Sobre ‘novos caras-pintadas’ e novos meios para não sermos apenas isso

“São os novos caras-pintadas.”

Esta frase foi dita pelo repórter da Globo News Gabriel Prado, neste domingo (15/3), na cobertura da manifestação contra a corrupção e a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, na Avenida Paulista, em São Paulo (SP).

“Fora, PT!”, “Fora, Dilma!” e “Dilma vagabunda!” são algumas frases ditas pelos “novos caras-pintadas”. Alguns deles pedem intervenção militar, houve suástica numa faixa e abaixo-assinado contra o casamento gay.

A comentarista Cristiana Lôbo reforçou a relevância da manifestação. Disse que a cena do milhão — dado da Polícia Militar de SP — de pessoas presentes assemelha-se às do Diretas-Já.

Prado disse que, ao contrário das manifestações de 2013, quando “mascarados” e “vândalos” foram às ruas, os manifestantes de hoje tiveram “relação amistosa” com a PM. Como turistas felizes, tiravam fotos dos soldados de preto carregando trabucos.

Em contrapartida e simultaneamente, no topo dos trending topics do Twitter estava a hashtag #MenosOdioMaisDemocracia.

Ken Doctor, analista de mídia e autor do livro Newsonomics (Editora Cultrix, 2011), acertou quando disse: “O velho mundo das notícias acabou — vamos aceitar isso”.

Embora tenha contribuição inegável para a construção do jornalismo brasileiro, o Grupo Globo é uma das grandes empresas de mídia que ainda penam para se localizar na pluralidade de discurso que faz a internet ser hoje o meio de comunicação mais empolgante.

Os inúmeros lados que apenas uma história pode ter estão lá. Em blogs, redes sociais, vídeos, áudios, infográficos interativos. Todos alimentados pelas crenças pessoais e paixões de quem está do outro lado das telas de façanhas tecnológicas.

Evidência de que a narrativa jornalística não precisa ser estática, gélida e ter um ponto final.

Clay Shirky, especialista em internet, diz em seu livro A Cultura da Participação (Editora Zahar, 2011) que “oportunidades foram possibilitadas pela tecnologia, mas criadas por seres humanos”.

Se a grande imprensa desliza nesse sentido, jornalistas e ex-jornalistas dela ou fora dela se unem para colocar a fala de Shirky na prática. É o caso do recém-nascido Jornalistas Livres.

O projeto consiste em fazer “cobertura colaborativa de narrativas independentes e plurais, contra a parcialidade da mídia tradicional”. Em sua página no Facebook, já tem 7.831 mil curtidas. Sintoma de que há público com fome de novidade.

Não é preciso fazer grande esforço para notar como os textos do Jornalistas Livres são alienígenas diante do que estamos habituados a ler na grande imprensa. Os outros lados são mostrados pelo JL. E, embora tenha várias qualidades — alcance, jornalistas talentosos, ótimas publicações — , a grande imprensa esqueceu sua cabeça no século 20.

Shirky diz em sua talk no Ted “Como a mídia social pode fazer história” (em 2009!) que grandes broadcasters têm eficiência para levantar debates, mas não para gerar grupos. “E os que são bons a [sic] gerar grupos não são bons a gerar conversas.”

Ele divide o tema em três grandes mudanças:

  1. Na internet, a comunicação é de “muitos para muitos”, ao contrário do telefone (“de um para um”) e dos grandes broadcasters (“de um para vários”);
  2. A rede tem todas as outras mídias: filmes, músicas, revistas, imagens, textos. “Posto de outra forma”, diz Shirky, “os meios são cada vez menos apenas fonte de informação. São cada vez mais meio de coordenação. Grupos que veem ou ouvem alguma coisa podem agora juntar-se e também falar uns com os outros”;
  3. O consumidor de mídia também é produtor. Conforme cresce a quantidade do primeiro, cresce também a do segundo — o mesmo indivíduo tem esses dois papéis. Equipamentos que permitem o consumo, como computadores e celulares, permitem também a produção. “É como se, quando se comprasse um livro, eles adicionassem a impressora gratuitamente”, diz o especialista.

É neste ponto que voltamos à cobertura da Globo News das manifestações deste 15 de março. A emissora já não é o único ator social a determinar a narrativa.

A narrativa não tem mais dono. Construímos e transmitimos juntos a história da vida real, cujo número de facetas é incontável.

Cabe às grandes empresas de jornalismo, que já foram engolidas pelas novas tecnologias, apostar no relacionamento com a sociedade.

Foi-se o tempo em que era possível não apostar na fome de novidade do consumidor. Veículos de jornalismo precisam de credibilidade para se sustentar. Quanto mais esforço para fugir do simplismo do “novos caras-pintadas”, mais credibilidade haverá. E atualidade também.