O ódio ao corpo gordo

Sempre fui gordo. Desde que consigo me lembrar: gordo.
Na real, eu acho que mesmo quando eu não sabia de muita coisa, eu sabia que era gordo.

Pro Caio criança, ser humilhado e xingado por ser gordo era tão normal que acabava nem sendo tão ruim, pelo menos no começo, na ignorância.

Acontecia desde a primeira série e todo mundo achava normal. O que pra mim era humilhante, pra todo mundo era pouco mais que brincadeira.

No começo, chegava chorando em casa e corria pra minha mãe. Minha família me consolava, ou achava que me consolava: “não chora, um dia você vai emagrecer”. Era claro, sempre foi, que o culpado era eu — não meus agressores. Sempre foi assim e eu nem sei contar quantas vezes eu ouvi esse mesmo discurso. Aprendi muito bem e muito rápido que ser gordo é que era muito errado, e também é culpa integral da pessoa gorda. E a punição para esse crime capital é aguentar o que quer que venha de ofensa.

O preço de ser gordo é aguentar ofensas e humilhações sem ter direito a réplica; é um acordo tácito que a sociedade e gordos têm.

Meu desejo era sumir. Simplesmente: desaparecer. Sair da linha de fogo. Elaborei um longo plano de sumiço. Se eu ficar quietinho, talvez ninguém me note.

Em algum momento no meio do caminho, eu mudei de escola. Ainda bem, ia ser perfeito pro meu plano. Na primeira escola, o plano da invisibilidade tinha dado mais ou menos certo: os xingamentos e agressões haviam diminuído na medida que eu virava um prop, um objeto do cenário. Quanto menos eu falava e interagia, menos lembravam de me agredir. Eu até comecei a tirar notas um pouco piores para não correr o risco de me destacar de nenhuma maneira. Mas no fundo, todos sabiam de mim, porque eles lembravam..

Na nova escola estava a oportunidade de ouro — “Serei invisível desde o começo”, pensava. Com um pouco de sorte, eu passaria desapercebido.

Com um pouco de sorte, ninguém vai desconfiar que eu existo.


E deu certo. Nunca sofri bullying na segunda escola. Pelo menos nada que chegasse aos pés do que vivera antes. As piadas aconteciam as vezes, mas eu era “de boa”. Eu não ligava e isso fazia de mim um alvo não muito bom.

Eu era calmo demais e “gente boa” demais pra ter graça caçoar de mim. Eu não falava alto, não tinha muita personalidade, passava cola e não tinha muitas opiniões sobre nada — eu era um verdadeiro objeto do cenário. Era aquela cor que ninguém liga. Cor que nem nome tem. Me dava bem com todos, mas era porque eu não era ninguém. Eu não tinha personalidade o suficiente para ser desgostado. Eu só era um cara legal, gratuitamente legal. Mas era tudo parte do meu plano de ser inatingível.

Com o tempo, fiz alguns poucos amigos, que foram minha salvação. Acho que, sem eles, eu teria caído na minha própria peça: até eu teria esquecido que existo. Esses amigos foram meu motivo de viver durante todo o colégio. Me lembro que imaginar como seria viver aquilo tudo sem eles ao meu lado e estremecia.

Eu era tão vivo com eles e queria uma vida que fosse mais parecida com os momentos em que estávamos só nós três. Nesses momentos eu era alguém: eu podia ser. E isso foi virando um sonho. Um sonho bem tímido que ainda não concorria com o sonho de ser magro e me tornar parte da sociedade. Se, por um lado, ter amigos que me amavam e eram amados foi a sementinha de entender que eu podia ser feliz, por outro eu ainda me odiava por ser gordo e achava que esse era meu maior obstáculo no caminho para a felicidade. Eu só queria continuar sendo invisível pra sempre, ou pelo menos até que eu me tornasse magro.


Como todos, eu cresci ouvindo todas as gordofobias do livro. Que fulana é gorda horrível, que, nossa, como eu seria bonito se emagrecesse, que desperdício um rosto bonito desses mas gordo, que eu precisava tomar cuidado pra não virar um desses adultos gordões (por “sorte”, eu ainda era gordo — pior que gordinho mas melhor que gordão). Toda a gordofobia que permeia o discurso geral das pessoas foi me ensinando meu lugar no imaginário popular: uma subpessoa. Gordo tem que ficar pianinho, se não fica em evidência dos piores jeitos possíveis.

-Gordo não pode se mexer muito, “parece um [insira animal] dançando”.
-Gordo tem que se esforçar em dobro, “ai como gordo é preguiçoso.”
-Gordo não pode comer em público: “tá vendo, depois não sabe porque tá gordo.”
-Não pode vestir roupas colorida, “vira cortina.”
-Não pode vestir roupa curta, “ninguém quer ver isso”.
-Não pode contestar ninguém, “gordo folgado.”
-Não pode se ferir com gordofobia: “é só emagrecer, não tem porque ficar reclamando”.
-Não pode ter autoestima, gordo é feio: “me trocou por aquela gorda?”

