Porque estamos nos debatendo? De onde vêm os desconfortos consigo mesmo e com o mundo ao nosso redor?

As pessoas estão sofrendo, lendo mil livros de autoajuda, buscando autoconhecimento, fazendo anos de terapia, coaching, tomando remédios, e mal estão entendendo o contexto em que vivem ou percebendo a que estímulos estão respondendo. Estão no “lodo”, estão achando ruim, mas também não estão entendendo nada.

Autopressão, autocobrança, ansiedade, comparações, baixa autoestima, necessidade de ser elogiado ou afagado — sem falar em processos depressivos, suicídio — e o sofrimento é tão crônico, o estado de desconforto é tão ostensivo que ainda chamam isso de “batalha diária”.

Longe de querer fazer uma “narrativa épica” da minha curta trajetória — na verdade, bem o contrário disso — queria mostrar quantas escolhas ruins eu fiz até me dar conta de algumas coisas muito importantes.

Quem sabe dividindo um pouco da minha história em conjunto com a história da sociedade em que vivemos, não abrimos aqui uma reflexão e quem sabe até um ponto de partida para uma nova visão sobre os seus sentimentos e o mundo em que você está inserido?

Aos 19 eu cantava e tocava guitarra numa banda e estava largando a faculdade de Biologia para fazer Artes Plásticas. Fui parar na Publicidade quase por acaso, movido basicamente — e sem me dar conta— pelo desejo de criar, de expressar minhas ideias e de ter uma carreira que me “rendesse uma grana”. Trabalhei mais de 15 anos em agências de publicidade como criativo, a música virou hobby e há quase 5 anos a fotografia de família e lifestyle tem sido a minha voz. Foi ela que me aproximou das pessoas de uma maneira diferente, mais verdadeira, me aproximou de mim mesmo, abriu meus olhos e aos poucos me transformou.

Quando comecei na Publicidade eu era um garoto que se envaidecia com as próprias ideias, que queria “colocar campanha na rua” e lutava para fazer valer a própria opinião. Eu competia para emplacar ideia, competia pelo layout mais bacana, competia comigo mesmo e até com quem nem estava competindo comigo.

Percebi o quanto aquela atitude não tinha sentido e passei a adotar uma nova postura dentro da profissão. E bem verdade, tive pouco espaço para exercer a colaboração num ambiente onde a maioria esmagadora estava precisando “fazer o seu”. Mudei de agência, precisei me reinventar umas três vezes e, num processo lento, comecei a me desalinhar, minha produção caiu, tomei “enquadro” do chefe.

A fotografia me parecia cada vez mais um lugar onde meus valores faziam mais sentido, e quanto mais eu me entregava a ela, mais ela me entregava coisas verdadeiramente relevantes. Nem tudo são flores — aliás, longe disso — , mas, desde então, tendo vivido tantas coisas diferentes, conhecido tanta gente, tantas opiniões, valores, tenho lido mais e mergulhado na espiritualidade, na ciência e principalmente nas minhas dores, pelas quais passei a questionar “meu papel no mundo” até aqui.

Não estou falando sobre “crise existencial” ou sobre “o propósito da minha vida”… mas sobre algo que realmente me produz sentido, que é alinhar meu trabalho a uma contribuição positiva para os outros enquanto eu estiver nesse mundo. E, claro, aos exemplos que quero deixar quando eu partir.

Fazendo essa avaliação, confesso que chego a ficar constrangido com o tamanho da minha ingenuidade e por quanto tempo permaneci num estado de dormência, sem me dar conta de que até as minhas escolhas eram manipuladas num sistema armado para desde sempre me fazer consumir, competir, para olhar o outro como rival, e que eu, como publicitário, ainda fomentava tudo isso com a minha criatividade. Tudo bem, eu tinha vinte e poucos anos. (Como tudo bem?)

Lembro que quando me tornei diretor de arte aos 24 anos, eu já criticava ferrenhamente aquela meninada com menos de 20 anos entrando no mercado de trabalho, competindo comigo por vaga e ainda querendo qualidade de vida. Eu não tinha percorrido nada do caminho ainda, mas já esbravejava mentalmente coisas como “Vai ralar, garoto! Vai comer uns anos de grama como eu comi pra chegar aqui.”

Era normal a gente passar pelo estágio de “assistente-pau-pra-toda-obra-que-virava-noite-pra-fazer-campanha-pra-prêmio-pra-ser-alguma-coisa-lá-na-frente” antes de conseguir um lugar ao sol.

Ou, ainda, “Pô, nem começou a aprender o ofício e já quer ter final de semana livre? Salário? Que folgado, mal chegou e já quer sentar na janelinha?”

Esse era eu, condicionado, já ditando o que era certo e o que era errado, repassando e reforçando sem questionar o que me foi passado: “que não se tem direito de exigir qualidade de vida tão novo”, “que se sujeitar é um investimento”, “que pra ser diretor de arte é assim mesmo, faz parte”.

