‘La La Land’: nem só de referências vive uma boa homenagem

Emma Stone e Ryan Gosling sapateiam em cena de ‘La La Land’: Ele tem atuação monótona, mas Stone vive personagem com apetite (Dale Robinette/Summit)

Uma de suas mais belas cenas do musical La La Land — Cantando Estações (La La Land, 2016) informa algo valioso a respeito de si mesmo. Os protagonistas Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) cantam ao piano “City of Stars”, a música mais emblemática do longa-metragem, diante de uma cortina que resplandece a luz verde que vem do lado de fora.

Lembra — e muito — uma das cenas-chave do suspense Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock, em que James Stewart e Kim Novak se beijam envoltos à luz verde de um letreiro de neon que também não é retida pela cortina atrás deles.

Este é um dos pontos em que está a força do aguardado filme de Damien Chazelle — mas também sua fraqueza.

O diretor usa diversas referências — algumas são inconfundíveis, e outras, nem tão diretas assim — a clássicos de Hollywood, musicais ou não, para construir o mundo no qual La La Land se ambienta. Ao recorrer principalmente a símbolos e emoções já exploradas e consagradas no passado, Chazelle parece estar um bocado inseguro para vender seu peixe.

Não que usar referências e homenagens seja essencialmente uma má ideia, mas estamos falando de um diretor que, em seu longa anterior, o extraordinário Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014), fez o oposto com brio e, muitas vezes, audácia.

Em La La Land, o cineasta não assume riscos: a mistura apresentada simplesmente não tem como dar errado. Nenhum diretor é obrigado a repetir os mesmos truques de um trabalho anterior ou de seus filmes de cabeceira, é verdade — sejamos razoáveis — , mas o resultado final de La La Land não deixa dúvidas. As grandes capacidades ainda inéditas de Chazelle ficaram do lado de fora da festa.

Emma Stone, de azul, em um dos números mais divertidos de ‘La La Land’ (Dale Robinette/Summit)

Na verdade, quem parece se divertir bastante por aqui é Stone. Nesta que já é uma das atuações mais importantes de sua carreira, ela interpreta uma atriz que quer despontar em Los Angeles. Mia faz testes atrás de testes, mas só ouve “não” atrás de “não”. Após conhecer de maneira improvável o coprotagonista, Sebastian, e trocar alguns arranhões com ele, a jovem engata um relacionamento com o pianista.

Ambos alimentam os sonhos um do outro. Ela quer deixar o emprego de balconista em um café dentro do estúdio Warner e se tornar uma das atrizes que ali passam para comprar bebidas. Ele quer abrir um clube de jazz para dar espaço ao gênero musical que é sua paixão e religião — e não aceita o que seja menor que isso. No entanto, ninguém parece dar o mínimo para as habilidades ou sonhos dos dois. E os bicos que Sebastian faz como pianista ilustram bem isso — são trabalhos deprimentes.

No filme, LA é uma cidade que parece ter saído diretamente de um sonho. Em uma cena, as cores azul e rosa se fundem lindamente no céu, enquanto Gosling canta em um píer. A meca do cinema, entretanto, também pode ser gélida, indiferente, e a fotografia de Linus Sandgren também é precisa ao capturar isso. São inúmeros sonhadores ali, batalhando por reconhecimento, à espera da oportunidade que os catapultem para o sucesso. E a realização de sonhos exige sacrifícios.

Stone, ao contrário de Gosling, passa longe de ser monótona ao dar vida a Mia — ela é assertiva ao transmitir cada nuance da personagem. Em um dos testes, a atriz é ótima ao mostrar apenas com a expressão facial uma sutil e silenciosa transição de emoção de Mia.

Gosling, por outro lado, felizmente tem palavras para expressar o que Sebastian tem dentro de si. Por mais carismático que seja, o ator e o excesso de simplicidade em seu desempenho acabam sendo ultrapassados por Stone — nisso, a química entre ambos começa a apresentar falhas, embora tenham boas performances nas cenas de dança.

A sempre ótima Rosemarie DeWitt faz breves aparições como a irmã mais velha de Sebastian, e J.K. Simmons — vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante por Whiplash — tem uma saborosa participação como um chefe do pianista.

Chazelle e Gosling no set do longa: O ator aprendeu a tocar piano para o papel (Dale Robinette/Summit)

Além dos atores em destaque, Chazelle mostra logo nos primeiros minutos ter boa mão para dirigir cenas repletas de figurantes e dançarinos também.

La La Land inicia com um divertido e complexo número executado em longo plano-sequência, em pleno engarrafamento em uma rodovia de Los Angeles. Chazelle rodou o longa no formato CinemaScope 55 — usado por Hollywood nos anos 1950 — , o que reforça tanto a nostalgia de La La Land, quanto faz de cada momento uma imagem charmosa, que remete aos sonhos dos protagonistas e à realidade dura e cinzenta que habita o mesmo contexto.

O diretor também acerta em muitas medidas. Não há excessos na obra. Drama, romance, comédia e música nunca transbordam ou se atrapalham. Chazelle tem sucesso na delicada tarefa de fazer de seu musical um espetáculo sem exageros. Musicais tendem a precisar que seus expectadores também fantasiem um pouco para aderir à experiência, mas o diretor parece ter tomado o cuidado de não exigir do público o de sempre.

Uma pena que os acertos de La La Land parem por aí. Chazelle — que também é roteirista — faz questão de homenagear peças icônicas de cinema, como Casablanca (1942), Cantando na Chuva (1952), Rebelde sem Causa (1955) e Os Guarda-Chuvas do Amor (1964). Estes, que são ingredientes essenciais do longa, ajudam a massa a ficar homogênea — mas o sabor dá pouca água na boca. Sintoma de que homenagens tendem a ser mais ressonantes quando não são apenas fins em si mesmas.

PONTO POSITIVO Emma Stone e números de dança cativam, mas…
PONTO NEGATIVO 
… nada de exatamente novo é apresentado
AVALIAÇÃO
Bom

Estreia nesta quinta-feira (19). Classificação indicativa: livre. Duração: 128 minutos. País: Estados Unidos. Distribuição: Paris.