‘Killing Eve’: a assassina em você

Gata e rata: Jodie Comer (à esq.) e Sandra Oh protagonizam — e brilham em — ‘Killing Eve’, a série imperdível deste ano (Divulgação/BBC America)

Eu paralisaria você com saxitoxina e o sufocaria enquanto dorme”, diz Eve Polastri para seu esposo, ao descrever como o mataria. “O picaria nos menores pedacinhos que poderia. Te ferveria. O colocaria em um liquidificador. O levaria para o trabalho em uma garrafa, o jogaria na privada de um restaurante e daria descarga.”

Para capturar um assassino em série, você talvez deva pensar como um — é o que a protagonista de Killing Eve (BBC America) faz, mas ainda tem um limite a ser cruzado nesta dinâmica. Como muitos detetives da ficção policial, ela fica obcecada pela assassina psicopata que busca, Villanelle, mas a grande sacada desta nova série de Phoebe Waller-Bridge — de Fleabag (BBC), uma comédia à qual o termo “humor negro” não faz jus, tamanho seu atrevimento — é apropriar-se deste conceito e transformá-lo: a investigada também se obceca por quem a investiga. É assim que Waller-Bridge, uma roteirista de habilidades afiadíssimas, faz de Killing Eve um thriller psicológico construído em torno de mulheres, algo bastante raro para o gênero — em ambos os sentidos da palavra.

Eve, que ganha vida em incontáveis texturas e níveis de força pela fabulosa Sandra Oh, é uma agente da MI5 entediada com o trabalho burocrático que lhe foi incumbido. Ela é inquieta demais para ficar à mesa do escritório; não é consciente de si mesma o suficiente para conter o impulso de se arranhar ao sentir uma coceira. Assim que sua atenção é tomada por uma assassina de atuação internacional, que mata figuras influentes dos meios político e corporativo, Eve larga a papelada para rastrear a criminosa e, no processo, não se importa muito com os procedimentos e instâncias da MI5.

Trinta anos depois, Sandra Oh conquista o frequente trabalho para atores brancos: o que marca e muda a carreira (Divulgação/BBC America)

Villanelle (Jodie Comer) diverte-se horrores viajando pelo globo abocanhando vítimas, encurralando-as como presas. Se a abordagem de feminilidade de Killing Eve se manifesta em seus aspectos mais inusitados ao mostrar Polastri em ação, com Villanelle não é diferente. A jovem frequentemente mata alvos com objetos associados aos cuidados da mulher com a própria beleza — mas acompanhados de veneno, como o grampo de cabelo que ela usa para perfurar o cérebro de uma vítima pelo olho.

Comer está tão à vontade no papel que você dificilmente não sorrirá ao vê-la em cena. Conforme Killing Eve se aprofunda na personagem e descobrimos o que a moldou para tornar-se uma assassina, Comer acata a complexidade de Villanelle sem deixar de mostrar o quão excêntrica e impulsiva ela é na superfície. Enquanto isso, o humor da série fica cada vez mais corrosivo; a atmosfera, mais sinistra; e a relação de ambas as protagonistas, mais estreita e peculiar.

Villanelle é bissexual e se encanta ao conhecer Eve. No primeiro encontro presencial de ambas, a agente da MI5 está alheia ao fato de a jovem ser a assassina que é objeto de sua busca, mas também percebe — e acolhe — a eletricidade entre ambas. Eve arruma seus volumosos cabelos encaracolados diante de um espelho. Villanelle sugere que ela os deixe soltos e vai embora. Ambas apreciam a beleza e o carisma uma da outra. Ambas têm a vida virada de cabeça para baixo depois de um simples encontro de espelho de banheiro, um tipo íntimo e ligeiro de interação tão associado às mulheres.

Embora seja 20 anos mais jovem que Oh, Comer entrega uma atuação cuja grandeza se equipara à da colega, que só de carreira soma mais tempo do que Comer de vida. Ainda assim, é Oh quem vive um momento digno de ser percebido. A atriz canadense, após seu inesquecível papel em Grey’s Anatomy (ABC) como a Dra. Cristina Yang — que lhe rendeu um Globo de Ouro e cinco indicações ao Emmy — e mostrar sua presença expressiva em filmes como Reencontrando a Felicidade (2010), MeninaMá.Com (2005) e Sideways — Entre umas e Outras (2004), sofreu de um mal típico que a indústria do entretenimento inflige aos atores de descendência asiática: um “semi-ostracismo”, digamos assim. Killing Eve mudou isso. Oh, que aqui também é produtora, tem dito em entrevistas ter ficado surpresa ao ser informada de que o papel que lhe foi oferecido era o de protagonista — e um papel dos bons, em um projeto dos bons. Eve é originalmente de Connecticut e mora em Londres; bem como a atriz, também tomou posse de seu lugar em uma terra na qual ela é a estranha.

Esta nova série de Waller-Bridge é tão exótica, rápida e estilosa que parece ter vindo de outra dimensão. Ou melhor: como bem mostra a história de Oh, do futuro.

A primeira temporada de Killing Eve tem oito episódios de 42 minutos, exibidos pela BBC America entre abril e maio deste ano. Não há previsão de estreia no Brasil.

(Dica: se quiser conhecer mais a obra de Waller-Bridge, veja a excelente Fleabag, disponível no Brasil pela Amazon Prime Video. Na comédia, além de ser criadora, roteirista e produtora, ela interpreta o papel-título — e brilha nisso também.)