‘Liga da Justiça’ não nega: maior problema da DC continua a ser o próprio diretor

Gal Gadot e Ezra Miller se destacam como Mulher-Maravilha e Flash, respectivamente; Ben Affleck, por outro lado, apenas comparece como Batman (Divulgação/Warner)

Soa óbvio dizer isto, mas vale reforçar: filmes são coisas complexas demais para serem reduzidos a vereditos de sites como Rotten Tomatoes e IMDb, seja em números ou frases curtas. Dito isto, é seguro confirmar que Liga da Justiça (Justice League, 2017) é muito superior a Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) — e merece ser visto, de preferência, sem o ranço de fãs xiitas que não perdem a chance de se debruçar em expectativas.

Liga da Justiça começa dando um recado. Em estilo de filmagem de celular, Superman aparece e é questionado por crianças empolgadas sobre o que ele mais gosta na Terra. Sim, este filme é mais leve que o antecessor.

Em seguida, inicia-se uma sequência taciturna — ao som de “Everybody Knows”, de Leonard Cohen, em ótima versão na voz de Sigrid — na qual somos apresentados ao que aconteceu com o mundo após a morte de Superman (Henry Cavill) em BvS: para azar deles, lembra bastante o nosso. Tem ascensão de discriminação contra imigrantes, grupos de ódio em atuação e terrorismo que expressa como o medo parece ter se enraizado nas relações humanas. Medo, nota-se, é um dos principais temas de Liga — preste atenção na função que ele tem em diversos momentos da projeção.

Enquanto isso, Batman (Ben Affleck, ainda pedestre no papel) se amarga no remorso pela morte do colega de capa, embora não seja o responsável por ela; com o apoio de Mulher-Maravilha (Gal Gadot), ele está em busca de recrutar seres com superpoderes para formar um grupo que defenda o mundo daquilo que, sozinhos, eles não poderiam derrotar. Convenientemente, surge uma ameaça: Lobo da Estepe (Ciarán Hinds, em performance de captura de movimentos), mais um antagonista que não é bem antagonista, mas um vilão. A criatura tem a intenção de pegar para si todas as Caixas Maternas, espécie de dispositivos para armazenar energia criados por deuses, que estão espalhadas pela Terra e vão lhe trazer controle e poder absolutos.

Batman e Mulher-Maravilha conseguem recrutar Flash (Ezra Miller, competente na função de ser carismático e engraçado) fácil fácil — os que dão mais trabalho são Ciborgue (Ray Fisher) e Aquaman (Jason Momoa), mas como os trailers já adiantam, dá certo e eles partem para a pancadaria contra Lobo da Estepe.

Liga, ao contrário de Batman vs Superman, é leve, funciona, diverte e engaja — há drama, mas nada de discursos grandiloquentes como aqueles que fizeram de BvS um oscilante amontoado de coisas.

Há, no entanto, muitas rebarbas típicas da mão pesada do diretor, Zack Snyder. É admirável o olhar detalhista do cineasta; sua capacidade de conceber cenários de imenso escopo e de latente fisicalidade são suas conhecidas marcas registradas. O problema, entretanto, é quando Snyder parece se esquecer que dirige um filme, e não um vídeo publicitário.

Snyder é bom diretor, mas as evidências disso se encontram apenas em Watchmen (2009), 300 (2006) e Madrugada dos Mortos (2004). Em O Homem de Aço (2013), que deu início ao novo universo da DC Comics nos cinemas, vale mencionar que ele soube mostrar com alguma naturalidade as emoções mais subjetivas de Superman, algo bastante incomum levando-se em conta a filmografia do diretor.

No entanto, aqui ele repete sua recente tradição de priorizar o estilo à substância. As consequências são graves: a sempre ótima Amy Adams não consegue salvar sua Lois Lane de ser superficial — ela é a repórter intrépida e esperta que nunca demonstra nada disso e só existe em função de Superman. J.K. Simmons aparece brevemente como Comissário Gordon, mas apenas para acenar que está lá. Lobo da Estepe, por sua vez, cai no lugar-comum do antagonista que quer dominar ou destruir tudo — isso acompanhado de uma voz grave, com direito a sotaque britânico e um CGI pouco expressivo.

