Imagens por (Obrigado!)

Romance de aquarela

Camilo Salvador
Apr 12, 2016 · 7 min read

Quando finalmente terminei de organizar minha estante, eu estava ao lado de uma pilha de livros que eu nunca leria. Uma mistura aleatória de publicações meio-acabadas e meio-amadas. Encontros promissores que eu deixei para sempre esperando.

Eu decidi que iria vendê-los.


A garota do sebo me deu um número e me disse para esperar. Eles iriam checar os meus livros, ela disse, e então chamar por esse número.

Voltando-me às prateleiras, fitei diversos livros. Pensei em comprar alguns novos que eu sabia que não leria. Gastei meu tempo lendo títulos e adivinhando a trama antes de checar a sinopse.

Por fim, chamaram o meu número.


A garota tinha um recibo. Ela pediu minha identidade. Me fez assinar um papel e perguntou se o endereço estava correto.

“Eu encontrei estes em seus livros”, ela disse, “você gostaria de ficar com eles?”

Eu olhei para a pequena pilha de marcadores de página. Suspirei. Eles eram cartões postais. Um do Museu de Arte de Mori, um de Naoshima, outro do Museu Ghibli. Havia belos retratos de animais e paisagens. Uma coleção de memórias com mensagens rabiscadas no verso.

Cartas de amor.

Hmm, acho que sim,” eu disse.

“Ela parece ser uma garota legal.”

“Ela era.”

“Era?”

“Bom, você sabe como são as coisas.”

“E aquela ali?”

Ela apontou para um cartão postal com um padrão esquelético, espiralado. Odani Motohiko.

Eu sacudi a cabeça. Encolhi os ombros.

“Eu deveria ter acabado de escrever esse, depois de terminar o livro. Mas nunca consegui.”

“Você tem um jeito bonito de escrever,” ela disse.

Ah, obrigado.”

Ela assentiu, contou o dinheiro e pediu para que eu conferisse.

“Aqui estão seus 1.500 ienes,” ela disse.

Sempre caríssimos, porém nunca valendo muito de fato. Assim são nossas memórias, eu acho.

“Aqui está seu recibo”.

“Oh, está bem. Eu não preciso dele. Pode jogar fora.”

“Não,” ela disse. “Você precisa. Você precisa sim.”

Uh, tudo bem.”


No recibo havia um número de telefone, um endereço de e-mail, e um nome.

Akiko.


“Você escreve histórias. Deveria ter me dito.”

Encarei os livros na mesa. Me perguntei como ela os encontrou.

“Eu costumava escrever.”

“Eles são lindos.”

“Obrigado.”

“Eles são como cartas.”

“Bom, eles meio que eram cartas.”

“Eles são lindos.”

“Você já disse isso.”

“Você algum dia vai escrever um terceiro?”

“Posso escrever, talvez.”

“Você não vai?”

“Vou pensar sobre isso,” eu disse.

Do mesmo modo que eu sempre pensei sobre isso.


Nós passamos o inverno juntos. Fomos a Roppongi para ver as luzes de Natal. Ela grudou no meu braço e me arrastou pelos cantos. Foi a primeira vez dela, ela disse. Eu disse que foi a minha também. Eu fingi que não sabia o que fazer depois. Foi engraçado.

Nós fizemos o que os pobres amantes fazem em Tókio. Comemos em barracas de oden e em restaurantes de família. Em buracos na parede e izakayas do bairro. KFC no Natal. Ela ria das minhas piadas e me ensinava Japonês. Era revigorante ter uma pessoa olhando nos meus olhos enquanto eu falava. Ter a atenção completa de alguém. Era um sensação estranha, como retirar as roupas de inverno de uma caixa velha, e recuperar as memórias pelo cheiro.

Mas em alguns dias ela me olhava fixamente, ou através de mim, e não conseguia ao certo ajustar o foco do seu olhar.

Ela estava procurando por alguma coisa. E ela tinha certeza que estava lá, mas não conseguia encontrá-la.


“Você vai me escrever uma carta?”

“O quê?”

“Uma carta.”

“Você está bem aqui. Eu não preciso escrever”.

“Você escreve de um jeito diferente do que você fala”.

“Oh?”

“Eu quero conhecer o outro cara. Eu quero ouvir dele.”

“Oh.”

“Escreva pra mim.”

“Mas eu não tenho motivos. Você está aqui. Eu te vejo quase todos os dias”.


“Eu vou para Kobe,” ela disse.

“Oh?”

“Eu não sei por quanto tempo.”

“Mas você vai ligar, certo?”

“Não.”

“Não?”

“Eu não estarei com meu telefone. Eu perdi ele”.

“Você perdeu. Sei.”

“Sim.”

Ela colocou um pedaço de papel sobre a mesa.

“Aqui está o meu endereço,” ela disse. “Você pode me encontrar aqui.”

“Isso é um hotel. Eu posso ligar para o hotel?”

“Não.”

Me sentei por um momento. Tomei um gole de café. Aceitei.

“Tudo bem,” eu disse. “Eu entendo.”

“Obrigada”.


A Ito-ya tem uma vasta seleção de cartões. De parede a parede, para toda ocasião. Mas nenhum deles era o certo. Colorido demais. Blasé demais. Bonitinho demais. Muito brilhante. Muita falta de espontaneidade. Faltando algo inédito.

Havia anos que eu não comprava um cartão. Olhando para eles, segurando-os nas mãos, admirando o artesanato — era nostálgico, de algum modo. Revigorante.

