A bula

A noite jazia lenta na ensaiada. Eu era um atendente, um daqueles moleques que as empresas contratam mesmo sem experiência ora ter algum faz tudo por um preço barato. Todo mundo tem que começar de algum lugar, dizia o popular.

Atender clientes, operar o caixa, guardar mercadoria e limpar a farmácia; essa era a minha função.

Eu que nunca tive um otimismo prévio, culpa parcial da literatura bukowskiana e pelas músicas da cena underground, nesse emprego eu realmente comecei a conhecer algumas das responsabilidades da vida, e o quão pouco eu me importava com elas.

Eu gostava de testar coisas, sempre tive uma curiosidade estranhamente apta dentro de mim, mas nunca explorei muito isso. Talvez por falta de tempo, ocupado sempre com muito pensamento pelo nada.

Certo dia, eu estava a limpar a ala dos remédios, sessão que eu só poderia entrar ali se fosse para limpar, porque farmacêutico é farmacêutico e não merece limpar loja.

Comecei a pensar o que aconteceria se, por um acaso, eu tomasse todos aqueles remédios de uma só vez. Quanto tempo demorariam para perceber? Eu morreria? Seria considerado um suicídio ou estupidez? Talvez os dois. A empresa pagaria o seguro de vida aos meus pais ou usaria o dinheiro para cobrir os gastos que eu dara? Será que alguém já tentou? Parecia uma proposta interessante.

De súbito, comecei a rir incessantemente.

Que foi cara, aconteceu alguma coisa? — Perguntou o farmacêutico.

Nada não, a vida consegue ser bem sarcástica com você as vezes — respondi, com um tom anedótico.

Se eu morrese com aqueles remédios, a última coisa que ficaria viva por um tempo depois do óbito era meu pau. Eu estava na sessão dos Viagras.

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