Inovações jornalísticas e tecnológicas no cibermundo: O Podcast

A popularidade dos podcasts aumenta gradativamente a cada ano, tanto que diversos aplicativos que hospedam essa mídia começaram a surgir e se proliferar na AppleStore e PlayStore. Uma das novidades é o app Anchor, que auxilia a criação de podcasts e facilita a divulgação de muitos programas podcast por aí | CRÉDITOS: Carolina Rodrigues

A internet dispõe de um enorme sítio pouco explorado pelos meios brasileiros: tanto TV, rádio e impresso mergulham pouco a pouco avante à imensidão de bits do ciberespaço. De fato, ao decorrer das décadas, o jornalismo precisa se adaptar a sociedade e seus avanços, por isso, hoje não pode ser diferente. Uma pesquisa feita pela agência Prótons, especializada em publicidade para podcasts, diz que 98,8% dos ouvintes do programa analisado, SciCast, se informam pela internet, enquanto 0,4% acompanham as notícias na televisão e 0,7% por meios impressos. Num cenário geral, as porcentagens não são tão diferentes assim, se avaliado por qual canal as pessoas mais buscam informações. Conforme o impresso perde gradativamente o seu espaço nas ruas, a televisão mantém seu papel de melhor companheira dos brasileiros e a internet conquista espaço entre os principais veículos de comunicação e informação. O jornalismo precisa se reinventar.

“O jornalismo não muda, independente da plataforma em que você colocar ele. Os preceitos básicos são mantidos, acontece apenas uma adequação nas formas de entregar o conteúdo”, Carlos Aros, jornalista da rádio Jovem Pan afirma em entrevista. De acordo com ele, os conceitos fundamentais sobre ética e critérios de noticiabilidade, por exemplo, ainda são mantidos enquanto os jornalistas procuram novas formas e plataformas para atrair o público. O cenário atual, exposto brevemente no parágrafo anterior, nos mostra que já é possível mergulhar um pouco mais. Os meios jornalísticos estão prontos para sentirem os bits abraçarem pelo menos metade de seu corpo.

O jornalismo (online) no Brasil

Estamos enfrentando uma pequena crise.

Em 2016, o Ibope revela a falência do impresso diário: apenas 8% da população lê jornal todos os dias. Esse veículo, antes considerado a principal fonte de informação do leitor, abandona aos poucos esse papel, substituído pela internet. E, é lá que outra crise se instala: a falta de credibilidade dada pela disseminação de fake news. O compartilhamento de notícias falaciosas nas redes sociais já se tornou hábito, o Monitor do Debate Político no Meio Digital, projeto feito pela Universidade de São Paulo, que analisa a distribuição de notícias políticas, mostrou a propulsão que dois boatos tiveram em redes sociais. Uma das fake news foi divulgada pelo G1 e teve mais de 14 mil compartilhamentos; a mesma, postada pela Veja teve dez mil compartilhamentos e chegou a 5 mil quando postada pela Exame.

Diferente do que se fazia antigamente, a globalização exige informações rápidas e uma maior produção, por isso, às vezes, não é possível verificar as informações da forma correta.

Mas, isso não quer dizer que o meio digital é feito apenas de boatos. Grandes veículos jornalísticos impõem seu poder e disseminam suas ideias com a tecnologia que lhes é proporcionada. A migração do impresso para o online não acontece apenas com a transcrição de textos de um meio para o outro.

De acordo com Gustavo Lopes Alves, jornalista do Estadão, os veículos passam por uma fase de entendimento, como funcionam as plataformas e as redes sociais, para que assim possam produzir produtos específicos. O Estadão, nessa onda de adaptação à internet, começou a investir em projetos que visam o novo perfil do público. No Facebook, por exemplo, o jornal investe em lives com menos de meia hora, um conteúdo que agrada os leitores, assim como os recém-lançados podcasts.

Para ouvir a entrevista completa com o jornalista do grupo Estadão Gustavo Alves, clique no play!

Esse processo de transformação recupera certas características provindas dos primeiros jornais lançados no Brasil, como a recuperação da relevância dada as opiniões. As pessoas gostam de ouvir opiniões. É como aconteceu com a Gazeta do Povo: o formato rádio news foi modificado a partir do momento em que o veículo vem para a internet e, por conseguinte, nomes de peso participam dos programas para opinar sobre determinados assuntos, como explica Aros.

