‘Em Ritmo de Fuga’: Quem dirige bem de verdade aqui é Edgar Wright

Ansel Elgort (à direita) e Jamie Foxx prestes a roubarem uma agência de correio: curta a música e aproveite a viagem (Sony Pictures/Divulgação)

Logo de cara, Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, 2017) nos avisa que é semelhante a seu protagonista — veloz, esperto e acompanhado de uma trilha sonora estupenda, Baby (Ansel Elgort) trabalha como motorista para Doc (Kevin Spacey), um planejador de assaltos a quem o rapaz deve dinheiro. Para pagar a dívida e terminar de vez com as estripulias na bandidagem, será necessário um último trabalho com Doc e sua equipe de ladrões. É claro que esse será o mais desafiador de todos; não por ser um roubo excepcionalmente difícil, mas pelos colegas não serem fáceis e haver muito em jogo para todos.

Até aí, nada de 100% novo, concorda? Afinal, vimos algo semelhante em Drive (2011), de Nicolas Winding Refn, por exemplo. No entanto, isso não é problema aqui, porque a principal diferença entre Baby Driver e qualquer outro filme de assaltos com perseguições em alta velocidade é justamente quem o dirige— no caso do segundo, trata-se do excelente Edgar Wright.

Aos 43 anos e mais de 20 de carreira, o inglês é do tipo que, como poucos, entende a importância do som na narrativa cinematográfica e como usá-lo com inteligência para construir ritmo e humor, ainda mais se aliado à montagem. Ele mostra isso em seus trabalhos anteriores, seja na ótima série de comédia Spaced, na Trilogia Corneto — Todo Mundo Quase Morto (2004), Chumbo Grosso (2007) e Heróis de Ressaca (2013) — ou em Scott Pilgrim contra o Mundo (2010). Mas é em Baby Driver que Wright chega a seu ápice nesse sentido. Ele reconhece que ingredientes já conhecidos pelo público, se bem usados, rendem um banquete; no caso de Baby Driver, um de linguagem ultra-pop.

Cenas de perseguição em ‘Baby Driver’ são sublimes, mas não se engane — quem dirige bem de verdade aqui é Edgar Wright (Sony Pictures/Divulgação)

O protagonista tem um objetivo que, em tese, é simples: finalizar o trabalho e dar o fora de Atlanta com sua garota, a garçonete Debora (Lily James, adorável). Assim como Baby, ela não vive sem música. No caso do rapaz, é por causa do grave tinido que ele tem em ambos os ouvidos, resultado do acidente de carro que matou seus pais e lhe deixou o trauma — fica claro que ele dirige porque gostaria de ter salvo a mãe.

Girando em torno do interesse de Baby e também focados em seus próprios, estão Buddy (o ótimo Jon Hamm), Darling (Eiza González) e Bats (Jamie Foxx, também em atuação vigorosa), todos ladrões carismáticos e idiossincráticos. Elgort não causa grande impressão, mas é versátil e tem bom desempenho, seja atrás do volante enquanto faz lip sync do que ouve nos fones de ouvido ou com os diálogos brilhantes escritos por Wright.

Há participações de músicos no longa — Sky Ferreira é a mãe de Baby em flashbacks, Flea (baixista dos Red Hot Chilli Peppers) é um assaltante sem nariz e os rappers Big Boi e Killer Mike fazem pontas. Jon Bernthal e CJ Jones têm participações saborosas como o bem humorado Griff e o pai adotivo de Baby, respectivamente.

O diretor, vale ressaltar, tem experiência com a fusão de perseguições, velocidade e música. No vídeo arrasador “Wheels on Wheels” (a trilha é “Helter Skelter”, dos Beatles), feito por ele próprio nos anos 1990 com VHS, e no videoclipe de “Blue Song”, que ele dirigiu para a banda Mint Royale com o humorista Noel Fielding como protagonista, Wright mostra embriões do que Baby Driver viria a ser.

É curioso relembrar que, após oito anos de labuta, ele acabou sendo demitido pela Marvel de Homem-Formiga (2015), por causa de “diferenças criativas” entre diretor e estúdio. O resultado final é um filme que apresenta aqui e ali traços de Wright, mas nada que se compare à estatura de obras realizadas por ele próprio de cabo a rabo. Em seguida à frustração com Homem-Formiga — no qual Wright ficou com créditos no roteiro e na produção — o diretor foi fazer Baby Driver e agora nos mostra ser um cineasta do qual não se deve deixar sair do assento de motorista. Azar da Marvel, sorte nossa.

PONTO POSITIVO Direção de Edgar Wright
PONTO NEGATIVO A premissa é batida (mas não fragiliza o filme em um todo)
AVALIAÇÃO Muito bom

Estreia nesta quinta-feira (27). Classificação indicativa: 14 anos. Duração: 113 minutos. País: Estados Unidos/Reino Unido. Distribuição: Sony Pictures.