A desfutebolização da política

É gol de um lado. É falta do outro. É pedido de cartão pra todo lado. O que nos falta perceber é que de um lado estamos todos nós, do outro, está nosso ego.

Caio Blumer
Oct 29, 2018 · 3 min read

Como já diria o glorioso Rubem Alves em um dos seus incríveis textos: "A gente assiste futebol para a indescritível felicidade de ferrar o adversário (…)" e compara, sabiamente, o time perdedor com o Tom, de Tom & Jerry, que sempre se ferra, mas volta são e salvo no final.

Somos um país apaixonado e culturalmente ligado ao futebol. Eu que nem sou tanto assim já me peguei diversas vezes fazendo analogias futebolísticas sobre filosofia, sobre vida, sobre coaching, sobre o mundo.

Mas acho que atingimos um limite da futebolização nacional.
Futebolizamos até a política.

A questão é que, quando falamos em comunidade, estamos todos jogando juntos. Juntos com quem governa.

Eleitos e oposição, inclusive, jogam pelo mesmo resultado comum. Ou, pelo menos, deveriam jogar.

Mas, ao contrário, o que a gente vê é que um lado faz um gol e o outro torce pra alguém lá quebrar a perna. E, por mais divertido que seja sentimento de brincar tirando sarro do amigo que perdeu o jogo, você sabe que não há mal ali. O time volta semana que vem. Você não torce para alguém quebrar uma perna e o time nunca mais voltar.

Me parece que levamos o clubismo ao extremo do exagero.

Somos todos atacantes e defensores em busca de um mesmo troféu: um país melhor para todos, de forma empática, de forma justa não pra mim, nem pra você, mas para todos os lados.

A oposição — e nós também — temos o dever de cobrar os resultados. De fiscalizar se a galera tá indo pra concentração, treinos e jogos de forma honesta, correta, justa e pensando no troféu para todos.

No entanto, de forma alguma temos o direito de travar o jogo, de rasgar o uniforme, de esconder a bola para que o meio-campo, que não era nosso favorito, não jogue, para que o país não tenha a chance de marcar gols, de crescer, de ser mais justo e mais feliz.

Futebol é futebol. Tom & Jerry é Tom & Jerry. Nesses casos, o time perde, amanhã joga de novo e a piada pode estar em você e não mais no coleguinha. E tudo bem, é diversão.

Quando falamos do nosso país, se você perder, eu perco também. É melhor a gente lembrar que todo mundo veste o mesmo uniforme, senta do mesmo lado da arquibancada e está do mesmo lado do campo, porque só juntos, faremos um resultado melhor.

Por aqui eu vou torcer e jogar com paz, com amor, com força de vontade, mas sempre com carinho por quem pensa diferente, porque é na diferença que a gente cria, e é assim que aquelas jogadas gostosas nascem, onde até o adversário para pra aplaudir.

Quem sabe, se todos jogarmos juntos e direitinho, quando os 90 minutos baterem no relógio, assim que o árbitro erguer o braço e apitar, juntos vamos comemorar.

Caio Blumer

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Inteligência de Conteúdo na Eureca (@eurecame). Eu escrevo para aprender e aprendo para escrever.

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