Me trouxe memórias de mãos frias e invernos sob um cobertor kotatsu. De rabiscar longas cartas para uma garota que vivia muito longe. Da simples esperança de que ela poderia estar escrevendo também.

Eu avistei um cartão cheio de pequenos papais noéis reunidos em uma casa de banho local.

O coloquei em minha pequena cesta de compras.

E me perguntei o porquê de eu sempre ver essas memórias nostálgicas em terceira pessoa.


“Obrigada pelas cartas.”

“De nada. Você gostou delas?”

“Mais ou menos.”

“Mais ou menos?”

“Você está diferente agora.”

Eu inclinei minha cabeça.

“Você não escreve como antes,” ela disse.

“É provavelmente uma questão de estilo.”

“Você não escreveu para mim como escrevia para ela.”

“Vocês são pessoas diferentes.”

“O que aconteceu com ele? O que aconteceu com você?”

Como explicar que o cara que eu era há três anos atrás, e o cara que eu sou hoje, eram pessoas diferentes?

“Você a amava mais do que eu, não amava?”


Eu pensei sobre aquele comentário por um longo tempo. Era um fantasma — que parecia assombrar-me.

Eu nunca considerei o amor em termos de peso. Nunca o vi como algo que se coloca em uma balança, ao lado do amor passado, ou caso passado, para mensurar e comparar.

Eu pensava no amor como misturar tintas aquarela. Como molhar o pincel na água, escolher uma cor, e misturá-la com outra. O tom resultante não era algo facilmente comparável. Os elementos de base eram diferentes — naturalmente, também os resultados. Se um tom era melhor do que o outro, era apenas uma questão de preferência pessoal.

O amor, então, seria a imagem que duas pessoas pintaram usando as cores que elas haviam misturado. Se a imagem era bonita, ou sem-graça, ou feia — quem poderia realmente dizer?

A arte é mutável assim.

Mas eu sabia que se eu tentasse dizer tudo isso cara-a-cara, eu teria estragado tudo.

Então escrevi no verso de um cartão postal. Em uma obra de Alphonse Mucha.

E enviei pelos correios.


“Eu li novamente.”

“Leu o quê?”

“O seu livro. O primeiro.”

“Oh.”

“Têm um anseio nele. Um desejo. Uma paixão.”

Eu confirmei.

“Acho que era aquilo que eu queria. Você ainda tem esses anseios?”

Eu neguei. Eu não achava que tinha.

Com cada experiência em nossas vidas, nós mudamos. Ao longo do tempo, nós nos tornamos pessoas diferentes. Talvez com a idade, algumas partes de nós se tornem doces e brandas, enquanto outras endureçam e se cristalizem. A alma muda de forma para unir-se ao seu ambiente.

Ou talvez cada vez que nos queimamos, nos cortamos ou nos machucamos, nós simplesmente aprendamos a evitar o perigo.

Físico, mental, romântico, ou outro qualquer.

“Está bem,” ela disse. “Eu não posso esperar que você seja quem você era no passado. Eu não deveria. E não vou”.

Ela deu uma olhada no cartão-postal com a pintura de Mucha.

“É tão bonito,” ela disse. “É o meu tesouro.”

Eu a puxei para perto, e a beijei na testa.

“Nós vamos pintar o nosso quadro,” eu disse.

Que bobo.

Porém ela fixou-se em mim, e então eu vi foco em seu olhar.

Ela havia procurado por isso. Por algo que ela sabia que certamente estava lá.

E ela havia encontrado.


Eu me sentei com uma caneta e papel, e escrevi. As palavras e frases eram desordenadas, longas, e imprecisas, mas elas eram minhas. Elas vinham do coração. Eram boas.

Fazia bastante tempo. Escrever daquela maneira. Escrever com o fluxo. Foi como dar de cara com um velho amigo que você pensou que nunca mais veria. Cair em uma conversa antiga.

Visitar os velhos tempos.

Talvez nós não mudemos tanto afinal de contas, eu pensei.

Somos todos almas que não querem se machucar novamente.

Eu coloquei aquela carta em um ótimo envelope, e a enviei pelos correios.

Porém eu nunca mais vi Akiko novamente.


A carta havia retornado. Sem ser aberta.

O apartamento de Akiko estava vazio. Ela havia se mudado. O proprietátio do apartamento não sabia de nada. A livraria disse que ela havia pedido demissão. O hotel em Kobe não deu reposta. O seu telefone havia sido desligado. Ela não respondeu aos e-mails.

Eu nunca conheci seus amigos. Eu nunca conheci sua família. Nunca pensei muito sobre isso. Eu gostava do fato de que o tempo que passavamos juntos era exclusivamente nosso.

Ela era um universo em miniatura. Minha fuga do mundo.

E agora ela tinha ido embora.


Eu escrevi uma carta por semana. Escrevia em cartões postais comprados nas minhas viagens. Cafés, museus, galerias de arte, pontos turísticos — qualquer coisa que me chamasse atenção.

Havia um fluxo e espontaneidade nelas, naquelas cartas. Parecia natural escrevê-las.

Nelas havia honestidade, amor e alegria.

E por trás delas, uma singela alma solitária. Uma alma que esperava que algum dia haveria um endereço para enviar aquelas cartas. Uma pessoa para lê-las.

E cores frescas para misturar, para usar em um quadro novo em folha.

Mas até assim, pintando comigo mesmo, eu encontrei material suficiente para o terceiro livro que eu achei que nunca escreveria.

E se isso é bom, ruim, belo ou triste, bem… quem poderá dizer?

Eu simplesmente gosto de sua cor.



Do original , escrito por

Tradução e adaptação por Camilo Salvador


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