‘Moonlight’: silêncio do filme indicado ao Oscar tem muito a dizer na era Trump

Caio Delcolli
Feb 23, 2017 · 3 min read
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Mahershala Ali e Alex R. Hibbert em momento essencial de ‘Moonlight’: o traficante garante que o frágil Little não se afogue (David Bornfriend/A24)

O silêncio tão comunicativo do cineasta Barry Jenkins em Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016), que tem arrebatado audiências mundo afora — inclusive oito indicações ao Oscar — , é particularmente ressonante no momento político que tantos países atravessam, como os Estados Unidos, agora governados por Donald Trump com demagogia, intransigência e ódio.

Se a gritaria tem sido o elemento mais recorrente do debate, o filme de Jenkins, baseado na peça In Moonlight Black Boys Look Blue, de Tarell Alvin McCraney — que compartilha crédito no roteiro com o diretor — aposta no universo interior pouco verbalizado do personagem principal para colocar à mesa um ponto de vista do extremo da marginalização social.

O vigor de Moonlight está tanto na intersecção de identidades do protagonista Chiron, negro, gay e pobre, quanto nas atuações e habilidades afinadas do diretor para narrar a história.

A jornada de Chiron é contada em três fases de sua vida: na infância, chamado de “Little” e vivido por Alex R. Hibbert; na adolescência, atendendo pelo próprio nome, interpretado por Ashton Sanders; e como jovem adulto, chamado de “Black”, na pele de Trevante Rhodes. Chiron, silencioso e dócil, vive no ambiente hostil da periferia de Miami; em casa, ele é vítima de abusos psicológicos da própria mãe, a dependente química Paula (Naomie Harris).

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Hibbert em cena como Little, cuja melancolia é representada lindamente pela fotografia de James Laxton (David Bornfriend/A24)

O único afeto que o menino encontra está no lar composto pelo traficante de drogas Juan (Mahershala Ali) e sua esposa, Teresa (Janelle Monáe). Uma amizade com Kevin (vivido cronologicamente por Jaden Piner, Jharrel Jerome e André Holland) também serve de alento a Chiron. Bem humorados e tranquilos, os três chegam a parecer não fazer parte do mesmo contexto em que o personagem é vítima da mãe desequilibrada e do bullying na escola; por Kevin, o protagonista desenvolve outros sentimentos.

Há precisão e poesia no olhar de Jenkins. O perfil que o cineasta constrói de Chiron não precisa de muitas palavras; com apoio do ótimo elenco e das belas fotografia de James Laxton e trilha sonora de Nicholas Britell, Jenkins investiga o personagem e o meio em que ele vive, mostrando sem rodeios as consequências que a opressão traz, dentro ou fora de casa, dentro ou fora do coração e da mente de Chiron.

Este longa-metragem já é um marco na carreira do diretor — ele próprio negro e de infância na pobreza, embora seja heterossexual — , cuja voz se faz tão presente e pertinente, após dirigir apenas um filme, , lançado oito anos atrás.

É importante notar que Chiron, quando adulto, contém dentro de si um oceano de palavras não ditas, que Jenkins exibe apenas pelo silêncio do rapaz. Abrir-se para o mundo pode ser impossível para quem não tem estrutura concedida pelas instituições responsáveis — mas o diretor faz silêncio de Chiron falar por muitos.

PONTO POSITIVO Ótima execução e tema político pertinente
PONTO NEGATIVO Não há
AVALIAÇÃO Muito bom

INDICAÇÕES AO OSCAR
Melhor filme
Melhor direção (Jenkins)
Melhor roteiro adaptado (Jenkins; enredo: McCraney)
Melhor ator coadjuvante (Ali)
Melhor atriz coadjuvante (Harris)
Melhor fotografia (Laxton)
Melhor trilha sonora (Britell)
Melhor montagem (Joi McMillon e Nat Sanders)

Estreia nesta quinta-feira (23). Classificação indicativa: 16 anos. Duração: 111 minutos. País: Estados Unidos. Distribuição: Diamond.

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