Era uma quarta-feira de cinzas. Eu devia ter uns 6 anos de idade e estava muito doente, sentindo fraqueza e meio amoado. Nesse dia minha mãe fez uma coisa que talvez ela mesma não se lembre, mas que eu jamais iria esquecer.

Ela veio com uma folha de caderno pequena, um lápis e um pratinho duralex me dizendo “Filho, escreve aqui tudo o que tá te deixando triste, tudo o que você quer que vá embora.” E foi rasgando alguns pedacinhos da folha e me dando enquanto eu escrevia com aquela letrinha toda torta, minhas pequenas mazelas. E cada papelzinho foi dobrado e colocado no pratinho.

Quando terminei, fomos até a janela. Estava um dia como hoje, meio cinzento, meio “melado” de chuva e um ventinho frio. Ela pegou uma caixinha de fósforo e acendendo um palito me disse: “Agora a gente vai queimar essas coisas ruins e o vento vai levar tudo embora. Na quarta-feira de cinzas isso acontece, tá bom?”

Eu ali empolgado – porque sempre gostei do fogo – senti uma alegria e um alívio enorme vendo os pedaços de papel queimados, que ao ficarem menores e mais leves, eram levados pelo vento até desaparecerem completamente.