Por que demoramos tanto para nos dar conta dos condicionamentos que foram plantados na nossa mente desde o início da nossa criação?

É triste, mas na verdade a maioria das pessoas nunca chega a se dar conta. 
A “arapuca” é antiga é muito bem armada.

Em contrapartida, todos os dias me deparo com mais e mais pessoas que perceberam muito antes o valor do próprio tempo, de estar mais com a família e até do amor próprio. Pessoas muito mais jovens do que eu era e que perceberam que satisfação — ou “ser bem-sucedido”, como se diz — não é ter uma casa própria num bairro bacana, nem carro novo, nem roupinha estilosa e nem “mandar bem na profissão”. Perceberam de verdade que dinheiro é importante, sim, mas não se vive em função dele, e que “as melhores coisas da vida não são coisas”.

Mentes mais conectadas com a própria essência — mentes conscientes da influência do condicionamento plantado pela mídia desde sempre — tendem a ser mentes mais livres de tudo o que nos divide e nos enfraquece: tendem a ser mais isentas de preconceito, valorizam o afeto, a colaboração, a não competição, o bem-estar do outro e o amor incondicional. Entendem que “somos todos um” unidos pela humanidade, e não separados por classe social, nacionalidade, “raça”, orientação sexual ou coisa que o valha. São crianças de 10 anos tendo ideias de startups, ONGs, etc… e — adivinhem — a ideia não é enriquecer. São projetos gigantescos para ajudar outras crianças no mundo que passam fome ou não têm acesso à água potável. São mentes livres do condicionamento do “cada um por si”, de “beneficiar primeiro a si próprio e a família”; são mentes naturalmente integradas com o todo.

Enquanto alguns despertam para isso, outros ainda dormem profundamente. E se debatem dentro de si mesmos.

O progresso é lento e acordar desse “sonho-lúcido” é difícil. Já nascemos sendo bombardeados por receitas de conduta, regras de consumo altamente manipuladoras, segregadoras, que chegaram até nós pelas pessoas mais próximas — como os nossos próprios pais — , cuja formação também foi resultado dessa manipulação midiática que permeou as empresas, as estratégias de vendas, a política, etc… durante décadas, desde o início do século XX.

Na década de 20 não se consumia nessa velocidade. As aquisições eram baseadas numa necessidade real, e os produtos eram feitos para durar. Com o aumento da produção industrial em larga escala, tornou-se necessário “desovar”, girar a produção.

Estratégia nº 1 — “criar necessidades” e depois lançar produtos que solucionassem aquela demanda.

Com o tempo, por meio da propaganda, da assessoria de imprensa, notícias manipuladas, merchandising no cinema, vinculando a imagem de atores e celebridades a determinados comportamentos, etc…a indústria foi plantando novos valores: “Mais posses significava sucesso”, “Quem tem O NOVO é bem-sucedido, moderno” e “TER é sinônimo de poder, de felicidade”

Implantado isso, ficou fácil.

Os grupos como consequência se dividem, se repelem e se enfraquecem.
Nos tornamos mais manipuláveis.

E claro, permitiram a existência da miséria: sim, a miséria poderia ser erradicada. Não foi até hoje, porque sem ela não existe o medo de “cair na vida”. E sem medo não há controle.

Com o avanço da tecnologia, a indústria continuou a expandir a produção e as estratégias de venda foram se tornando mais elaboradas. As pessoas não entendendo o cenário em que estão vivendo, tentando em vão se libertar da escravidão do consumo e das aparências, buscam sair do comportamento massificado e iniciam um forte movimento de “sair do sistema”.

Na década de 70 começa a existir um tipo de terapia que valoriza o indivíduo e que estimula o indivíduo a exteriorizar sua raiva, frustrações e vontades dentro da terapia, dentro dos consultórios. “Tenho minhas vontades, eu sou único” (seguidos pela hipótese de que a frustração seria proveniente da “não realização de suas vontades”, de não conseguirem exercer o “seu eu”).

Artistas e celebridades se envolvem nesse movimento, e a indústria, percebendo isso, refinou ainda mais as estratégias de venda. Começou a criar não mais necessidades, mas produtos que “representassem as pessoas”. Afinal, até o outsider, o cara que quer “sair do sistema”, também tem um perfil, tem aspirações.

Estratégia nº 2 — posicionar os produtos de acordo com um identidade, produtos que representem os grupos.

Usaram ferramentas de pesquisa (focus group) para alimentar as estratégias de venda, não mais baseadas em idade e classe social, mas baseadas no lifestyle, nos desejos e comportamento de grupos. (Você não mais consumiria por necessidade, mas porque iria se sentir bem consumindo aquele produto ou serviço.) A indústria passou a preencher com produtos o vazio emocional criado por eles mesmos. Uma armadilha infinita. Controle total e absoluto sobre as nossas escolhas.