Após a análise, tanto da internet quanto dos internautas, são feitos testes. Lives e podcasts são testes que, no caso, deram muito certo. É com essas ferramentas que os jornais trazem mais notícias, debates e explicações sobre diversos temas importantes para a sociedade.

Serial deu início a nova era de ouro do rádio. A imagem foi retirada de um quiz relacionado ao próprio podcast: “Você realmente é expert no podcast Serial?”, do Playbuzz | CRÉDITOS: Playbuzz

A nova era de ouro do rádio

Tudo começou com o Serial em 2014. Quando o suspense criminal tomou conta dos corações norte-americanos, novos podcasts começaram a surgir e se disseminar pelos Estados Unidos — e pelo mundo a fora. Devido ao seu sucesso, o podcast criminal foi o marco da nova era de ouro do rádio.

Serial conta a história real sobre o assassinato de Hae Min Lee em Baltimore, no ano de 1999. O acusado é Adnan Syed, o ex-namorado da garota, que diz ser inocente; mas que mesmo assim, foi condenado a prisão perpétua. Após o trabalho falho da advogada de defesa e o depoimento de um “amigo” contra Adnan, a justiça chegou à conclusão de que se tratava de um crime passional, pois o jovem não conseguira superar o fim de seu relacionamento com Hae. Mas… Ao decorrer do programa, advérbios adversativos tomam conta da mente, várias teorias são formuladas, enquanto o ouvinte se pergunta se a justiça realmente fez a coisa certa. Ele se torna um misto de Annelise Keating e Sherlock Holmes.

O podcast Serial, no mesmo ano de lançamento, chegou a 3,4 milhões de downloads por episódio, uma estimativa de 40 milhões de downloads até dezembro. Hoje, sites como GooglePlay, Amazon, ESPN e muitos outros bebem da mesma fonte e aproveitam os resultados. Estima-se que neste ano haja um aumento de 85% em publicidade se comparado ao ano passado; um investimento que chega a U$220 milhões. Sem contar que 24% dos americanos ouvem algum podcast por mês, em sua maioria cerca de 5 semanalmente. Além do aumento gradativo de ouvintes ao passar dos anos, o Libsyn, maior serviço de hospedagem norte-americano, mostra que em 2015, 28 mil podcasts foram lançados em 2015, tendo cerca de 3 bilhões de downloads no mesmo ano.

Logo na entrada do site Serial você escolhe se quer ouvir a primeira ou a segunda temporada. Dentro de cada uma, os episódios são divididos em capítulos, agregando textos, imagens e provas para maior imersão do leitor | CLIQUE NA IMAGEM PARA OUVIR O PRIMEIRO EPISÓDIO NO SITE DO SERIAL

Foi com o Serial que uma sucessão de fatores contribuíram para a melhora de compartilhamento e sucesso dos podcasts, que hoje se espalham pelos Estados Unidos quase como uma gripe, assim como aconteceu nos anos 30, com a disseminação do rádio, quando 2 de 3 casas tinham um rádio que fornecia 4 redes nacionais e vinte regionais, 24 horas por dia. O verdadeiro boom se deu pós-guerra, com a rádiofusão, quando em 1946, 63% da população considerava o rádio como principal fonte de notícias e 40 milhões de americanos tinham um rádio em casa. Será que os Estados Unidos já passa pela “podcastfusão”?

Blumberg, apresentador do podcast “StartUp”, diz em entrevista ao New York Magazine que a partir do momento em que o áudio adotou o formato on-demand, as pessoas voltaram a acessá-lo, já que podem ouvir os programas ao mesmo tempo em que realizam suas tarefas.

Todo mês, um quarto dos americanos (24%) ouve algum podcast e a expectativa é que a cada ano esse público cresça mais. A partir do momento em que a maior parte da população tem um celular com a possibilidade de baixar um podcast, tanto por aplicativos já embutidos no aparelho quanto por outros que podem ser baixados gratuitamente, a sua proliferação se torna muito mais fácil.

Storytelling x Roda de conversa

O papel do jornalista, hoje, é a checagem dos fatos. O podcast, como um meio que exige pesquisas para a realização de um bom programa, é marcado pela necessidade de apuração e junção de todos os detalhes sobre o caso estudado, afim de esgotar o conteúdo ao máximo. Podcast virou sinônimo de reportagem bem-feita, sendo relevante, interessante e agregadora de sentido para alguém. A base de produção é a mesma aqui e nos Estados Unidos. Além da diferença de “épocas” em que o podcast vive, outra disparidade é como se dá a narração do programa.

