A Pele sob Tecido

Uma análise sobre “Fast Fashion” e o Consumismo de Moda na Sociedade e sua Influência Cultural analisada pela literatura

Alexey Kondakov

O consumo de moda e artigos do gênero têm aumentado exponencialmente em um fenômeno chamado de Fast Fashion , cuja aceita e fiel tradução traz: Moda Rápida, ou seja, o indivíduo compra e descarta, criando um ciclo ininterrupto de consumo.

Atualmente, com a concentração da produção básica de moda sendo feita em países que apresentam baixos dígitos salariais e pouca ou nenhuma legislação trabalhista, grandes marcas, entranhadas nos guarda-roupas dos indivíduos, conseguem custear uma demanda cada vez mais alta, dado que o mercado se aquece constantemente e tais empresas geram um lucro anual de bilhões de dólares vendendo em larga escala a preços baixos.

Um bom exemplo é um trecho do livro Crime e Castigo, qual, levianamente dizendo, traz uma análise um tanto ampla de facetas do mundo de consumo (jovem) escondidas nos hábitos mais simples, como comprar uma peça de roupa:

“Como vês, […] para fazer carreira na sociedade basta, acho eu, observar sempre a estação; se em janeiro se dispensa o aspargo, então a gente guarda mais alguns rublos na carteira; o mesmo se pode dizer desta compra (um chapéu). Estamos no verão e fiz uma compra de verão, por que no outono a estação já vai pedir uma fazenda mais quente, de sorte terás que jogar esta fora… ainda mais porque até lá o teu luxo crescente ou a tua desordem interior já terá estragado tudo.” — Fiódor Dostoiévski: Crime e Castigo

Dada a comparação, claro, em análise literária que tende a fugir do tema central, neste trecho percebe-se que a roupa, a moda em si, tem um papel social enorme, sendo considerada um fator de ascensão social. Em outros livros, como em Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, há alusões a moda, onde são citadas por diversas vezes a compra de materiais caros relativos ao convívio social, bem como o consumo de moda, percebida a análise sintética da moda das “Cartucheiras de Pseudo-Marroquim” e em suas incessantes mostras de qualidade e preço.

“Mas as roupas velhas são horríveis”, continuava o murmúrio infatigável. “Nós sempre jogamos fora as roupas velhas. Mais vale acabar que conservar […] — A ética e a filosofia do subconsumo.” — Aldous Huxley: Admirável Mundo Novo

Países como China e Bangladesh agregam um grande número de trabalhadores que praticamente entraram em situação escravista devido a intrínseca necessidade de consumo humana. Exemplificando, nestes países ocorreram diversas catástrofes que levaram milhares de trabalhadores ao óbito, deixando suas famílias. Outro ponto é a própria insalubridade existente na convivência da população com resíduos tóxicos provindos de indústrias têxteis. Salientando esta situação de vida e trabalho, uma característica perdida no processo capitalista e visível a todos, é realmente a ligação direta dos produtores com seus produtos. Perdeu-se a percepção das mãos humanas no processo; o homem que faz não é levado em conta, torna-se mero insumo e moeda — algumas moedas tem mais valor do que outras — em todo o processo.

“Como os produtores somente entram em contato social mediante a troca de seus produtos de trabalho, as características especificamente sociais de seus trabalhos privados só aparecem dentro dessa troca.” — Karl Marx: Fetichismo de Mercadoria (O Capital)

Em suma, tomando como fecho o título: a Pele sob o Tecido é o que existe muito além do plástico dos manequins e das fibras das roupas; entranhado no tecido há um sangue e uma vida fictícia que toma valor, infelizmente, à medida que o preço sobe. Conclui-se que o desejo do consumismo aliado a moda perece tanto no próprio cerne quanto a vida daqueles países e de seus trabalhadores, pois o consumismo não consegue suprir-se de imediato; torna-se cadeia nociva de um sistema trabalhista onde vigora sobre a vida o que a falsamente embeleza.


Bibliografia e Fontes:
.Livros: Admirável Mundo Novo / Crime e Castigo / Fetichismo de Mercadoria (O Capital) / O Grande Gatsby / Tudo o que é Sólido Desmancha no Ar
. Documentários: “The True Cost”