Loja de Conveniência

Escuridão total.

Aos poucos as imagens saíam da toca de minhas pálpebras preguiçosas. Uma porta enorme de madeira se mostrava imponentemente deitada, e ao discernir sua imagem minha bochecha direita foi apalpada por uma quentura macia. Um carpete. Estava deitado em cima de meu braço direito, as pernas meio flexionadas.

Mesmo já acordado, permaneci deitado e imóvel por alguns instantes. Em que porra de lugar que eu estou?

Finalmente, decidi que seria melhor levantar. A contragosto, depositei meu peso primeiro sobre os joelhos, e com o impulso da minha mão em minhas pernas coloquei-me em pé em alguns segundos. A vertigem me atacou de cara. Só no momento em que minha mão procurou minha têmpora dolorida é que senti o frio. O metal gelado. Eu estava segurando uma pistola calibre .38.

Balbuciando algumas coisas sem sentido, olhei em volta. O lugar era enorme, com um teto extremamente alto e com alguns móveis grandes de carvalho. Percebi, então, três grandes vidraças e, acima delas, um painel eletrônico no qual o número “091” aparecia e se escondia em flashes vermelhos acima de letras brancas que formavam a palavra “Senha”. Uma mulher pequena, de ralos cabelos castanhos e usando um uniformezinho ridículo parecia fazer parte do resto da mobília, imóvel e com olhos arregalados acima de narinas dilatadas.

Eu estou num banco.

Aproximei-me do caixa por trás do qual se escondia a miúda e pávida atendente. Assim que levantei minha mão esquerda para dar uns toques no vidro e perguntar se estava tudo bem, a mulher levantou os dois braços bruscamente. Percebi que ela começava a tremer e não me olhava nos olhos; apenas permanecia lá, com os brincos dançando por baixo de suas orelhas e com as mãos na altura do rosto, numa espécie de candelabro humano.

Antes de tentar dizer alguma coisa, virei-me e foi aí que os notei. Um amontoado de gente, 10 ou 15 pessoas, todas sentadas na extremidade esquerda do banco, com as mãos para trás e fitas adesivas apertando-lhes a boca.

Meus olhos percorreram mais uma vez a calibre .38 em minha mão direita e meus neurônios afoitos deram ao meu cérebro a genial conclusão: eu estava assaltando um banco.

Não tive muito tempo para assimilar essa bela informação porque um velho saiu correndo em direção à porta de madeira, ao som de gritos abafados que tentavam escapar da fita adesiva.

Depois do estrondo, o velho foi tropeçando até cair totalmente de barriga pra baixo. Um cheiro de queimado começou a impregnar o lugar e pude notar a semelhança entre a fumaça que saía da ruína vermelha que era sua camisa e a que saía da ponta de metal agora firme em minha mão esquerda, no fim de meu braço estendido.

Não sei se foram as toxinas da fumaça, mas nesse momento finalmente adentrou às portas da minha mente o seguinte pensamento: “Já que eu estou aqui, mesmo…”

- Ninguém se mexe ou eu mato um por um nessa porra! — Murmúrios asfixiados por fita adesiva formaram a trilha sonora enquanto eu chegava, a passos largos, no caixa em que a atendente de uniforme ridículo estava. Batendo com força no vidro que nos separava, urrei e ignorei o gritinho de susto dela: — Cadê a merda do dinheiro?!

Imagino que você esteja desejando, ansiando, que eu me lembre do porquê de estar aqui assaltando um banco. Sim, você precisa de uma explicação. De um anestésico moral. De uma bela, quente e úmida esporrada branca vinda direto de sua alma puritana e civilizada, para tranquilizar sua consciência. Para poder ligar a chave à fechadura e suspirar aliviado porque a moral e a lógica permanecem intactos.

Você precisa do conforto de saber que eu só estou aqui assaltando um banco porque sou um ser desprezível, repugnante, fora dos conformes éticos. Sinto lhe informar, mas nem eu sei porque estou aqui.

Será que sou um ladrãozinho patético com problemas de sono ou um louco que tem apagões constantes?

A questão é: que diferença faz?

Eu vou te dizer o que sou: sou um cara com muitas contas e um emprego de merda que me faz querer juntar, pouco a pouco, pedacinhos de papel com os rostos de presidentes estampados. A questão é: se você colocar uma pessoa com uma arma dentro de um enorme bloco de cimento cheio de dinheiro e com várias outras pessoas amarradas e impotentes, num momento ou no outro ela vai querer o dinheiro.

Sim, porque a brutalidade nada em nossas veias. A selvageria é intrínseca, inerente. Sinto lhe informar, mas a civilidade é uma corrente mentirosa, colocada nas mãos de humanos igualmente bárbaros. Lobos nas peles de ovelhas refreando lobos que acreditam serem ovelhas.

Enquanto a patética e mirrada atendente separa grandes montes de dinheiro, dou passos pesados em direção à porta, tomando o cuidado de passar meu pé direito por cima do cadáver velho.

Por de trás do grosso vidro que recobre parte da porta de madeira, enxergo uma movimentada avenida. Do outro lado, uma criança toma sorvete num posto de gasolina, na frente de uma pequena loja na qual se percebe um grande letreiro que forma a palavra “Conveniência”.

Desato-me a gargalhar, imaginando que Deus deve ser um sádico entediado que criou a ironia só para rir às custas da desgraça de suas criações.

Volto-me e novamente desvio do cadáver velho que começa a feder, mas depois de cinco passos curtos ouço um estridente barulho de sirenes. A miúda atendente havia acionado o alarme de segurança escondido embaixo da mesa do caixa, provavelmente enquanto eu ainda dormia.

Assim que a porta foi pisada e arrombada por coturnos militares bem engraxados, virei-me ainda com a arma em punho. Antes de girar meu corpo completamente, pude sentir dilacerações no meu abdômen. Enquanto caía para trás, só consegui perceber flashes e densos respingos vermelhos, em meio à balbúrdia de gritos e tiros.

A porta foi se mesclando ao teto e tudo se transformou numa mancha rápida em curva, quando finalmente minhas costas encontraram o macio do carpete. O mesmo carpete em que acordei. O carpete que meu sangue quente agora invadia.

No final, a escuridão voltou.

*******************************************************************Da escuridão, novamente a luz. Dessa vez, não um carpete; um gramado. Minha bochecha se umedece com a grama, e minhas narinas acomodam uma fragrância peculiar de terra molhada.

Eu estou num jardim.

Dessa vez, reconheço: o jardim de minha casa.

Levanto mais rapidamente e sinto, novamente, algo na minha mão direita. Um formato em L, plástico, amarelo e laranja; uma pistola d’água.

Dessa vez, logo vejo alguém. Meu filho, com a camisa encharcada e desenhando na pequena boca um riso com falta de alguns dentes.

Puts, não foi dessa vez que ganhei uns trocados a mais.