Em ‘Dunkirk’, um desastre muda a História — e um diretor muda o cinema

O estreante Fionn Whitehead, de apenas 20 anos, é Tommy, o protagonista (Melinda Sue Gordon/Warner Bros.)

Vinte cinco anos estão entre os primeiros rabiscos da ideia de Dunkirk (2017) e a estreia do novo longa-metragem colossal dirigido por Christopher Nolan, também responsável por Interestelar (2014), A Origem (2010) e pela trilogia Batman — O Cavaleiro das Trevas (2005–2012). Todos, sem sombra de dúvida, são alguns dos maiores filmes dos últimos anos.

Uma das principais diferenças entre Nolan e outros tantos diretores de blockbusters é a ambição do cineasta britânico: ele sempre busca alargar as possibilidades que o cinema oferece para contar histórias. Seja em aspectos técnicos ou em estruturas narrativas, muitas delas labirínticas, como as de A Origem e Amnésia (2000).

Dunkirk não é diferente. Aproximadamente 70% do longa-metragem foi rodado em IMAX 65 mm e em película 65 mm, para ser exibido nos cinemas em 70 mm — algo raro hoje em dia, considerando que a mídia digital já dominou quase todas as salas de cinema do mundo. O diretor de fotografia Hoyte van Hoytema, indicado ao Bafta por Interestelar e O Espião Que Sabia Demais (2011), e Nolan decidiram filmar quase tudo de perto, para transmitir a sensação tátil das experiências que os personagens vivem. Isso implicou em, por exemplo, colocar as grandes, pesadas e barulhentas câmeras de IMAX em suportes nas asas e dentro das cabines dos Spitfires, os aviões de caça usados pelo exército britânico na II Guerra Mundial, período no qual a história de Dunkirk acontece. Hoytema e os cinegrafistas carregaram as câmeras sobre os ombros e também com a estabilizadora de câmeras Steadicam.

O som vibrante, os efeitos quase todos práticos, os barcos — que são os mesmos usados no episódio histórico aqui abordado — e a assombrosa trilha sonora composta por Hans Zimmer, colaborador de longa data de Nolan, não negam que Dunkirk, embora não seja uma narrativa em prosa contada em primeira pessoa, ou um videogame em primeira pessoa ao estilo de Call of Duty, é uma experiência sensorial e de imersão na evacuação do exército britânico das praias francesas em 1940. Christopher Nolan dá alguns passos a frente tanto com narrativas de guerra quanto com o cinema em geral. Dunkirk foi feito para ser visto em IMAX. É claro que nem todo mundo pode pagar pelo ingresso dessa modalidade de sessão, que tende a custar o dobro da tradicional, mas se possível, veja-o na sala de maior tela e com o melhor som. Esta experiência sublime não vai deixar você escapar ileso da sessão.

Tom Hardy dá vida ao (fictício) piloto de caça Farrier; o personagem faz parte da terceira janela narrativa, ‘o ar’ (Warner Bros./Divulgação)

O longa tem poucos diálogos; todos são pontuais e concisos, escritos em um modesto roteiro de 70 páginas, ao contrário dos vários outros que Nolan já escreveu. Ainda assim, há uma estrutura narrativa engenhosa, baseada em três pontos de vista do conflito: 1. o molhe (com duração de uma semana), 2. o mar (um dia) e 3. o ar (uma hora). Cada um tem seu personagem principal, Tommy (Fionn Whitehead), Sr. Dawson (Mark Rylance) e o piloto Farrier (Tom Hardy), respectivamente, e a ordem dos acontecimentos não é cronológica. (O elenco, todo em boas atuações, ainda conta com Kenneth Branagh, Harry Styles, Aneurin Barnard, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Cillian Murphy, e Michael Caine, em participação não creditada, como a voz na comunicação via rádio da Força Aérea inglesa.)

Em quase todos os 106 minutos de duração de Dunkirk o foco está em detalhes. Também quase não há sangue, mutilações ou soldados em rompantes de desespero; Nolan fugiu de muito do que já foi feito em filmes de guerra ao fazer o seu.

Dunquerque, segundo Nolan: O acontecimento também foi retratado em ‘Desejo e Reparação’ (2007), de Joe Wright, e no romance do qual foi adaptado, ‘Reparação’, de Ian McEwan (Warner Bros./Divulgação)

O chamado “desastre militar” abordado pelo filme foi decisivo na História. Nove meses após o início da guerra, entre o fim de maio e início de junho de 1940, a Inglaterra tinha 500 mil soldados nas praias de Dunquerque, no norte da França, rodeados por tropas do III Reich. A perda dessa quantidade de homens era impensável para a Grã-Bretanha, que integrava os Aliados contra Hitler. Para piorar a situação, era impossível para navios da Marinha Real chegarem às praias, porque a água estava rasa demais para eles — entretanto, a Inglaterra estava logo ali, do outro lado do Canal da Mancha. A solução foi no mínimo inusitada: a população inglesa que possuía barcos foi convocada a navegar até Dunquerque e ela mesma levar os soldados para casa, ou pelo menos até um navio no qual pudessem voltar. Segundo o historiador Robert Tombs, em entrevista à Time, essa era a única chance de sobrevivência deles. “[E] se não tivesse dado certo, a Grã-Bretanha teria que se render a Hitler e a Alemanha teria dominado a Europa”, afirma.

O Operação Dínamo foi considerada um milagre, pois ao contrário das expectativas de resgatar apenas de 30 a 45 mil homens, conseguiu salvar a vida de mais de 300 mil. O filme de Nolan é uma homenagem à bravura das pessoas envolvidas nesse acontecimento.

Como se uma ousadia puxasse a outra, o cineasta, por sua vez, conseguiu ele próprio também fazer algo extraordinário — novamente.

PONTO POSITIVO Testemunhar o esforço máximo de um grande diretor
PONTO NEGATIVO Não há
AVALIAÇÃO Muito bom

Estreia nesta quinta-feira (27). Classificação indicativa: 14 anos. Duração: 106 minutos. País: Reino Unido/França/Estados Unidos/Holanda. Distribuição: Warner Bros. Pictures Brasil.

(Esta resenha também foi publicada no HuffPost Brasil.)