As duas vidas de Charlize Theron em ‘Tully’

Capa da trilha sonora do filme, composta por Rob Simonsen (Divulgação/Back Lot Music)

A comédia dramática Tully (2018) apresenta Charlize Theron como Marlo, uma mãe que acaba de parir o terceiro filho que tem com o esposo Drew (Ron Livingston). Estar afastada do trabalho pela licença-maternidade não é de grande ajuda para a protagonista, que está sobrecarregada com as tarefas domésticas, os cuidados com as outras duas crianças — Sarah (Lia Frankland), a mais velha, e Jonah (Asher Miles Fallica), a quem falta um diagnóstico objetivo que explique seu comportamento instável — e a rotina de acorda-dorme-acorda para amamentar a recém-nascida noite adentro.

Ao perceber que a irmã dá sinais de exaustão, o bougie Craig (Mark Duplass) lhe oferece como presente uma “babá noturna”, para Marlo não entrar pela segunda vez em depressão pós-parto, como aconteceu após dar à luz a Jonah. A mãe, compreensivelmente, não aguenta o tranco e pede água— em uma cena sufocante, durante uma crise com os filhos dentro do carro, ela liga para o número que Craig lhe anotou. Eis que surge Tully (Mackenzie Davis). Vinte anos e 20 kg a menos que Marlo, a millennial está feliz da vida com a tarefa de cuidar do bebê. A garota é sensacional: cuida da recém-nascida tão bem quanto cuida da mãe, deixa a casa brilhando e até assa cupcakes para as crianças levarem para a escola.

Tully marca a terceira vez em que o diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody colaboram após Jovens Adultos (2011) e Juno (2007). Este novo trabalho, ao contrário de Juno — que consagrou Reitman como um diretor respeitável e deu a Cody o Oscar de roteiro original — , segue a linha de amargura de Jovens Adultos. Também protagonizada por Theron, esta desoladora comédia de humor negro mostra a atriz sul-africana em uma tour de force estarrecedora no papel de Mavis, uma escritora egoísta e desequilibrada em busca de acabar com o casamento de um ex-namorado para reconquistá-lo. Portanto, não se deixe enganar pelo trailer de Tully. Os momentos fofos que nele aparecem de fato estão no longa-metragem, mas como a própria Cody tem dito por aí, o filme não tem a intenção de ser confortável — muito pelo contrário.

Aqui, a maternidade é abordada pela experiência assustadoramente exaustiva e solitária que ela pode ser — um sem fim de fraldas a serem trocadas, chilique de criança pequena, mancha de vômito no carpete e responsabilidades demais para braço de menos. Drew — personagem um bocado formulaico — é aquele cara boa-praça que não tem tempo para a família porque, veja a contradição, está focado em um projeto profissional que pode desapertar a situação financeira deles. (Talvez seja esta uma das poucas falhas do roteiro de Cody: a história se serviria bem de coadjuvantes menos satélites e mais complicados e detalhados.)

Charlize Theron é uma mãe sobrecarregada em ‘Tully’ — mas, diferente da personagem, para a estupenda atriz não parece haver tempo ruim (Divulgação/Diamond)

O novo longa do trio não tem como objetivo principal ser um panfleto sobre depressão ou psicose pós-parto. Quem já viu Jovens Adultos pode perceber isso por meio das semelhanças temáticas entre ambas as produções. E, quem escolher ver Tully como apenas um filme — e não um “textão” de Facebook sobre maternidade feminista e saúde mental — , também pode notar a discussão que surge por meio das circunstâncias em que Marlo se encontra.

Em respaldo a essa proposta está o relacionamento de Marlo e Tully. A doçura e o espírito livre da babá se contrapõem à amargura da protagonista; elas desenvolvem uma amizade em que há troca de confidências, risadas e até alguns momentos com voltagem homoerótica. Elas não percebem isso logo de cara, mas a presença de Tully faz Marlo colocar-se diante de um espelho — e o reflexo, para além dos 20 kg a mais, é bem desagradável. O desempenho das atrizes — em especial o de Theron, sempre estupenda — , dotados de acurácia e despretensão, mostram os insights em que Tully se baseia.

Graduada em inglês, mas encostada em um emprego chato no campo de recursos humanos, Marlo não sabe bem como foi parar ali, naquele bairro suburbano com três crianças que transbordam energia e um esposo bem intencionado porém inerte. Reitman e Cody são tão certeiros ao mostrar a naturalidade dessas circunstâncias na intimidade familiar que, sem grande surpresa, seus filmes vêm de lugares bastante pessoais, em que a dupla examina suas próprias experiências com paternidade e maternidade, envelhecimento e expectativas, relacionamentos e caminhos que eles tomam.

Este é outro aspecto em que Tully e Jovens Adultos se assemelham. Ambos são ligeiros e cortantes; o novo filme dura apenas uma hora e meia e, acredite, deixa você desconcertado ao fim da sessão.

A vida real infelizmente não vem com o texto engenhoso de Diablo Cody para sairmos tagarelando por aí. No entanto, se colocarmos lado a lado Marlo e Mavis, torna-se claro que pelo menos podemos seguir o exemplo da protagonista de Tully e nos dispôr a extrair ensinamentos das confusões em que nos metemos. Mais cedo ou mais tarde, chega o dia em que todos precisamos ser, de alguma maneira, a mãe de nós mesmos. Talvez doa.

PONTO POSITIVO Trio Charlize Theron, Diablo Cody e Jason Reitman sempre surpreende e faz filmes brilhantes
PONTO NEGATIVO Falta desenvolvimento a alguns coadjuvantes
AVALIAÇÃO Muito bom

Tully estreou em 24 de maio. Classificação indicativa: 14 anos. Duração: 95 minutos. País: Estados Unidos. Distribuição: Diamond.