural cor de abóbora e três homens cheios de vontade. A oficina está de pé, até hoje, pela vontade de outros três funcionários, e nada mais. Fruto das reminiscências do poder público.


13 de Abril de 2016

Precisei caçar esse texto na minha timeline, pois acabei de encontrar Roberto, um dos funcionários da vidraria, no Banco do Brasil. Ele usava chinelos, a velha camisa do Santos F.C. e tinha em mãos os papéis de sua aposentadoria, grampeados em uma GRU, a conta de telefone de uma de suas filhas para pagar e uma foto dele com dois amigos pescando. Ao me avistar, ele sorriu, mostrou a foto e agradeceu por eu ter reescrito o texto de J. Cícero, pois o anterior (digitado em 1980) estava ininteligível. Após nos despedirmos, Roberto me desejou sorte na vida e pediu para que eu fosse menos ansioso, afirmando, com um sorriso no rosto, que mesmo após 30 anos trabalhando, nada havia mudado por aqui.


27 de Abril de 2016

Hoje é um dia triste. Fiquei sabendo por meio de um conhecido que Roberto perdeu sua filha, de 22 anos, em um acidente de carro. Ela cursava Medicina e há mais de 10 anos não ia pescar com o pai. Dada sua recente aposentadoria, Roberto não teve a chance de levá-la para almoçar consigo. Reminiscências são suas cinzas, saudades e vontades.

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