Gordo não pode nada. E com o tempo, você não quer fazer nada.

Eu via todos os estereótipos dos quais eu tinha me safado e não queria vestir nenhum deles: o gordo-zoado, gordo engraçadão, gordo folgado, gordo escroto… Uma pessoa magra folgada não ganha estigma, ela só é folgada, mas, se for gorda, vira “aquela gorda folgada” pra sempre.

Eu sabia que eu precisava emagrecer para fazer parte do mundo. Para ser gente que nem os outros. Eu vivia pensando nisso e minha família vivia me dizendo isso.


Resolvi fazer esporte. Se você é gordo e resolve praticar atividade física, tem que aguentar todos os olhares sempre pra você, e todos os comentários. Desde o primeiro dia: olhares de dúvida e gente perguntando se minha mãe tinha me obrigado a ir lá.

Um mês de treino. Eu não era nada mal, mas era recém chegado e não era tão bom quanto os meninos que praticavam há mais tempo, mas era melhor do que os outros novatos.

Só que eu era gordo. Todas as instruções pra mim eram dadas como se eu fosse incapaz de entender o que o treinador falava, ou me tratavam como se meu corpo gordo fosse incapaz de obedecer qualquer ordem motora vinda do meu cérebro.

Eu entendi criança que você precisa fazer esporte pra emagrecer e ser aceito, mas não é bem vindo em nenhum esporte.

Nenhum mérito conseguiria desmentir isso.

Se algum outro novato errava qualquer coisa, segue a vida, tá aprendendo, é assim mesmo. Mas cada erro meu era minha gordura pesando mais ainda na minha vida. Eu não aguentei: saí depois de um mês — “ah a gente sabia q ele não ia aguentar, é muito puxado mesmo pra quem não tem condicionamento”.

Mas o que era puxado, no fim, não era o esporte. O que eu não aguentava era ser diminuido, duvidado, desacreditado o tempo todo. Era ser lembrado, o tempo todo, que eu não devia estar ali.


Me formei no colégio e a essa altura eu aceitei que nunca emagreceria e eu fiz paz com isso do jeito mais deprimente possível: já sei, vou ser mais invisível. Emagreci 15 quilos de tristeza em alguns meses. Me sentia doente o tempo todo, fraco, sem cor. Nunca fui tão elogiado. Todos me diziam como eu estava lindo e ótimo, mas eu estava péssimo.

Deprimido, apático e anêmico, mas sempre sorrindo, ouvia: “Uau! Você tá ótimo! Quantos quilos já perdeu?”

Foi uma época confusa, eu estava emagrecendo, finalmente. Eu estava muito feliz por esse lado, mas por outro eu estava péssimo. Por outro lado, emagrecer não estava sendo a panacea que eu desejava.

Acho que foi o começo da grande, necessária e terrível epifania que teria mais tarde: emagrecer não é a chave para a felicidade.


Entrei na faculdade. Tudo estava perfeito. Eu tinha emagrecido, passado na usp. Virei atleta pelo clube pinheiros, perdi mais 15kg em 1 ano — todos me diziam que eu estava lindo, ótimo, magro, arrasando, etc.

Tudo girava em torno do meu peso. Ser querido na faculdade, os meninos com quem eu me relacionava romanticamente, minha relação com o esporte. Na minha cabeça, era tudo mérito do meu emagrecimento. Era tudo plano, nivelado pelo meu desejo de ser magro. Era uma prisão. E se eu engordasse de novo, eu ia perder tudo de bom que tava acontecendo na minha vida.

Eu emagreci, no fim, cerca de 30 quilos num período de dois anos. Mas eu ainda não me sentia do jeito que eu achava que deveria. Ainda não me sentia parte deles: as pessoas magras e felizes e seguras de si. E eu pensava que era porque eu ainda devia ser gordo, embora menos.

Nesse meio do caminho, com amigos e terapia, eu fui percebendo que o que eu precisava não era pesar o valor certo. Eu só precisava reconhecer que eu existo e me respeitar. Eu precisava descobrir quem eu sou e o que eu queria, de verdade fazer. E o que eu não queria. E o que eu não gostava.

Larguei a equipe pois eu odiava competir, embora amasse treinar e foi só aí que minha vida começou a desempacar. Que comecei a viver, de verdade. Fui engordando de volta, mas sem tanta culpa.

Uma das coisas que mudou minha vida foi algo que uma amiga disse. 
Ela me emprestou uma camiseta pra eu ir pra uma festa. 
Vesti e amei: era viadíssima, decotada, estampada, larga, linda. Mas em instantes eu lembrei: eu não posso usar isso, sou gordo de novo.

Eu disse: “É linda, mas não é pra mim. Eu fico muito gordo nela. Ninguém vai se interessar. Vou vestir algo que disfarce mais, dizem que camiseta preta emagrece..”