O Serial fez sucesso nos Estados Unidos com a sua narração storytelling, modelo similar ao dos rádios antigos. A narração, na tradução ao pé da letra, “contando uma história” associada a exposição dos fatos e ambientação, transformou o modelo no eixo central de inspiração para podcasts posteriores, como o Radiolab, 99% Invisible, UnFictional e muitos outros. Nesse modelo, é feito uma espécie de roteiro o qual organiza cada podcast como capítulos de uma série.

Aqui no Brasil foi diferente. Nosso modelo-base são as rodas de conversa, derivadas dos primeiros podcasts lançados: Digital Minds, Nerdcast e Rapaduracast. Amigos, especialistas, professores, teóricos se reúnem de forma casual para conversarem sobre os mais diversos temas, desde entretenimento até saúde — de acordo com pesquisas, essas reuniões totalizam cerca de 1200 podcasts produzidos aqui no Brasil. Cada um deles aborda um tema diferente e atual, mostrando muitas vezes a pluralidade de opiniões entre os narradores. “Quando é só bate papo, com pouco argumento e muita opinião deixa de ser jornalismo e passa a ser entretenimento”, Thiago Barbosa, radialista da CBN, comenta durante entrevista.

Diversos jornais brasileiros estão adotando o modelo de roda de conversa, ou se não, há quem apenas siga o modelo derivado do rádio, da exposição de notícias, só que neste caso, da forma mais agregadora possível.

Afinal, podcast serve para quê: Analisando três veículos

Podcast pode ser a reunião de qualquer tema, desde que este seja explorado até a última gota. Com o jornalismo não é diferente. Diversos podcasts são jornalísticos em plataformas independentes e muitos meios jornalísticos também estão aproveitando o momento para criar os seus próprios podcasts. Como já foi citado, o Estadão se encaixa na segunda categoria. Ele e outros sites jornalísticos como CBN e Jovem Pan investem nessa “nova” tecnologia.

Sobre os podcasts do Estadão, Gustavo Lopes afirma que nenhum deles ultrapassa uma hora de transmissão, porque as pessoas querem a informação de forma rápida. Lá, o objetivo não é fazer um podcast factual, mas uma análise mais analítica, para que qualquer um possa ouvir quando quiser, sem que o conteúdo perca perder seu valor em relação ao tempo; o conteúdo não pode ser velho ou com data de validade, porque nunca se sabe quando o público irá consumi-lo. A postagem de podcast começou em março de 2017 e foram mais de 200 mil downloads por mês.

Na CBN não é muito diferente. Segundo Thiago Barbosa, nesse meio eles acreditam “na possibilidade de proporcionar mais e melhor conteúdo aos nossos ouvintes. Com esse diferencial, nós conseguiremos atingir um número maior de pessoas, não só as que ouvem a CBN”.

Os primeiros resultados são muito positivos.

Alguns programas do rádio são reempacotados e incluídos na programação de podcasts, totalizando 120 programas. Essa troca do conteúdo da rádio para o podcast, e também vice-versa, aumenta o universo de pessoas atingidas, resultado de uma troca de favores entre esses dois veículos. O radialista diz que o crescimento dos podcasts no Brasil dentro do jornalismo é possível, mas ainda não é muito viável.

Para ouvir a entrevista completa com o radialista Thiago Barbosa, clique no play!

Para a Jovem Pan a filosofia é a seguinte: ser cada vez mais multiplataforma. Há podcasts que vieram dos programas de rádio e o motivo principal é porque as pessoas procuram e pedem. Às vezes, por conta do tempo ou imprevistos não é possível ouvir determinado programa no rádio, então a sua passagem para o digital dá a possibilidade ao ouvinte de ter acesso quando quiser. Para Carlos Aros, esse é o momento certo para se experimentar o podcast, mas como ele mesmo disse em entrevista, é bom ter cuidado conforme seu investimento, porque certas vezes aquele ditado popular se aplica a experimentações, que podem dar certo assim como podem dar errado. “Quanto maior o pulo, maior a queda”.


A linguagem inovadora que o podcast carrega pode ser a chave para atrair todos os públicos. Conteúdos bem aprofundados e explicados, além da contínua interatividade do leitor com o podcaster são características fundamentais que começam a moldar a nova forma de entregar jornalismo a sociedade. Todos os jornalistas entrevistados concordam que essa é a hora de arriscar e ver do que o público gosta. Os podcasts tem futuro sim, o importante agora é começar a investir.