O vilão — já que o termo “antagonista” talvez nem seja de todo coerente para descrevê-lo — é a parte mais frágil do argumento concebido por Snyder e Chris Terrio, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado pelo estupendo Argo (2012).

Terrio divide os créditos de roteiro com o excelente Joss Whedon (Vingadores, Buffy, a Caça Vampiros), um sujeito que não apenas tem ampla experiência em narrativas de super-heróis, como tem o necessário conhecimento em dramaturgia para contar bem as histórias que se dispõe a contar.

A dupla conseguiu entregar um texto mais perspicaz, consistente e autoconfiante que o de BvS. Uma justificativa para isso talvez seja a ausência de David S. Goyer nos créditos de roteiro — o único gol marcado por Goyer em seus muitos anos de carreira é dividir os créditos de história, e nada mais que isso, com Christopher Nolan em Batman Begins (2005), cujo roteiro foi escrito inteiramente pelo diretor com seu irmão, Jonathan Nolan (Westworld).

O que pode vir a ajudar de fato a DC a sair desse caminho repleto de fissuras talvez seja descartar o próprio diretor, depois de Goyer (responsável pelos textos tropeçantes de BvS e Homem de Aço). No entanto, parece que isso não acontecerá: Snyder já está confirmado como diretor de sequência de Liga da Justiça, a estrear em 2019.

Whedon foi chamado de última hora para reescrever partes do roteiro e dirigir cenas que Snyder não pode ao se afastar da produção por causa de questões particulares. Cerca de 15 a 20% do filme tem a assinatura de Whedon — o bacana é que isso não prejudica Liga. Pelo contrário: talvez até tenha prejudicado menos o filme.

Snyder dá corpo e ritmo acertados ao roteiro, é menos publicitário e mais focado em história — mas, para dar outro exemplo, ainda assim insiste em cenas de ação de mise-en-scène confusa. Fica nítido: tem bastante coisa faltando.

É importante lembrar que Liga vem na esteira de Esquadrão Suicida (2016), de David Ayer, que só fez falhar ainda mais o motor que já chegou engasgando. (Sempre busco mencionar o quanto gosto das atuações de Margot Robbie e Viola Davis neste filme. A personagem de Davis é aquela vilã que amamos odiar; ela é tão gélida e precisa que nem se importa em comer um bife enquanto narra casualmente as barbaridades feitas pelos membros do tal Esquadrão.)

Continua a se salvar, como tem sido desde BvS, a deslumbrante Mulher-Maravilha de Gal Gadot. Após o ótimo filme lançado em junho deste ano, atriz e personagem retornam adoráveis, esbanjando inteligência, carisma e aptidão física. Ao contrário de Patty Jenkins, diretora de Mulher-Maravilha, Snyder não perde tempo quando tem a chance de explorar o que há sob a saia de Gadot — o que já diz bastante a respeito do que é prioridade para ambos.

Jenkins tem a qualidade editorial, digamos assim, de saber identificar o que deve e o que não deve estar em tela. Nada de rebarbas, tudo na medida correta; estilo e aparência devem ser funcionários da história, e jamais o oposto. Jenkins, sim, é uma cineasta — bem que Snyder poderia ter algumas aulas com ela.

(P.S.: Tem uma cena durante e outra pós-créditos. Afinal, Liga é um filme de super-heróis, portanto sempre há cena pós-créditos — e o reflexo quase que incontrolável de falar sobre um filme mencionando os outros que o acompanham.)

PONTO POSITIVO Tem tudo o que Batman vs Superman não tem: funciona, diverte e engaja
PONTO NEGATIVO O próprio diretor
AVALIAÇÃO Bom

Estreia nesta quinta-feira (16). Classificação indicativa: 12 anos. Duração: 120 minutos. País: Estados Unidos. Distribuição: Warner.