E ela respondeu: “Ué mas que perda de tempo né? Vestir outra coisa e atrair gente uó que só acha bonito corpo que parece menos gordo do que é, eu hein. Por isso eu uso essas roupas largas, por isso eu uso blusa cropped, pra já chegar dizendo: ‘ó, é o que tem pra hoje. Aqui o que tá na vitrine é o que leva e se não gostou nem perde nosso tempo hahaha.’ ”

Rimos. Mas ela não sabia o quanto isso tinha me tocado. E o quanto isso mudou a minha vida para sempre. Esse foi o começo de um longo processo.

Um longo processo no qual eu ousava ser eu mesmo. Foi quando eu aprendi a coisa mais importante de todas:

Eu não tenho que poupar ninguém da minha gordura, eu tenho que me poupar da gordofobia dos outros.

E ser assim, assumidamente eu, assumidamente bicha, assumidante gorda, é um repelente natural de gente babaca. (Mesmo que, por outro lado, seja um imã de gente preconceituosa mais radical, desses que xinga na rua, pelo menos é um repelente de preconceituosos “light”, desses que te alfinetam no trabalho.)


Ironicamente, engordei todos os 30kg e mais uns tantos, mas as pessoas pararam de ser gordofobica. A confiança de se apresentar gordo inibe (pelo menos um pouco) os gordofobicos do plantão. Acho que isso faz com que eles não se sintam tão no direito de vir cagar regra pra mim quando vêem que estou aqui, poderoso e feliz e gordo na frente deles. Acho que dá até um tilt.

Aprendi que quem se incomodasse com coisas irrelevantes como meu peso ou minha sexualidade simplesmente não valiam a pena de ficar perto, me sugando. E não valem mesmo.

Nenhuma pessoa gordofóbica, por mais legal que ela seja em outros aspectos, vale a pena ser mantida por perto durante muito tempo. O preço pra saúde psicológica é alto demais.

E com o tempo, foi dando certo. Comecei a me cercar de gente incrível, a me amar, a amar os outros, a ser amado. Parei de querer que não percebessem que sou gordo, de querer ficar num cantinho fazendo cosplay de magro.

Parei de sonhar com ser magro. Comecei a exigir respeito. Exigir mesmo, na força, no grito. E a me ensinar que eu posso fazer as coisas. E a me deixar ser feliz.

Acho que aprendi duas lições principais:

1. Não é egoísta olhar pra si e tomar medidas para se proteger.
Ou é egoísta, mas tudo bem ser. Comece cuidando de você mesmo. Comece cortando o que te faz mal. Comece tomando medidas que te façam sentir bem. Troque os lugares, as pessoas, os trabalhos que te fazem mal e busque coisas que te fazem bem. A gente quer mudar o mundo, mas é importante começar cuidando de si, pra ficar bem e melhorar o mundo.

2. Você não precisa conseguir agir da melhor maneira o tempo todo.
Faça as coisas no ritmo que puder. A gente aprende a ser forte, a gente precisa, mas nem sempre dá conta. E se culpa muito quando não dá pra aguentar. As vezes sofrer parece um retrocesso. Cresci tanto pra chorar por causa disso? Não perca de vista que sua existência é resistência e as vezes cansa, dói, e pesa mais do que a gente consegue aguentar.

Tem dias que não dá, mesmo:

  • Tem dias que eu choro depois de procurar roupa do meu tamanho e não encontrar.
  • Tem dias que eu queria mesmo era ser magro pra não ter que me preocupar com nada disso que to escrevendo.
  • Tem dias que eu fico horas mal por causa de alguma coisa que me disseram, as vezes amigos, as vezes coisas ditas na melhor das intenções.
  • Tem dias que me xingam de gordo viado/ gordão enquanto estou indo pro trabalho (acreditem, já aconteceu várias vezes) e, ao invés de eu ser forte e mostrar meu dedo do meio e sair rebolando, eu choro no banheiro do primeiro lugar que eu conseguir entrar.
  • Tem dias que eu não consigo ser tão forte, que tô cansado demais.

E tá tudo bem. Quer dizer, tá uma merda, e exatamente por isso tá tudo bem chorar, ficar mal, sofrer, reclamar. Gordo aprende a não reclamar pra não ser chato, pra ser “gordo de boa”. Mas, cara, olhas as merda que a gente tem que passar…

Ser gordo é uma mistura de resistir, sofrer, aprender e ensinar. A gente torce pra que no meio dessa bagunça alguma coisa melhore… E eu acho que melhora sim.

E acho que é isso. O meu objetivo com esse texto é mais um desabafo mesmo. Uma coisa bem minha. Mostrar como eu fui de gordo invisível pra “é sr. gordo pra você”. Eu tive e tenho privilégios demais para tentar dar alguma lição de vida ou ensinar qual o jeito melhor para superar qualquer coisa.

Então o máximo que consigo ter de ambição é isso: contar como foi e é pra mim — numa espécie de exorcismo, em que eu tiro isso do meu sistema— e torcer pra que, de quebra, isso traga algo de bom pra alguém.