Nossos pais — imersos nesse cenário — decidem passar horas a fio trabalhando e passando por algumas privações para nos proporcionar bons estudos, para que tenhamos um “emprego bacana”, onde também passaremos 10, 12, 15 horas por dia trabalhando para poder comprar tudo o que precisamos para nos sentirmos felizes, para sermos aceitos, para “pertencermos”, para termos casa própria num bairro bom, carro novo e “não termos que passar pelo que eles passaram”.

Veio então uma geração de gente que compete, que se cobra ao extremo “mandar bem no trabalho”, que “puxa o tapete”, que não confia em ninguém, que se sente numa arena, que vive inseguro, se sente sem propósito e que vive com medo de perder o emprego.

Até a diversão foi setorizada. Fomos ensinados que hora de estudar é hora de estudar. Hora de se divertir é hora de se divertir. Assim dissocia-se trabalho de diversão. Aceita-se um emprego que massacra, mas paga bem; e, para compensar, a diversão ganha ares de premiação, de “eu mereço”. Com isso se consome muito mais, investe-se alto na diversão.

São aqueles que gastam uma fortuna e viajam de férias para um lugar paradisíaco, mas levam consigo toda a tralha mental. Ficam assim, como essa foto do post, ainda resolvendo bucha nas férias, falando de planilha na beira da praia, ou agoniado buscando sinal de 4G para postar tudo o que está fazendo e assim poder se sentir mais feliz, em vez de sentir a textura da areia e a brisa do mar. Desaprenderam a estar com os dois pés no presente e aí precisam ficar à base de antidepressivo para tentar — em vão — dar conta de viver nessa sociedade esquizofrênica.

A mesma estratégia permeou a política. Usaram focus group para gerar discursos dirigidos, para dizer aos grupos o que queriam ouvir e garantir a vitória nas eleições. Aliás, é só isso o que interessa: estar no poder. Há tempos não existe mais “o político”, o cara que defende os interesses da pólis, por definição. O que existe é um bando de marionetes, gente comprada pela indústria. As empresas que investem 50 milhões na campanha do político X e depois são beneficiadas nas licitações. Investem 50 e recuperam 500 em obras públicas. Baita negócio.

Não temos poder de mudança nas urnas. Todos que estão ali são escolhas impostas e já estão sendo apadrinhados por alguma empresa. (A gente escolhe no máximo que empresa vai beneficiar: se é uma construtora, se é uma petrolífera, ou uma fábrica de tomadas com novo padrão.)

Esse é o nosso mundo, nossa sociedade.

E eu, como publicitário durante tantos anos, sinto que de certa forma fiz parte de uma das engrenagens principais que alimenta esse sistema. Me sinto a vítima e o carrasco ao mesmo tempo. Confesso que foi difícil perceber, enxergar todo esse cenário e aceitar.

É como pedir para um peixe definir o oceano:
“Como assim, oceano?”
Oceano, essa massa gigantesca de água onde você vive.
“Água? O que é água?”

Estamos imersos e subservientes de tal maneira às convenções que mal conseguimos categorizá-las, mal conseguimos perceber o quanto estamos no piloto automático fortalecendo um sistema doente e que nos adoece. Vou além: nossa miopia é tanta que mal conseguimos vislumbrar o que seria viver num outro sistema, com mais sobriedade. (Não à toa, quando falo sobre isso, invariavelmente a primeira referência que vem na cabeça das pessoas é uma comunidade hippie. Ou o paleolítico…)

Confesso também que demorei muito para entender o mínimo.
Eu não me culpo, mas me responsabilizo.
(É essencial entender essa diferença, inclusive).

Sempre é tempo de mudar: a eternidade não se resume à minha própria existência, e talvez por isso eu me sinta na obrigação de escrever, de tentar apontar uma outra direção, de passar adiante o pouco que aprendi, de tirar outros véus, de ouvir mais, de continuar aprendendo, de dar exemplos melhores para os amigos, para a família, para a minha filha. Conhecimento, na minha visão, nunca foi sinônimo de poder, mas de responsabilidade.

É com essa consciência de “quem somos” e “como funciona esse lugar onde vivemos” que conseguiremos finalmente exercer a nossa essência em vez do nosso ego, e assim pararmos pouco a pouco de nos debater dentro de nós mesmos.

Hoje entendo que cada estágio do nosso despertar é somente um salto para um novo estado de menor dormência; o despertar é constante, e, principalmente, o processo de aprendizado, além de eterno, é muitas vezes perturbador.

Hoje entendo o que as grandes mudanças são as mudanças internas, e que muitas dessas mudanças são lentas, mas absolutamente impossíveis de serem ignoradas quando nos damos conta de que o nosso papel no mundo é de agente, e não de expectador.


// Site [+] www.caiobraga.com.br 
// Instagram [+]
instagram.com/caiobraga
// Fanpage Facebook [+]
facebook.com/CaioBragaPhotography

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.